E veja as notícias do Brasil e do ES com destaque nas suas buscas

Antes de Vitória, há 123 anos, cidade do interior do ES acendeu a primeira luz elétrica do estado

Compartilhe:
Foto de 1937 da Ilha da Luz, berço da luz elétrica em Cachoeiro, com ponte de madeira sobre o rio Itapemirim cheio
Ilha da Luz, no rio Itapemirim, onde funcionou a usina que levou luz elétrica a Cachoeiro. Foto de 1937. Autor não informado. Acervo Heraclides.
Compartilhe:

Você sabia que Cachoeiro de Itapemirim foi a primeira cidade do Espírito Santo a receber iluminação elétrica? Em 1º de novembro de 1903, a cidade inaugurou oficialmente esse serviço, em um acontecimento que marcou sua história e revela a importância que o município já possuía no início do século XX.

Naquele período, Cachoeiro era um dos principais centros urbanos capixabas. A chegada da eletricidade, antes mesmo de Vitória, demonstra como a cidade participava das transformações tecnológicas que começavam a modificar o cotidiano das populações brasileiras.

Da iluminação a lampiões à força das águas

Antes da eletricidade, a iluminação pública dependia de lampiões alimentados por combustíveis como querosene e óleos de origem animal ou vegetal. O serviço municipal de iluminação de Cachoeiro havia sido instalado em janeiro de 1887, com 24 lampiões belgas. Com o passar do tempo, porém, a manutenção tornou-se precária, e as ruas frequentemente ficavam às escuras.

No dia 2 de fevereiro de 1903, o governo municipal, sob administração de Bernardo Horta de Araújo, firmou contrato com o engenheiro civil Antônio Gonçalves Neves para explorar os serviços de iluminação pública e distribuição de energia elétrica. Os trabalhos preliminares, entretanto, já haviam sido realizados pelos engenheiros Florentino Avidos e Gonçalves Neves durante a vigência de um contrato anterior.

A escolha do local para a usina foi fundamental. A instalação foi construída na Ilha da Luz, situada no rio Itapemirim, aproveitando o desnível natural das águas para movimentar as turbinas e produzir eletricidade. Segundo uma descrição técnica publicada na imprensa da época, a ilha ficava a aproximadamente 2.500 metros do centro de Cachoeiro e possuía uma área de cerca de cinco hectares.

O projeto envolveu a construção de uma represa, canais para conduzir a água até as turbinas, pontes e estruturas para controlar o fluxo do rio. A casa de máquinas recebeu uma turbina de eixo vertical, ligada a um dínamo alternador. O sistema foi equipado com materiais elétricos fornecidos pela empresa alemã Siemens & Halske, responsável por instalações em diferentes partes do mundo.

A dimensão da obra ajuda a compreender que a chegada da eletricidade exigiu muito mais do que a colocação de postes e lâmpadas: foi necessário construir uma estrutura capaz de aproveitar os recursos naturais e transformá-los em energia para a cidade.

Uma inauguração celebrada nas ruas

A inauguração oficial ocorreu em 1º de novembro de 1903, na Praça Matosinhos, atual Praça Jerônimo Monteiro. A ocasião foi marcada por festejos públicos e pela inauguração do edifício do governo municipal. A cidade preparou uma programação especial, com ornamentação das ruas e praças, coretos iluminados e apresentações musicais.

O jornal Estado do Espírito Santo, em matéria de 15 de novembro daquele ano, elogiou a organização da festa. A publicação destacou a decoração da Praça Matosinhos e da Rua 25 de Março, ressaltando que os coretos estavam “artisticamente armados, illuminados a electricidade”.

As comemorações também reuniram as bandas de música de Cachoeiro e de São João do Muqui. Um relato histórico sobre o episódio descreve o encontro dos dois grupos na praça, onde os maestros trocaram as partituras dos músicos. Naquele momento, as bandas executavam a protofonia da ópera O Guarani, de Carlos Gomes.

A festa simbolizava o entusiasmo da população diante de uma transformação que alteraria a paisagem urbana. As lâmpadas elétricas representavam uma nova etapa para a iluminação pública e um sinal de modernização para o município.

Uma pioneira no Espírito Santo

Cachoeiro de Itapemirim entrou para a história capixaba ao inaugurar sua iluminação elétrica em 1903. A imprensa daquele período também destacou a presença do município entre as localidades brasileiras que já contavam com esse tipo de instalação, mencionando cidades como Belém, Curitiba, Rio Claro, Ribeirão Preto e Santa Rita, além de Cachoeiro.

Mais de um século depois, a história da usina da Ilha da Luz permite compreender melhor o papel de Cachoeiro no desenvolvimento urbano e tecnológico do Espírito Santo. A cidade não só acompanhou as mudanças de seu tempo, mas também foi pioneira no estado ao levar a iluminação elétrica para suas ruas.

Na próxima vez que você passar pelo centro de Cachoeiro, lembre-se de que, em novembro de 1903, uma festa pública celebrou o início de uma nova era. A luz que iluminou a cidade naquele dia também deixou um registro importante da história capixaba.

Referências

ESPÍRITO SANTO. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. O Estado do Espírito-Santo n. 269, p. 1, 15 de nov. 1903. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=229644&pesq=%22illumina%C3%A7%C3%A3o%22&pasta=ano%20190&hf=memoria.bn.gov.br&pagfis=16922.

ESPÍRITO SANTO. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. O Estado do Espírito-Santo n. 278, p. 2, 26 de nov. 1903. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=229644&pesq=%22illumina%C3%A7%C3%A3o%22&pasta=ano%20190&hf=memoria.bn.gov.br&pagfis=16958.

Foto de Vinicius Borges

Vinicius Borges

Vinicius Borges Ferreira é historiador, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), consultor histórico e produtor de conteúdo sobre História nas redes sociais. Nesta coluna, seu objetivo é contar e revisitar a história do Espírito Santo, apresentando personagens, lugares, acontecimentos e memórias que ajudam a compreender a formação do estado. A proposta é aproximar a História do público, valorizando a memória capixaba e mostrando que conhecer o passado do Espírito Santo também é uma forma de compreender o presente.

Leia também