Vidigal? Entre votos e confiança, Ferraço tenta resolver a equação do vice ideal

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Ricardo Ferraço e Sergio Vidigal mantêm uma relação política de longa data, marcada por alianças, confiança e proximidade nos bastidores da política capixaba. Crédito: Divulgação/Redes Sociais

Não há como negar que Ricardo Ferraço (MDB) reúne, hoje, condições eleitorais muito favoráveis para a disputa ao Governo do Espírito Santo. Apenas o fato de ocupar atualmente o cargo já sustentaria essa avaliação. Ainda assim, existem diversos outros fatores políticos que reforçam esse entendimento, mesmo diante de um cenário que tende a ser extremamente disputado.

Nesse contexto, a escolha do vice de Ferraço se torna uma questão absolutamente estratégica para o futuro político do Espírito Santo. Isso porque, embora tenha assumido recentemente o governo após a renúncia do ex-governador Renato Casagrande (PSB), Ferraço estará disputando a reeleição. Ou seja, em caso de vitória, poderá exercer apenas mais um mandato.

A situação é diferente da enfrentada pelos demais pré-candidatos ao governo, que, caso eleitos, ainda teriam a possibilidade de disputar a reeleição, podendo permanecer no comando do Estado por até oito anos.

É justamente aí que reside o caráter sensível da escolha do vice. Se, no futuro, Ferraço quiser repetir o movimento político feito agora por Casagrande, deixando o cargo para disputar outra função, precisará ter ao seu lado alguém que reúna muito mais do que votos, perfil político, ideologia ou força partidária. Será necessário, acima de tudo, alguém de absoluta confiança dele e do grupo político.

Isso porque, em um cenário como esse, seria justamente o vice quem assumiria o governo de fato por pelo menos nove meses, de abril a dezembro de 2030, período que coincide diretamente com a disputa eleitoral seguinte para o comando do Espírito Santo.

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E essa é uma conta difícil de fechar. Encontrar uma pessoa que reúna todas essas características é um dos exercícios políticos mais desafiantes do atual cenário capixaba.

No aniversário de Vidigal, Ricardo deu recado

Durante a festa de aniversário do ex-prefeito Sergio Vidigal (PDT), Ricardo comentou esse aspecto, ainda que em tom de agradecimento a Casagrande. O governador afirmou que diversos governadores atuais tiveram projetos frustrados justamente porque não confiaram em seus vices e, por isso, acabaram permanecendo nos cargos.

A fala revela que Ricardo Ferraço está atento ao critério da confiança na escolha de seu próprio vice, sobretudo porque ele mesmo pode se enxergar nessa situação em 2030, caso vença a eleição de 2026. Nos bastidores, o comentário foi interpretado como um recado também para si próprio.

E a possibilidade de transferir futuramente o comando do governo ao vice certamente terá peso importante nessa escolha. Evidentemente, o primeiro desafio é vencer a eleição; sem isso, toda essa discussão perde sentido.

No aspecto da Serra, Sergio Vidigal aparece como o único nome do município com envergadura política suficiente para ocupar essa função. Ricardo e Vidigal são aliados e amigos de longa data. Em termos de confiança, é difícil imaginar que não exista entre ambos uma relação política sólida. Além disso, Vidigal possui força eleitoral em uma região estratégica para Ricardo: a Serra.

O que pode surgir como ponto de reflexão é justamente o fato de Vidigal ter um perfil político muito próximo ao de Ricardo, o que talvez não representasse necessariamente ampliação eleitoral. Soma-se a isso o fato de o PDT, em parte do eleitorado, ser associado a um campo político mais próximo do PT, embora, no Espírito Santo, essa leitura não se confirme de maneira automática.

Esse fator possui relevância eleitoral porque o cenário político capixaba não reproduz integralmente a polarização nacional entre lulismo e bolsonarismo. No Espírito Santo, a tendência parece caminhar mais para uma disputa entre uma direita moderada e uma direita mais ideológica. E, em tese, Vidigal não se encaixaria perfeitamente nessa linha.

Ao fim, Ricardo Ferraço terá uma missão delicada pela frente: escolher um vice capaz de ajudar a vencer a eleição e, ao mesmo tempo, alguém que reúna confiança suficiente para não limitar seus próprios movimentos políticos no futuro do Espírito Santo.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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