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Contestado: quando ES e Minas Gerais entraram em um conflito armado

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Soldados armados na fronteira durante o Contestado entre Espírito Santo e Minas Gerais
Soldados em prontidão na fronteira dos dois estados, no auge do conflito entre Minas Gerais e Espírito Santo. Acervo: Flávio Luciano, 2019.
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Entre 1937 e 1963, Espírito Santo e Minas Gerais reivindicaram a mesma faixa de terra: quase 10 mil km² conhecidos como Zona do Contestado. Nenhum dos dois estados, porém, controlava a região de fato. Nesse vácuo, forças policiais dos dois estados, posseiros, fazendeiros e jagunços travaram décadas de conflito pela terra. O confronto só terminou com o acordo de paz assinado em 1963.

No Espírito Santo, a área disputada incluía os municípios de Barra de São Francisco, Ecoporanga, Água Doce do Norte, Mantenópolis, Mucurici e Ponto Belo. Do lado mineiro, ficavam Mantena, Ataléia, Itabirinha, Nova Belém, Ouro Verde de Minas e São João da Manteninha.

O problema, porém, não começou no século XX. A indefinição dos limites entre os dois estados vinha de muito antes e atravessou diferentes momentos de sua história. Só a partir das décadas de 1930 e 1940, com a ocupação mais intensa da região, esse antigo impasse de fronteiras mudou de escala. A disputa passou a envolver diretamente milhares de pessoas.

Esse vazio jurisdicional (havia lei no papel, mas nenhuma força capaz de aplicá-la) teve consequências profundas, como demonstra o historiador Flávio Luciano da Anunciação (2019). Na ausência de uma autoridade efetiva, a força e a influência dos grupos economicamente mais poderosos passaram a ditar as relações sociais em boa parte da região.

Contestado: a escalada dos anos 1940

A situação tornou-se ainda mais complexa à medida que novos moradores chegaram à região. Posseiros ocuparam terras, abriram roças, construíram casas e passaram a desenvolver atividades agrícolas. Ao mesmo tempo, a exploração das riquezas naturais, especialmente da madeira, ganhou força.

Consequentemente, diferentes interesses passaram a disputar o mesmo território. De um lado estavam pequenos agricultores que reivindicavam o direito de permanecer nas terras que ocupavam e trabalhavam. De outro, fazendeiros, madeireiros e pessoas que apresentavam documentos de propriedade buscavam ampliar seus domínios.

Nesse cenário, os conflitos pela terra se misturaram à disputa entre os próprios estados. Os dois estados enviaram destacamentos armados para garantir o controle da região. Estima-se que Minas Gerais chegou a manter cerca de 1.300 homens fortemente armados na fronteira, enquanto o Espírito Santo mobilizou cerca de 800 soldados. Além disso, a indefinição das fronteiras dificultava a identificação de qual governo deveria agir e favorecia a atuação de grupos locais.

Como sintetiza Anunciação, o vazio jurisdicional produzia quatro problemas centrais. Eram eles: a exploração econômica das riquezas naturais, os conflitos entre posseiros e grileiros, a atuação das elites locais e o surgimento de movimentos sociais e religiosos.

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Assim, o Contestado não era apenas uma linha disputada em um mapa. Era um território onde questões de terra, poder, identidade, cidadania e pertencimento estavam permanentemente em disputa.

A terra como motivo de violência

A partir dos anos 1940, a ocupação da região se intensificou. No entanto, o crescimento populacional não significou necessariamente estabilidade. Pelo contrário: quanto mais a terra se valorizava, maiores se tornavam os interesses econômicos sobre ela.

Em Cotaxé, no atual município de Ecoporanga, essa situação ficou particularmente evidente. Fazendeiros e novos proprietários passaram a tratar como invasores os posseiros que viviam há anos na região. A disputa se agravou quando o fazendeiro Francisco Modesto colocou suas terras à venda. O baiano Lamartine Loureiro comprou não só as áreas legalizadas, mas também aquelas reivindicadas pelo antigo proprietário.

Lamartine passou então a adotar uma postura mais agressiva. Contratou jagunços e um agrimensor para medir as terras. Diante das ameaças, os posseiros também começaram a se organizar e a se armar para defender suas propriedades. A partir daí, confrontos entre posseiros, jagunços e forças policiais tornaram-se cada vez mais frequentes.

Por isso, a ausência de uma definição territorial não explica sozinha a violência do Contestado. Havia também uma disputa concreta pelo controle da terra e das riquezas da região.

