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Domingos Martins: o herói capixaba que quase ninguém conhece de verdade

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Retrato a óleo de Domingos José Martins, herói capixaba da Revolução Pernambucana de 1817, com casaca escura e gravata branca
Domingos José Martins, líder da Revolução Pernambucana de 1817. Acervo: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1917.
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Você já se perguntou quem foi Domingos José Martins, homenageado em ruas, monumentos e até no nome de um município do Espírito Santo? Apesar de sua presença na memória capixaba, sabemos relativamente pouco sobre sua vida. E o pouco que conhecemos revela uma história mais complexa do que a imagem de herói construída ao longo do tempo.

Um capixaba em busca de fortuna

Domingos José Martins nasceu provavelmente na região que hoje corresponde a Marataízes, no litoral sul do Espírito Santo. Era filho de Joanna e Joaquim Martins. Segundo a pesquisa de Bruna Bigossi sobre sua trajetória, as informações sobre seus primeiros anos são escassas. As fontes disponíveis sugerem que ele estudou em Portugal e, depois de retornar ao Brasil, passou por Vitória, Bahia e Recife, onde buscou oportunidades para prosperar como comerciante.

Foi em Pernambuco que Martins se aproximou dos grupos políticos envolvidos na contestação ao domínio português e ao governo monárquico. Em março de 1817, a Revolução Pernambucana derrubou o governo local e estabeleceu um movimento republicano que pretendia organizar um novo regime político. Martins tornou-se uma de suas principais lideranças.

A experiência, porém, durou pouco. A revolução foi reprimida pelas forças da Coroa portuguesa, e seus principais participantes foram perseguidos e presos. Domingos José Martins acabou executado na Bahia, em 12 de junho de 1817, tornando-se um dos mártires do movimento.

Um herói visto de outra maneira

Mas será que todos enxergavam Domingos Martins como um grande herói? Um relato escrito pelo comerciante francês Louis-François Tollenare, que conheceu Martins em Pernambuco, apresenta uma visão bastante diferente daquela que seria consagrada posteriormente.

Em seus relatos, o comerciante francês apresentou uma visão bastante crítica de Domingos José Martins. Para ele, Martins era um homem ambicioso, que buscava prestígio e procurava convencer os outros de suas capacidades políticas. Ao comentar sua trajetória comercial, Tollenare afirmou que ele havia passado muito tempo “no encalço da fortuna sem atingi-la” e que, no Recife, não conseguira alcançar a posição que desejava entre os grandes comerciantes. O francês interpretava sua aproximação com a política como resultado, em parte, dessa insatisfação.

Tollenare também questionava as habilidades intelectuais e políticas de Martins. Embora reconhecesse sua capacidade de influenciar pessoas, acusava-o de simular qualidades para conquistar aliados, afirmando que ele “tem audácia, é hipócrita, simula energia, altivez, afabilidade protetora”. Chegou ainda a sugerir que Martins teria usado sua posição política para obter vantagens pessoais, inclusive no casamento com a filha de um importante comerciante pernambucano.

Essas acusações, porém, precisam ser lidas considerando a relação entre os dois. O próprio Tollenare admite seu ressentimento ao recordar um conflito comercial: depois de se recusar a emprestar seu brigue, o Félicité, para uma viagem aos Estados Unidos, teria recebido de Martins críticas e demonstrações de rancor. Ao final, reconheceu que sentia “uma espécie de aversão pelo sr. Martins”. Esse detalhe não invalida automaticamente seu testemunho, mas mostra que suas avaliações estavam atravessadas por desavenças pessoais.

Apesar das críticas, Tollenare reconheceu a importância política de Martins. Segundo ele, era na casa do capixaba que se realizavam encontros entre brasileiros, oficiais militares e outros participantes do movimento. O francês considerava Martins “um dos principais autores da revolução” e admitiu que ele demonstrou coragem quando foi preso, além de energia ao voltar a mobilizar seus aliados. Seu relato, portanto, é contraditório: ao mesmo tempo que procura diminuir as qualidades pessoais de Martins, confirma sua influência e participação ativa na Revolução Pernambucana de 1817.

Essa contradição ajuda a compreender por que a trajetória de Domingos Martins exige cautela. Tollenare não oferece um retrato neutro, mas o testemunho de alguém que conviveu com ele e também teve conflitos pessoais. Entre as críticas do comerciante francês e a imagem heroica posteriormente construída pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, existe um personagem cuja vida ainda precisa ser investigada para além das versões que tentaram defini-lo.

Como nasceu o herói capixaba

Soneto do patriota Domingos Martins. Acervo: Revista do Instituto Histórico
e Geográfico do Espírito Santo, 1917.

Décadas depois de sua morte, Domingos Martins passou a ocupar um lugar cada vez mais importante na memória pública do Espírito Santo. A partir do final do século XIX, integrantes da elite intelectual capixaba começaram a reivindicá-lo como símbolo do republicanismo e da luta contra a monarquia.

Essa valorização ganhou força com a criação do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES), em 1917. Na edição inaugural de sua revista, o Instituto dedicou espaço expressivo à memória de Martins, apresentando-o como uma figura heroica da Revolução Pernambucana. Textos, discursos, uma imagem de página inteira e até um poema atribuído a ele ajudaram a consolidar essa homenagem.

Não se tratava apenas de recordar um personagem do passado. Naquele contexto, a República brasileira ainda era recente, e a construção de heróis nacionais e regionais ajudava a legitimar o novo regime. Martins, executado por sua participação em uma revolução republicana, oferecia um personagem especialmente adequado a esse propósito.

A memória dele, assim, foi sendo organizada e difundida por instituições e intelectuais que buscavam estabelecer referências para a identidade capixaba. A imagem pública do herói não surgiu pronta em 1817: foi construída e reforçada ao longo das décadas seguintes.

Referências

BIGOSSI, Bruna Breda. Domingos José Martins: a invenção de um herói para os capixabas no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Orientador: Ueber José de Oliveira. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Espírito Santo, 2018.

TOLLENARE, Louis-François. Notas Dominicaes. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1978.

Foto de Vinicius Borges

Vinicius Borges

Vinicius Borges Ferreira é historiador, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), consultor histórico e produtor de conteúdo sobre História nas redes sociais. Nesta coluna, seu objetivo é contar e revisitar a história do Espírito Santo, apresentando personagens, lugares, acontecimentos e memórias que ajudam a compreender a formação do estado. A proposta é aproximar a História do público, valorizando a memória capixaba e mostrando que conhecer o passado do Espírito Santo também é uma forma de compreender o presente.

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