Hoje associamos Domingos Martins às montanhas, ao frio e à imigração alemã. A cidade carrega uma imagem de tranquilidade rural. Mas em 6 de outubro de 1897, mais de cem homens armados tomaram Santa Isabel, então sede do município, e derrubaram o governo local à força. O episódio, conhecido como Sedição de Santa Isabel, permaneceu praticamente esquecido por mais de um século.
Quem recuperou essa história foi o historiador Fábio Rodrigo Cirino Leite. Ele defendeu, em 2025, a dissertação A Sedição de Santa Isabel: aspectos de uma insurreição esquecida (1897), no Programa de Pós-Graduação em História da UFES. A pesquisa serve de base para esta coluna e revela uma Domingos Martins bem diferente da imagem pacífica que conhecemos.
A fundação da Colônia de Santa Isabel
O governo imperial fundou a Colônia de Santa Isabel em 1847, como parte dos esforços para ocupar o território da então província do Espírito Santo e atrair imigração europeia. A colônia ficava a cerca de 40 quilômetros de Vitória, em uma região montanhosa nos vales dos rios Jucu e Santa Maria da Vitória.
Segundo o pesquisador Helmar Rölke, os primeiros imigrantes alemães destinados a Santa Isabel embarcaram no porto de Antuérpia em outubro de 1846, a bordo do navio Philomena. Passaram pelo Rio de Janeiro e chegaram a Vitória em dezembro daquele ano, a bordo do navio Eolo. O livro Imigrantes registra 165 colonos nessa primeira leva, vindos principalmente do Hunsrück e do Hesse, na atual Alemanha.
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Desse processo de colonização nasceram as comunidades que originaram o atual município de Domingos Martins. Santa Isabel recebeu imigrantes majoritariamente católicos, enquanto Campinho, formado pouco depois, tornou-se um núcleo protestante importante. Segundo o historiador Jean Roche, a convivência entre os dois grupos religiosos nem sempre foi tranquila, e essa separação ajudou a criar identidades e interesses políticos distintos entre as duas comunidades.
Disputa política abre caminho para a sedição
Após a Proclamação da República, Santa Isabel ganhou autonomia administrativa. Em 1893, o distrito se desmembrou de Viana e formou um município próprio, com Campinho como sede do governo. A situação mudou em 1896: o Decreto nº 19 transferiu a sede municipal de Campinho para Santa Isabel.
Para lideranças de Campinho, a mudança representava perda de poder político. A insatisfação cresceu ao longo de um ano e meio, até se transformar em uma ação armada organizada.
O dia em que Santa Isabel foi tomada
Na manhã de 6 de outubro de 1897, mais de cem homens armados, muitos montados a cavalo, chegaram a Santa Isabel. O tabelião Manoel de Oliveira, testemunha do episódio, relatou que o grupo primeiro localizou os praças destacados na vila, provavelmente para neutralizar qualquer reação armada.
Em seguida, os insurgentes foram até a casa de Arthur Corrêa de Mattos Thompson, presidente do governo municipal. Thompson tentou negociar com Carlos Gerhardt, uma das principais lideranças do movimento, e chegou a se oferecer para entregar as chaves da administração. A negociação fracassou. O grupo invadiu a residência, retirou Thompson à força e o agrediu, além de atacar sua esposa, seu sogro, sua sogra e seu secretário, Ulysses Lessa.
Depois, os insurgentes arrombaram o prédio da administração municipal e levaram livros, arquivos e móveis para Campinho, sem destruir o material. A escolha revela o objetivo político do movimento: transferir pela força o centro de poder do município. Em Campinho, os líderes declararam deposto o governo de Santa Isabel e proclamaram uma nova junta governativa.
Homens armados ocuparam pontos estratégicos da vila enquanto outros disparavam garruchas e lançavam bombas de dinamite pelas ruas. O controle durou pouco. As autoridades reagiram, prenderam os participantes e a Promotoria Pública da Comarca de Viana denunciou o grupo pelos crimes de sedição e lesões corporais.
Quem eram os líderes da revolta
Os documentos judiciais analisados por Fábio Leite apontam como principais lideranças Carlos Gerhardt, Pedro Gerhardt e Miguel Kriger. A lista de envolvidos inclui ainda José Pereira da Cruz, Franz Kerpam, Maximiliano Brause, Pedro Schwamback, Frederico Hiller, Adolpho Dresler, Maximiliano Sallocker, Emilio Liebman, Guilherme Bautz, Gustavo Liebman, Frederico Schmidt, Frederico Pedro, João Mund e Carlos Figer.
Os registros mostram que os envolvidos não eram marginais: muitos eram chefes de família, lavradores e proprietários. Alguns foram presos em suas próprias casas ou no trabalho, convencidos de que haviam exercido um direito legítimo. A pesquisa indica, portanto, um movimento com liderança e planejamento, não uma explosão de violência desorganizada.
O legado esquecido da sedição
Com o tempo, a violência da sedição perdeu espaço para a imagem de ordem e trabalho associada aos imigrantes alemães. Ainda assim, a história revela uma realidade mais complexa. O território que hoje reconhecemos pelas montanhas e pelas tradições da imigração também foi palco de uma insurreição armada, com explosivos, agressões e uma tentativa concreta de derrubar o governo municipal.
Conhecer a Sedição de Santa Isabel é reconhecer que a história de Domingos Martins nasceu não apenas da cooperação entre imigrantes, mas também de disputas e diferentes projetos de poder.
Referências
- FRANCESCHETTO, Cilmar. Imigrantes Espírito Santo: base de dados da imigração estrangeira no Espírito Santo nos séculos XIX e XX. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2014.
- LEITE, Fábio Rodrigo Cirino. A sedição de Santa Isabel: aspectos de uma insurreição esquecida (1897). Orientador: Ueber José de Oliveira. Dissertação (Mestrado em História) — UFES, 2025.
- ROCHE, Jean. A Colonização Alemã no Espírito Santo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1968.
- RÖLKE, Helmar. Raízes da imigração alemã: história e cultura alemã no estado do Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016.