O movimento de Udelino (anos 1940-50)

Nesse ambiente de insegurança e insatisfação, surgiu um dos movimentos mais conhecidos da história do Contestado: liderado por Udelino Alves de Matos.

Udelino conseguiu reunir um número expressivo de posseiros em torno de uma ideia ousada. Ele propunha criar um novo Estado na região e distribuir terras entre quem participasse do movimento. O grupo se estabeleceu próximo ao Córrego Canela de Ema, em Cotaxé, onde construiu um barracão utilizado para reuniões.

As autoridades, porém, interpretaram a proposta como uma ameaça à ordem estabelecida. O governo enviou uma força policial comandada pelo coronel Djalma Borges para identificar e prender os integrantes do movimento. Udelino conseguiu escapar, mas a polícia prendeu e espancou brutalmente diversos de seus seguidores.

Os parlamentares da Assembleia Legislativa do Espírito Santo registraram o episódio na CPI de 1953. O caso se tornou uma das principais evidências documentais sobre os conflitos sociais daquela região. Para Anunciação, o caso de Udelino é especialmente revelador. Ele mostra como o vazio jurisdicional podia gerar formas próprias de organização política e social entre quem se sentia abandonado pelas autoridades.

As CPIs de 1953 e 1961

eputados em sessão sobre o Contestado entre Espírito Santo e Minas Gerais em 1957
Mesa diretora da sessão realizada pela Assembleia Legislativa em Barra de São Francisco, em 1957, em apoio às ações da população local na defesa da soberania do Espírito Santo durante o litígio territorial com Minas Gerais. Na imagem aparecem os deputados Arsílio Caiado, presidente (ao centro); Nello Borelli, 1º secretário (segundo à esquerda de quem observa); e Jeovah Miranda Ferreira, 2º secretário (primeiro à direita). Acervo: Hemeroteca Digital, Revista da Semana (RJ).

Diante do agravamento dos conflitos no noroeste capixaba, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo se tornou um dos principais espaços institucionais de discussão sobre o tema. Ali, deputados debatiam a violência, os conflitos fundiários e as arbitrariedades cometidas na região do Contestado.

Nesse contexto, a Assembleia instalou duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), em 1953 e 1961, para investigar denúncias envolvendo posseiros, proprietários de terras, autoridades policiais e lideranças políticas locais. Os documentos produzidos por essas comissões constituem, segundo Walace Pontes (2007), importantes registros para compreender a dimensão social e política dos conflitos.

A CPI de 1953 percorreu diferentes localidades do noroeste capixaba. Ela registrou episódios relacionados à atuação de Udelino Alves de Matos e dos posseiros que o acompanhavam. Entre os fatos apurados estavam prisões e agressões praticadas contra seus seguidores, revelando a intensidade da repressão aos movimentos de ocupação e reivindicação de terras.

Já em 1961, a Assembleia voltou a investigar a situação. Treze deputados requereram a abertura de uma nova CPI para apurar denúncias de arbitrariedades praticadas por autoridades policiais e civis em Ecoporanga e em outros municípios da Zona Contestada. A Resolução nº 600, publicada em novembro daquele ano, formalizou a comissão.

O acordo de 1963

Governadores de ES e MG assinam acordo de paz do Contestado em 1963
Governador Francisco Lacerda de Aguiar (ES) e governador Magalhães Pinto (MG) juntos na região do Contestado no dia da assinatura do “Acordo de Paz”. Data: 1963. Acervo: Morro do Moreno (ES).

Somente em 1963, após novas negociações, Minas Gerais e Espírito Santo chegaram a um acordo sobre a demarcação definitiva da fronteira. Em 15 de setembro daquele ano, os governadores José de Magalhães Pinto, de Minas Gerais, e Francisco Lacerda de Aguiar, do Espírito Santo, assinaram o chamado “acordo de paz”. Pelo documento, ambos os estados aceitaram a proposta de definição dos limites da região contestada.

Atos legislativos dos dois estados formalizaram a decisão posteriormente. Minas Gerais aprovou a Resolução nº 569, de 9 de dezembro de 1963, publicada no Diário Oficial, e o Espírito Santo, a Lei nº 2.084, de 1964. Esses instrumentos estabeleceram a linha divisória da região contestada ao norte do rio Doce. Assim, encerraram oficialmente a longa disputa territorial e definiram os limites que permanecem até os dias atuais.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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