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Revolta de Xandoca: quando o ES teve dois governos e uma disputa política terminou em guerra

A Revolta de Xandoca dividiu o Espírito Santo em 1916, com dois governos, confrontos armados, mortes e disputa pelo poder.
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Bernardino de Souza Monteiro e José Gomes Pinheiro Júnior. Acervo: Biblioteca Pública do Estado do Espírito Santo – Revista Vida Capichaba, nº 6, p. 1, 1923; nº 196, p. 22, 1929.
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Em 1916, o Espírito Santo viveu uma das maiores crises políticas de sua história. Durante alguns meses, o estado chegou a ter dois governos e dois Congressos Legislativos, enquanto grupos rivais disputavam o controle do território. Houve tiroteios, mortes, perseguições e centenas de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas.

O episódio ficou conhecido como Revolta de Xandoca, nome herdado do coronel Alexandre Calmon, conhecido pelo apelido de Xandoca e um dos principais líderes da oposição.

Disputa pelo poder divide a política do Espírito Santo

Para entender essa revolta, é preciso voltar ao grupo político que dominava o Espírito Santo naquele momento. Segundo a historiadora Nara Saletto, em 1916, Jerônimo Monteiro, que havia governado o estado entre 1908 e 1912 e continuava exercendo grande influência política, lançou a candidatura de seu irmão, Bernardino Monteiro, então senador, à presidência do Espírito Santo. A candidatura deixava evidente a intenção dos Monteiro de consolidar uma verdadeira oligarquia familiar, já que diversos integrantes do grupo ocupavam cargos importantes no estado.

A escolha provocou uma reação imediata. Parte da bancada federal capixaba e seus aliados estaduais passaram para a oposição, acompanhada pelo então vice-governador Alexandre Calmon, chefe político de Colatina. Os oposicionistas buscaram o apoio do presidente da República, Wenceslau Braz, que já vinha defendendo uma espécie de regeneração dos costumes políticos e estava preocupado com a situação financeira do Espírito Santo.

Crise econômica aumentava a tensão política

Havia também um contexto econômico delicado. O Brasil enfrentava os efeitos da Primeira Guerra Mundial, com queda das exportações de café e dificuldades para obter recursos no exterior. Isso porque o Espírito Santo era acusado de não honrar empréstimos contraídos com bancos europeus e garantidos pelo Tesouro Nacional. Somavam-se a isso denúncias de corrupção envolvendo o governo estadual e o Banco Hypothecário, criado em 1911.

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Wenceslau Braz chegou a tentar convencer os irmãos Monteiro a desistirem da candidatura de Bernardino. Eles não recuaram. O presidente então tornou pública sua posição e passou a prestigiar a oposição.

Oposição lança candidato contra Bernardino Monteiro

Os oposicionistas lançaram José Gomes Pinheiro Júnior, médico e político do sul do estado, para a presidência estadual. Para vice, escolheram Alexandre Calmon, o Xandoca.

A eleição ocorreu em meio a uma crescente tensão. E o resultado produziu uma situação que parece improvável até mesmo para os padrões turbulentos da Primeira República: os dois grupos afirmaram ter vencido.

Bernardino Monteiro foi declarado eleito e empossado por um grupo do Congresso Legislativo. Pinheiro Júnior também foi declarado eleito e empossado, mas por outro grupo.

Espírito Santo passa a ter dois governos

Isso aconteceu porque o próprio Congresso Legislativo estava dividido pela disputa política: os setores ligados à situação, controlados pelos Monteiro, sustentavam a candidatura de Bernardino, enquanto a oposição apoiava Pinheiro Júnior. Em outubro de 1915, os deputados estaduais governistas haviam promovido uma reforma constitucional e eleitoral que prorrogou seus próprios mandatos por mais quatro meses – tempo suficiente para participar do processo eleitoral e, posteriormente, proclamar Bernardino como vencedor.

A oposição, porém, questionou a legalidade dessa manobra e levou a questão ao Senado Federal. Com dois grupos reivindicando a legitimidade da eleição e cada um reconhecendo seu próprio candidato, o Espírito Santo passou a ter, simultaneamente, dois presidentes e dois Congressos Legislativos.

Tiroteio leva governo da oposição para Colatina

Segundo Namy Chequer, na noite da investidura de Pinheiro Júnior, houve intenso tiroteio nas proximidades do Hotel Internacional, em Vitória, onde ele estava. Temendo pela própria vida, o novo presidente da oposição deixou a capital e seguiu para Colatina, onde instalou seu governo. Colatina tornou-se, então, o centro da resistência.

É nesse momento que Alexandre Calmon, o Xandoca, ganha protagonismo. De Colatina, ele passou a comandar a resistência armada contra as forças ligadas aos Monteiro. A revolta se espalhou por outros municípios e transformou a disputa eleitoral em um conflito político e militar.

Parte do discurso de Paulo de Mello na Câmara dos Deputados, no dia 10 de julho de 1916.

Confrontos provocaram mortes e fuga de moradores

A violência foi tamanha que chegou ao Congresso Nacional. Em discurso na Câmara dos Deputados, o deputado capixaba Paulo de Mello contestou a ideia de que o Espírito Santo vivia em paz. Segundo ele, havia relatos de conflitos em diferentes comarcas e, em Afonso Cláudio, confrontos teriam provocado mais de vinte mortes. Paulo de Mello denunciou ainda que parte da população de Colatina havia buscado refúgio em Natividade de Manhuaçu diante da violência.

A fala revela como o conflito era percebido por seus contemporâneos. Não se tratava apenas de uma briga entre políticos pelo cargo de presidente do estado. Portanto, a disputa atingia comunidades inteiras, provocava deslocamentos de população e levava a confrontos armados.

Governo federal entra na disputa

Enquanto isso, os dois grupos buscavam o reconhecimento do governo federal. A oposição, instalada em Colatina, pediu a intervenção federal no Espírito Santo e contestou a eleição e a posse de Bernardino. Wenceslau Braz, que havia apoiado os oposicionistas antes da eleição, acabou recuando. A questão chegou ao Congresso Nacional, onde ocorreram longas discussões sobre a legitimidade da eleição.

A decisão final favoreceu Bernardino Monteiro. O Congresso reconheceu sua eleição e concedeu anistia aos revoltosos. A derrota da oposição destruiu sua força política e consolidou o domínio dos Monteiro sobre o Espírito Santo.

Referências

BOU-HABIB FILHO, Namy Chequer. A Revolta de Xandoca: desafio à Oligarquia Monteiro no ES (1916). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História na Universidade Federal do Espírito Santo. Orientador: Profª. Dr.ª Nara Saletto. Vitória, 2007.

BRASIL. Congresso Nacional. Anais da Câmara dos Deputados. Sessões de 1 a 13 de julho de 1916, volume IV. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1918.

SALETTO, Nara. Sobre política capixaba na primeira República. Vitória, ES: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2018.

Foto de Vinicius Borges

Vinicius Borges

Vinicius Borges Ferreira é historiador, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), consultor histórico e produtor de conteúdo sobre História nas redes sociais. Nesta coluna, seu objetivo é contar e revisitar a história do Espírito Santo, apresentando personagens, lugares, acontecimentos e memórias que ajudam a compreender a formação do estado. A proposta é aproximar a História do público, valorizando a memória capixaba e mostrando que conhecer o passado do Espírito Santo também é uma forma de compreender o presente.

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