No início do século XX, Vitória estava mudando. A cidade que ainda carregava fortes marcas de seu passado colonial começava a ganhar novas ruas, prédios públicos, sistemas de transporte, iluminação, saneamento e outras estruturas que buscavam apresentar uma capital mais moderna. Em meio a essa transformação estava um italiano que chegou ao Espírito Santo ainda criança e se tornou um dos principais responsáveis pelas mudanças na paisagem urbana da capital: André Carloni.
Do imigrante ao construtor
André Carloni nasceu em Bolonha, na Itália, em 28 de janeiro de 1883. Tinha apenas sete anos quando chegou ao Espírito Santo, em 1890, acompanhado dos pais, Zema Carloni e Mariana Malagutti Carloni, e dos irmãos. A família passou pela Hospedaria dos Imigrantes, em Jaburuna, Vila Velha, até que seu pai, que era mecânico, foi contratado para trabalhar na montagem de uma usina de açúcar em Santa Cruz.
Poucos anos depois, a família retornou para Vitória. Em 1892, Zema trabalhou na construção do Quartel da Polícia Militar, no bairro Moscoso, produzindo grades, janelas e portões. Em 1894, porém, morreu vítima de febre amarela. André, então com apenas 11 anos, começou a trabalhar como serralheiro para ajudar no sustento da família.
A vida profissional de Carloni foi marcada por diferentes atividades. Foi lavador de pratos, garçom e capinador de ruas, até encontrar, em 1895, uma oportunidade que mudaria sua trajetória: trabalhar como ajudante de pintor na construção do Teatro Melpômene. A partir dali, começou a desenvolver suas habilidades em pintura, decoração e construção.
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O talento que encontrou na sala de aula
Em 1900, André se matriculou nas escolas noturnas de leitura, desenho e música mantidas pela Maçonaria Monte Líbano. Foi nas aulas de desenho que seu talento começou a chamar atenção. Ele passou a se dedicar às artes plásticas e, posteriormente, ao desenho e à elaboração de projetos de construção.
Esse aprendizado foi fundamental para sua trajetória. Em 1908, já dominando diferentes técnicas de construção, pintura e desenho, Carloni passou a atuar de maneira cada vez mais próxima das grandes obras que transformaram Vitória durante o governo de Jerônimo Monteiro.
Foi nesse período que seu nome se tornou associado a algumas das construções mais importantes da capital. Participou da transformação do antigo Convento do Carmo no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, foi o responsável pela construção do Palácio Domingos Martins, atual Palácio Sônia Cabral, da nova Santa Casa da Misericórdia, da reforma da Escola Normal Dom Pedro II, da construção da Faculdade de Farmácia e Bioquímica do Espírito Santo, entre outras obras.
Uma cidade que queria se modernizar
As obras de Carloni precisam ser entendidas dentro de um processo maior. No início da República, Vitória buscava romper com parte da aparência colonial que ainda marcava sua paisagem. A abertura e o alargamento de ruas, os aterros, a implantação de sistemas de transporte, a melhoria do saneamento, a iluminação pública e a construção de novos edifícios faziam parte desse esforço de modernização.
Carloni participou diretamente dessa transformação. Além dos edifícios, esteve envolvido na implantação das linhas de bondes de Vitória e Vila Velha, em obras viárias e em serviços de transporte. Em 1916, construiu o edifício da Alfândega e a Delegacia Fiscal de Vitória. Também atuou na melhoria de estradas e na organização de serviços de transporte que ligavam diferentes localidades do Espírito Santo.
Por isso, sua importância para a história da cidade vai além dos prédios que deixou. Carloni participou da construção de uma nova infraestrutura urbana, ajudando a modificar a maneira como os moradores circulavam, trabalhavam e ocupavam Vitória.
Do Teatro Melpômene ao Carlos Gomes
Uma das histórias mais marcantes de sua trajetória envolve justamente o teatro onde começou a trabalhar ainda jovem. Em 1923, um incêndio destruiu grande parte do Teatro Melpômene. No ano seguinte, Carloni comprou o imóvel e decidiu demolir o que restava para construir, com recursos próprios, um novo teatro.
Nascia o Teatro Carlos Gomes, um dos principais símbolos culturais de Vitória. Para sua construção, Carloni aproveitou as colunas de ferro que pertenciam ao antigo Melpômene. O edifício se tornou uma das obras mais conhecidas de sua trajetória e permanece como parte importante da paisagem histórica da capital.
Carloni também ajudou a preservar o passado
Mas existe uma curiosidade na trajetória de André Carloni: o mesmo homem que participou da modernização de Vitória também se dedicou à preservação de construções antigas.
A partir de 1943, passou a atuar na conservação de monumentos históricos do Espírito Santo através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Realizou intervenções em edifícios e igrejas como a Igreja dos Reis Magos, em Nova Almeida; a Igreja do Rosário, em Vitória; o Convento da Penha; a Igreja de São Gonçalo; a Capela de Santa Luzia; o Solar Monjardim; a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Araçatiba; a Igreja de Nossa Senhora das Neves, em Itapemirim, etc….
Em 1949, a pedido do governador Carlos Lindenberg, elaborou o projeto de reconstrução da parte externa da Catedral Metropolitana de Vitória. Assim, Carloni passou a ocupar uma posição curiosa na história da cidade: ajudou a construir a Vitória que queria se modernizar, mas também trabalhou para preservar os vestígios da Vitória mais antiga.
Um homem que registrou uma cidade em transformação
André Carloni morreu em 26 de julho de 1976, aos 93 anos. Durante sua longa trajetória, recebeu diferentes homenagens, entre elas o título de cidadão brasileiro, concedido por Getúlio Vargas em 1942, e o de cidadão vitoriense, concedido pela Câmara Municipal de Vitória em 1956.
Mas talvez seu maior legado esteja espalhado pela própria cidade. Seus edifícios, suas obras de infraestrutura e suas intervenções em monumentos históricos ajudam a contar uma parte da história de Vitória entre o final do século XIX e o século XX.
Carloni foi um construtor, desenhista, artista, restaurador e empreendedor. Em um momento em que Vitória procurava deixar para trás parte de sua antiga aparência e construir uma nova imagem urbana, ele esteve no centro dessa transformação. E, ao mesmo tempo em que ajudava a construir a cidade moderna, dedicava-se a preservar aquilo que restava da cidade do passado.
Referências:
FREITAS, Bartolomeu Bueno. André Carloni. Vitória: Pro Texto Comunicação e Cultura, 2013.