A chegada da inteligência artificial e dos robôs humanoides às fábricas abriu uma disputa que vai além dos reajustes salariais. Trabalhadores de uma das maiores montadoras do mundo decidiram reduzir a produção para exigir proteção contra possíveis demissões provocadas pelo avanço da automação.
A mobilização envolve funcionários da Hyundai Motor na Coreia do Sul. A categoria iniciou no dia 14 uma greve parcial com duração prevista de três dias, após o sindicato e a empresa não chegarem a um acordo durante a última rodada de negociações.
Até quarta-feira, os empregados das linhas de produção deixarão os postos de trabalho duas horas antes do encerramento normal do expediente. Sindicato e montadora devem retomar as conversas na quinta-feira.
Além de salários maiores, os funcionários querem que a Hyundai assuma formalmente o compromisso de não substituir trabalhadores por sistemas de inteligência artificial ou robôs sem antes negociar com a categoria, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
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Robô humanoide aumenta preocupação na produção de carros
O receio dos empregados cresceu depois que a Hyundai apresentou planos para ampliar o uso do Atlas, robô humanoide desenvolvido pela Boston Dynamics, empresa controlada pelo grupo sul-coreano.
A montadora pretende iniciar a utilização desses equipamentos em fábricas dos Estados Unidos a partir de 2028. Na primeira etapa, os robôs devem separar, organizar e preparar componentes usados na montagem dos veículos.
Posteriormente, a empresa pretende ampliar a capacidade das máquinas. A expectativa é que, até 2030, os humanoides também consigam executar atividades mais complexas dentro das linhas de produção.
Por isso, o sindicato exige que qualquer implantação do Atlas passe por uma negociação prévia. Os representantes dos trabalhadores também querem impedir que a automação reduza os salários da categoria.
Caso as máquinas permitam diminuir a jornada de trabalho, por exemplo, os empregados defendem a manutenção integral da remuneração mensal.
Sindicato cobra salários e bônus maiores
A automação ocupa uma parte importante das discussões, mas o impasse também envolve questões financeiras. Uma das principais reivindicações é o pagamento de um bônus por desempenho correspondente a 30% do lucro líquido consolidado obtido pela Hyundai no ano anterior.
O sindicato já apresentava essa proposta em negociações passadas. No entanto, a cobrança ganhou força depois que grandes empresas de semicondutores, como Samsung Electronics e SK Hynix, concederam premiações elevadas aos funcionários.
Essas companhias registraram resultados maiores com o crescimento da demanda por chips usados em sistemas de inteligência artificial.
Os trabalhadores da Hyundai também pedem um aumento de 149.600 wons no salário-base, valor próximo de US$ 100. Além disso, querem elevar o bônus regular de 750% para 800% do salário mensal.
Outra reivindicação envolve a aposentadoria. Atualmente, os empregados deixam obrigatoriamente a empresa aos 60 anos. O sindicato quer ampliar esse limite para 65 anos.
Proposta da Hyundai foi rejeitada
Durante as negociações, a Hyundai ofereceu um reajuste de 89 mil wons no salário-base, além de um bônus equivalente a 350% do salário.
A montadora também colocou na mesa um pagamento único de 10 milhões de wons e a distribuição de 15 ações da companhia para cada trabalhador contemplado pelo acordo.
Mesmo assim, a categoria rejeitou a oferta. Na avaliação do sindicato, os valores ficaram abaixo do esperado e não resolveram as principais preocupações relacionadas ao futuro dos empregos.
Com a falta de acordo, os funcionários aprovaram a redução temporária da jornada como forma de pressionar a empresa a apresentar uma nova proposta.
Paralisação pode provocar perdas elevadas para montadora
A greve ocorre em um dos principais centros industriais da Hyundai. A Coreia do Sul abriga uma parcela estratégica da produção da companhia e exporta mais de 1 milhão de veículos por ano.
Consequentemente, mesmo uma paralisação parcial pode afetar a fabricação de milhares de automóveis e gerar reflexos na cadeia internacional de distribuição.
Segundo a agência sul-coreana Yonhap News, cada hora de interrupção pode representar perdas superiores a 18,7 bilhões de wons para a montadora.
Uma mobilização semelhante realizada no ano passado mostra o tamanho do possível prejuízo. Na ocasião, aproximadamente 16 horas de redução das atividades impediram a produção de cerca de 7 mil veículos.
A paralisação teria retirado mais de 300 bilhões de wons das receitas da companhia. Caso o movimento atual se prolongue, concessionárias e fornecedores de outros países também podem sentir os efeitos.
Montadora critica reivindicações
Antes do início da greve, o chefe da produção doméstica da Hyundai, Choi Yeong Il, criticou parte das exigências apresentadas pelos trabalhadores.
Segundo o executivo, algumas propostas seriam desproporcionais. Ele também questionou o uso de paralisações para pressionar a montadora a distribuir uma parcela maior dos lucros.
Choi afirmou que movimentos anteriores reduziram a produção, provocaram descontos nos salários dos próprios funcionários e causaram críticas de clientes e da sociedade.
O representante da Hyundai acrescentou que a empresa não pretende compensar os valores descontados durante a greve. A montadora também indicou que não fará novas concessões apenas por causa da paralisação.
Até o momento, a Hyundai não informou oficialmente quantos veículos deixarão de ser produzidos durante os três dias de mobilização. A continuidade da greve dependerá do resultado da nova reunião entre a empresa e o sindicato.
