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Viana já teve praia e fazia divisa com Minas Gerais

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Estação ferroviária de Vianna em foto antiga, registro da história do território de Viana, com igreja ao fundo nas montanhas
A antiga estação ferroviária de Vianna, com a igreja no alto do morro e as casas espalhadas pelo vale.
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São poucas as pessoas que olham hoje para o atual território de Viana e lembram que o município já foi muito maior do que é atualmente. Ao longo do século XIX e do início do século XX, seus limites se estendiam por áreas que hoje pertencem a diversos outros municípios. Em 1837, por exemplo, Viana chegava à divisa com Minas Gerais e possuía uma faixa de litoral que incluía as regiões onde hoje estão Barra do Jucu e Ponta da Fruta, em Vila Velha.

Um município que nasceu para ocupar o interior

A história dessa grande Viana começa no início do século XIX, quando o Espírito Santo passou a receber um novo impulso de ocupação de seu interior. Entre fevereiro de 1813 e março de 1814, chegaram à região cerca de 250 imigrantes vindos dos Açores, arquipélago português formado por nove ilhas. Eles deram origem à Colônia Agrícola de Santo Agostinho, núcleo que posteriormente ficou conhecido como Viana e que é considerado o primeiro núcleo colonial de imigrantes do Espírito Santo.

A iniciativa fazia parte de um projeto de ocupação e desenvolvimento do interior da então Capitania do Espírito Santo. A vinda dos açorianos ocorreu durante o governo de Francisco Alberto Rubim e contou com a atuação de Paulo Fernandes Viana, então intendente-geral da Polícia do príncipe regente. Os imigrantes foram estabelecidos nas proximidades dos rios Jucu, Formate e Santo Agostinho, onde receberam terras para desenvolver atividades agrícolas e criação de gado.

Mas é importante lembrar que aquela região não surgiu com a chegada dos açorianos. Antes deles, o território já era ocupado e transformado por povos indígenas, jesuítas e populações escravizadas. Um dos exemplos mais importantes é Araçatiba, onde existiu uma grande propriedade rural inicialmente administrada pelos jesuítas, cuja produção utilizava mão de obra escravizada e abastecia o Colégio dos Jesuítas, em Vitória. Posteriormente, a região também se tornou espaço de permanência de populações indígenas e de formação de comunidades quilombolas.

O enorme território de Viana

A Lei de Projeção de Limites nº 13, de 30 de dezembro de 1837, mostra a dimensão que Viana possuía naquele período. O atual município chegava à divisa com Minas Gerais e se estendia até o litoral, alcançando áreas onde hoje estão Barra do Jucu e Ponta da Fruta. Mas essa grande extensão territorial começaria a diminuir poucos anos depois.

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Em 23 de julho de 1862, Viana conquistou sua autonomia política e tornou-se uma vila, desmembrando-se de Vitória. A emancipação, entretanto, foi seguida pelo início de um longo processo de divisão territorial. Em 1864, com a criação da vila de Cachoeiro de Itapemirim, Viana perdeu as terras de São Pedro de Alcântara do Rio Pardo, na região de Iúna, além do Aldeamento Imperial Afonsino. Em 1867, novos desmembramentos retiraram definitivamente de seu território as áreas que hoje correspondem a Castelo, Muniz Freire e Iúna.

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Ao longo do final do século XIX e, principalmente, durante o século XX, novas vilas foram se formando e outras áreas passaram a ser administradas por localidades vizinhas. Santa Isabel, atual Domingos Martins, foi uma das primeiras grandes perdas territoriais. Em 1893, a região conquistou sua emancipação, levando consigo uma extensa área que havia sido ocupada a partir de Viana. Em 1914, outro desmembramento transferiu para Cariacica as regiões de São Paulo, Piaíba, Biriricas, Alegre e Bico do Galo. Aos poucos, portanto, aquele enorme território foi sendo repartido entre diferentes municípios.

Ao longo desse processo de desmembramentos, o antigo território de Viana deu origem, total ou parcialmente, a diversos municípios que hoje conhecemos no Espírito Santo, entre eles Afonso Cláudio, Alegre, Alfredo Chaves, Brejetuba, Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Conceição do Castelo, Divino de São Lourenço, Domingos Martins, Guarapari, Ibatiba, Ibitirama, Irupi, Iúna, Marechal Floriano, Muniz Freire, Santa Maria de Jetibá, Vargem Alta, Venda Nova do Imigrante e Vila Velha. Em alguns casos, apenas parte do território atual desses municípios pertenceu a Viana, mas a lista ajuda a dimensionar a extensão que o município já teve e como seus limites foram sendo reduzidos ao longo do tempo.

Quando Viana perdeu o acesso ao mar

Entre todas essas mudanças, uma das mais simbólicas foi a perda do litoral. Afinal, o município que em 1837 chegava ao mar acabou, algumas décadas depois, sem qualquer acesso à costa. Para entender como isso aconteceu, é preciso olhar para a região de Camboapina, onde está localizada a atual Barra do Jucu.

Em 1938, uma nova definição dos limites municipais transferiu Camboapina para o então município do Espírito Santo, atual Vila Velha. A situação, entretanto, ainda sofreria uma nova mudança: em 1943, a Barra do Jucu voltou a ser administrativamente vinculada a Viana. Poucos anos depois, porém, a Constituição do Espírito Santo de 1947 determinou que, para a definição dos limites municipais, fosse considerada a configuração estabelecida pelo Decreto nº 9.941, de 11 de novembro de 1938. Com isso, a Barra do Jucu voltou a ficar sob a administração de Vila Velha. Em 1953, a Lei Estadual nº 779, de 29 de dezembro, ratificou definitivamente essa situação.

Deste modo, Viana deixou de ser aquele enorme município que, no século XIX, alcançava Minas Gerais e o litoral. Como observa Honorato (2020), a sucessão de desmembramentos e emancipações reduziu progressivamente seus limites e fez com que Viana perdesse não apenas terras, mas também o acesso ao mar e parte de sua força econômica e política.

Assim, aquilo que hoje parece uma característica natural – Viana ser um município sem litoral – é, na verdade, também resultado de um longo processo histórico. A cidade que conhecemos hoje é apenas uma parte daquela Viana que, no século XIX, se estendia das montanhas até o mar e chegava à divisa com Minas Gerais.

Referências:

BALESTREIRO, Heribaldo Lopes. Subsídios para o Estudo da Geografia e da História do Município de Viana. v. 1, Ed. JEP Gráfica, 2012.

HONORATO, Juliano Prata. Viana-ES no século XXI: o processo de segregação socioespacial e os investimentos públicos. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória. 2020.

Foto de Vinicius Borges

Vinicius Borges

Vinicius Borges Ferreira é historiador, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), consultor histórico e produtor de conteúdo sobre História nas redes sociais. Nesta coluna, seu objetivo é contar e revisitar a história do Espírito Santo, apresentando personagens, lugares, acontecimentos e memórias que ajudam a compreender a formação do estado. A proposta é aproximar a História do público, valorizando a memória capixaba e mostrando que conhecer o passado do Espírito Santo também é uma forma de compreender o presente.

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