Você provavelmente já viu a bandeira do Espírito Santo milhares de vezes. O azul, o branco e o rosa, acompanhados da frase “Trabalha e Confia”, fazem parte da identidade capixaba. Mas você sabe de onde vieram essas cores? E por que essa frase foi escolhida para representar o estado? A história desses símbolos passa por religião, política e pelo projeto de modernização do Espírito Santo no início do século XX.
Um estado em busca do progresso
Grande parte dos símbolos que hoje identificam o Espírito Santo estão relacionados ao governo de Jerônimo Monteiro, que comandou o estado entre 1908 e 1912. Seu governo tinha como uma das principais ideias o progresso, em um período marcado por grandes transformações na infraestrutura e na organização da administração pública capixaba.
Foi nesse contexto que começaram a ganhar forma elementos que ajudariam a construir uma identidade oficial para o Espírito Santo. Segundo a professora Maria Stella de Novaes, Jerônimo Monteiro esteve diretamente ligado à criação do lema e das cores que posteriormente foram incorporados aos símbolos estaduais.
“Trabalha e Confia”

O lema que aparece na bandeira e no brasão tem uma origem religiosa. Jerônimo Monteiro estudou no Colégio São Luís, em Itu, dirigido pelos jesuítas, e conheceu ali um ensinamento atribuído a Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus: “Trabalha, como se tudo dependesse de ti; confia, como se tudo dependesse de Deus.”
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A frase acabou sendo resumida em apenas três palavras: “Trabalha e Confia”. Além de sintetizar a ideia original, o lema funcionava muito melhor visualmente para ser colocado em uma bandeira. E também combinava com o espírito do governo de Jerônimo Monteiro, que apresentava o progresso como uma das grandes metas para o Espírito Santo.
Por que azul, branco e rosa?
As cores da bandeira também possuem uma história curiosa. Segundo Maria Stella de Novaes, existem duas explicações relacionadas à escolha do azul e do rosa.
Uma delas está ligada às cores utilizadas por um clube abolicionista de Benevente, atual Anchieta, que também havia participado da campanha republicana. A outra – e talvez a mais conhecida – relaciona as cores às vestes de Nossa Senhora da Vitória, padroeira da capital capixaba.
A bandeira é formada por três faixas horizontais de igual tamanho: azul, branca e rosa. O lema “Trabalha e Confia” aparece em azul, no centro da faixa branca.
Curiosamente, a associação dessas cores com Nossa Senhora da Penha, padroeira do Espírito Santo, veio posteriormente. Antes da oficialização da bandeira, a imagem da padroeira do estado possuía vestes de tonalidade creme, com detalhes dourados. Uma dessas representações antigas ainda pode ser encontrada na Igreja de São Gonçalo, em Vitória.
A bandeira demorou para ser oficializada
Embora a atual bandeira tenha começado a ser utilizada durante o governo de Jerônimo Monteiro, ela só foi oficialmente adotada em 24 de abril de 1947, por meio do Decreto-Lei nº 16.618.
Isso significa que a identidade visual que hoje parece tão antiga é, na verdade, relativamente recente. Antes dela, o Espírito Santo não possuía uma bandeira oficial consolidada. Durante o período anterior, chegaram a ser utilizadas as cores azul e vermelho, associadas aos ideais republicanos e iluministas, e até mesmo A Marselhesa foi adotada como hino, embora sem oficialização.
E o brasão?

O brasão do Espírito Santo foi instituído em 24 de julho de 1947, também no contexto de organização dos símbolos oficiais do estado. E seus elementos contam uma pequena história do próprio Espírito Santo.
No centro da grande estrela aparece o Convento da Penha, um dos principais símbolos religiosos e históricos capixabas. O café, representado por um ramo, lembra o produto que se tornou fundamental para a economia do estado a partir da segunda metade do século XIX. Do outro lado, a cana-de-açúcar recorda a importância que essa cultura teve na economia capixaba antes da expansão do café.
As datas presentes no brasão também carregam significados históricos. 23 de maio de 1535 é a data tradicionalmente associada à chegada de Vasco Fernandes Coutinho, primeiro donatário da Capitania do Espírito Santo. Já 12 de junho de 1817 lembra a execução de Domingos José Martins, capixaba que participou da Revolução Pernambucana de 1817.
As três estrelas azuis representam os estados vizinhos – Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro – enquanto o lema “Trabalha e Confia” retoma a mesma ideia presente na bandeira.
Símbolos que contam a história do Espírito Santo
Os símbolos oficiais ajudam a contar como o próprio Espírito Santo queria ser representado. O progresso defendido por Jerônimo Monteiro, a influência religiosa, a tradição agrícola, a memória da colonização e a posição do estado entre seus vizinhos aparecem reunidos em uma bandeira e em um brasão.
Por isso, da próxima vez que você olhar para a bandeira capixaba, talvez enxergue mais do que três faixas coloridas. O azul, o branco, o rosa e as palavras “Trabalha e Confia” carregam parte da história de como o Espírito Santo construiu, ao longo do tempo, os símbolos que hoje representam sua identidade.
Referências
NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Fundo Editorial do Espírito Santo, Vitória.
OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. Vitória: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo: Secretaria de Estado da Cultura, 2008.