Cerca de 12% dos capixabas são da Serra. A cidade representa 18% do PIB do Espírito Santo. É nesse contexto que o ex-prefeito Sergio Vidigal exerce liderança hegemônica na cidade mais estratégica para a eleição de 2026. A “Era Vidigal”, iniciada em 1996, segue até hoje e inclui os intervalos dos mandatos do ex-prefeito Audifax Barcelos (PP) e do atual prefeito Weverson Meireles (PDT), nos quais Vidigal foi fundamental.
Este artigo começa pontuando a questão dessa forma porque, na atual conjuntura, Vidigal volta a ter seu nome defendido para compor a vice na chapa do governador Ricardo Ferraço (MDB), que vai disputar a eleição. Dessa vez, quem puxa a fila são os prefeitos Euclério Sampaio (Cariacica/MDB) e Enivaldo dos Anjos (Barra de São Francisco/PSB).
A tese de que Vidigal é o vice ideal
Segundo a tese deles, Vidigal é um nome amplamente aceito pela maioria do grupo de prefeitos que apoia Ferraço. Além disso, tem votos próprios, currículo e prestígio para a função. Esta coluna concorda humildemente com essa opinião, e a história está aí para justificar: quem esteve à frente da revolução socioeconômica que a Serra viveu nos últimos 30 anos está apto a ocupar qualquer cargo eletivo no país.
A barreira para isso, além dos próprios planos de aposentadoria de Vidigal, é a Federação União Brasil e Progressistas (UP), liderada pelo presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos, e pelo deputado federal Josias da Vitória. É justo informar que ambos já foram filiados ao PDT e deixaram a legenda, à época, contrariados por Vidigal, numa resistência que pode ter um caráter pessoal.
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UP declinou do Senado e não tem nomes robustos de vice
No primeiro momento, o grupo de Ferraço ofereceu à Federação a vaga de senador, que o deputado Da Vitória depois declinou. A partir daí, a Federação passou a reivindicar a vice. Só que, na avaliação de muita gente, ela não apresentou nomes com envergadura eleitoral para isso. Foi nesse cenário que surgiu o movimento pró-Vidigal, encabeçado por Euclério e Enivaldo dos Anjos.
República da Serra
Ricardo está em vias de uma eleição duríssima, e um vice que agregue votos reais não parece ser um luxo do qual o governador possa abrir mão. Talvez seja por isso que Euclério e Enivaldo apoiam o nome de Vidigal: ele é mais do que um ex-prefeito da Serra. Trata-se do centro de gravidade da cidade há 30 anos. Vidigal é o líder da República da Serra, um grupo que exerce poder de forma hegemônica.
A transformação da Serra elevou Vidigal à condição de prefeito mais longevo da história política da cidade, desde a instituição da Lei das Prefeituras, quando, em 1914, Cícero Calmon de Aguiar foi eleito o primeiro prefeito escolhido pelo voto popular. Ou seja, o ponto em torno de Vidigal não é uma questão necessariamente partidária, vai muito além.
Centrão capixaba
O apoio da UP a Ricardo foi selado em 23 de março, mas parece já ter vacilado diante da primeira possibilidade de seus desejos não serem atendidos. Com o movimento de Euclério e Enivaldo, a UP começou a dar sinais de que poderia virar a casaca. Bem típico do fisiologismo brasileiro. É um exemplo local de como funciona o que se chama de Centrão no país.
Marcelo Santos, o mesmo presidente da Assembleia que Casagrande praticamente colocou lá, passou a fazer publicações de duplo sentido no Instagram. A Federação ainda adiou sua convenção para o limite do calendário eleitoral, num claríssimo recado de que há indefinições, e sinalizou a reabertura de conversas com Lorenzo Pazolini (Republicanos), adversário de Ferraço, via os interlocutores Erick Musso e Evair de Melo.
Contabilidade eleitoral complexa
Deve ser uma tarefa complexa para Ricardo. Ele evidentemente não quer perder a UP, mas, ao mesmo tempo, vê o grupo tentar travar um movimento que pode agregar votos à disputa, justamente depois de a própria Federação não reunir condições para concorrer ao Senado Federal nem apresentar nomes com capilaridade eleitoral para a vice.
Aliás, esse é outro ponto expressivo nessa contabilidade: além dos votos da República da Serra, que é maior do que qualquer partido, Vidigal é um aliado histórico de Ferraço. Já estiveram juntos em vitórias e derrotas. Vidigal não tem histórico de fazer leilão partidário no primeiro estampido de confusão.
A data final para ajustar essas importantes questões está findando. Entre votos, confiança e… uma dose cavalar de pragmatismo, Ferraço precisa resolver a equação do vice ideal.
