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Espírito Gerais? Minas Santo? Não! Estado do Cruzeiro: a proposta de fundir ES e MG

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Foto antiga do Atheneu, onde foi proposta a fusão do Espírito Santo com Minas Gerais, e o colunista Vinicius Borges
Antigo prédio do Atheneu (atual EEEFM Maria Ortiz), então sede provisória do Congresso Legislativo do Espírito Santo, onde foi apresentada a proposta de anexação do Espírito Santo a Minas Gerais. Acervo: Biblioteca Pública do Estado do Espírito Santo
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Você consegue imaginar o Espírito Santo e Minas Gerais formando um único estado? Pois essa ideia chegou a ser apresentada oficialmente no Espírito Santo poucos anos depois da Proclamação da República. Em 1892, durante os trabalhos da Assembleia Constituinte estadual, o deputado Brocardo Penrose apresentou um projeto propondo nada menos que a anexação do território capixaba a Minas Gerais. A proposta previa que os dois estados formassem uma nova unidade da Federação, chamada Estado Federal do Cruzeiro, cuja capital seria chamada Aliança.

Um Espírito Santo considerado pequeno demais

Para entender por que uma proposta tão inesperada apareceu naquele momento, é preciso voltar aos primeiros anos da República. O novo regime havia acabado de substituir a monarquia e os estados passavam a ter maior autonomia política e administrativa. No Espírito Santo, porém, havia quem acreditasse que o estado enfrentava dificuldades para se desenvolver e que sua estrutura política e econômica não seria suficiente para acompanhar o crescimento de estados vizinhos.

É nesse ambiente que Penrose apresentou sua proposta. Em sua justificativa, lida diante dos deputados em 11 de abril de 1892, ele afirmou que o Espírito Santo vivia “abafado entre colossos” e que a situação dificultava o avanço do estado. Para ele, a anexação a Minas Gerais poderia criar condições para um território mais forte e com maiores possibilidades de desenvolvimento.

Penrose dizia ainda conhecer o território capixaba e destacava suas terras férteis e seus portos. Na visão apresentada por ele, a união com Minas poderia transformar essas características em vantagens para um novo estado. Seu projeto, portanto, não era apresentado como uma simples perda de autonomia, mas como uma estratégia que, segundo ele, permitiria ao Espírito Santo alcançar maior progresso.

O Estado Federal do Cruzeiro

Trecho de jornal de 1892 com o projeto de Brocardo Penrose propondo a fusão do Espírito Santo com Minas Gerais
Trecho do projeto apresentado por Brocardo Penrose. Acervo: Hemeroteca Digital, Estado do Espírito-Santo, 1892

O projeto era bastante detalhado. Seu primeiro artigo determinava a anexação do território do Espírito Santo ao de Minas Gerais, formando um único estado. O segundo estabelecia o nome Estado Federal do Cruzeiro e previa que sua capital se chamaria Aliança.

Penrose também propunha a criação de uma comissão para estabelecer as bases da fusão e determinar onde ficaria a capital. O projeto previa ainda uma consulta à população: caso a maioria dos habitantes do Espírito Santo fosse contrária à fusão, o estado permaneceria organizado separadamente.

A proposta também revela as preocupações daquele momento. Penrose defendia que o novo governo deveria reduzir o número de funcionários públicos, melhorar as vias de comunicação, aumentar a entrada de imigrantes e promover a ocupação das áreas coloniais. Para ele, a união seria uma maneira de superar os problemas que impediam o desenvolvimento capixaba.

A ideia não foi adiante

Apesar de toda a argumentação, a proposta estava longe de representar um consenso. O próprio andamento da sessão mostra que ela não passou de uma iniciativa individual dentro da Assembleia. O presidente do Congresso Constituinte informou que, pelas regras regimentais, só poderia receber o projeto como uma indicação e determinou que ele fosse lido para discussão.

A ideia acabou sendo rejeitada pelos demais deputados e não produziu a fusão pretendida. Penrose, inclusive, renunciou ao mandato na mesma sessão em que apresentou a proposta, afirmando que sua “missão” estava cumprida.

O episódio pode parecer curioso hoje, mas revela algo importante sobre os primeiros anos da República: o Espírito Santo ainda estava tentando definir seu lugar dentro da nova organização política do Brasil. A proposta de Penrose expressava uma visão extremamente crítica sobre as condições do estado naquele momento, ao mesmo tempo em que mostrava como as relações com os estados vizinhos estavam presentes nos debates sobre o futuro capixaba.

No fim, o Espírito Santo continuou sendo um estado independente. Mas, por algumas horas de debate em uma sessão da Constituinte de 1892, os deputados capixabas tiveram diante de si uma proposta que mudaria completamente o mapa do Brasil: transformar Espírito Santo e Minas Gerais em um único Estado Federal do Cruzeiro.

Referência

Brasil. Fundação Biblioteca Nacional. O Estado do Espírito-Santo, Vitória, n. 2.708, 18 de abr. 1892.

Foto de Vinicius Borges

Vinicius Borges

Vinicius Borges Ferreira é historiador, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), consultor histórico e produtor de conteúdo sobre História nas redes sociais. Nesta coluna, seu objetivo é contar e revisitar a história do Espírito Santo, apresentando personagens, lugares, acontecimentos e memórias que ajudam a compreender a formação do estado. A proposta é aproximar a História do público, valorizando a memória capixaba e mostrando que conhecer o passado do Espírito Santo também é uma forma de compreender o presente.

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