Uma nova rodada de negociação entre bancos e trabalhadores pode definir o funcionamento das agências bancárias em todo o país nesta semana. Sem acordo sobre salários e benefícios, os bancários discutem uma paralisação nacional para a próxima quinta-feira (20).
O movimento ganhou força depois que as negociações entre o Comando Nacional dos Bancários e a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) terminaram sem uma proposta considerada satisfatória pela categoria.
Nesta terça-feira (18), representantes dos trabalhadores e dos bancos voltam à mesa para a oitava rodada da Campanha Nacional Unificada. O encontro é tratado como decisivo porque poderá evitar ou confirmar as manifestações programadas para quinta-feira.
Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), sindicatos de várias regiões já organizam assembleias para avaliar os próximos passos.
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Falta de acordo aumenta possibilidade de paralisação dos bancários
O principal ponto de tensão está na discussão sobre salários, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo. De acordo com a Contraf, a Fenaban não apresentou, na rodada anterior, uma proposta geral de reajuste salarial.
Os bancos teriam sugerido uma mudança no formato da correção. Pela proposta relatada pela entidade sindical, diferentes faixas salariais poderiam receber percentuais distintos.
Além disso, o piso pago aos novos funcionários ficaria congelado. A Contraf afirma que a representação patronal também não informou quais seriam as faixas nem os índices aplicados a cada uma delas.
Outro ponto que provocou reação envolve os benefícios destinados à alimentação.
Segundo os trabalhadores, os bancos sugeriram valores menores de vale-alimentação e vale-refeição em cidades do interior, enquanto os reajustes ficariam concentrados nas grandes capitais.
Diante desse cenário, o Comando Nacional decidiu levar as propostas para avaliação dos sindicatos e dos trabalhadores.
As assembleias também poderão autorizar manifestações e paralisações em 20 de agosto.
O que os bancários reivindicam
A campanha salarial reúne uma série de reivindicações relacionadas à remuneração e às condições de trabalho.
Entre os principais pedidos estão:
- aumento real dos salários;
- reajuste da Participação nos Lucros e Resultados (PLR);
- valorização do vale-alimentação e do vale-refeição;
- aumento do piso salarial;
- criação de um piso específico para profissionais de tecnologia;
- contratação de mais funcionários;
- redução da sobrecarga nas agências;
- combate às metas consideradas abusivas;
- medidas contra assédio e monitoramento permanente dos trabalhadores;
- ampliação das políticas de igualdade e diversidade;
- fortalecimento dos programas de qualificação profissional.
A categoria também cobra regras relacionadas ao uso de tecnologias de monitoramento e inteligência artificial no ambiente de trabalho.
Bancários citam lucro e redução de empregos no setor
Para defender os reajustes, a Contraf utiliza indicadores financeiros e dados sobre a transformação do sistema bancário brasileiro.
Segundo a entidade, o patrimônio líquido do setor chegou a R$ 1,2 trilhão em 2025.
Ao mesmo tempo, a confederação afirma que os bancos eliminaram aproximadamente 88 mil postos de trabalho entre 2015 e 2025.
Nesse mesmo intervalo, cerca de 9,5 mil agências teriam encerrado as atividades.
Enquanto reduziram a estrutura tradicional, os cinco maiores bancos ampliaram em 49% os contratos mantidos com correspondentes bancários, conforme os números apresentados pelo movimento sindical.
Remuneração de executivos entra no debate
A diferença entre os salários dos trabalhadores e a remuneração dos principais executivos também passou a integrar o discurso da campanha.
A Contraf estima que a remuneração média anual dos altos executivos dos três maiores bancos privados poderá chegar a R$ 12,5 milhões em 2026.
Segundo a entidade, esse valor corresponde a aproximadamente 120 vezes a remuneração anual de um bancário no cargo de escriturário.
A confederação também cita a produtividade do setor.
Em 2025, as agências bancárias teriam processado 7,2 bilhões de transações. A média ficou em aproximadamente 28,6 milhões de operações por dia útil.
Ainda de acordo com os representantes dos trabalhadores, o lucro calculado por empregado alcançou R$ 438 mil.
Vale-alimentação perdeu poder de compra, afirma Contraf
Outro ponto considerado prioritário envolve os benefícios.
A Contraf calcula que o vale-alimentação acumulou perda real de 13% entre 2019 e 2025.
Já o vale-refeição teria perdido 3,7% do poder de compra entre 2023 e 2025.
Na avaliação da entidade, o vale-alimentação mensal precisaria sair dos atuais R$ 924,47 e alcançar R$ 1.293,73 para recuperar o poder de compra registrado em 2019.
Isso representaria um aumento próximo de 40%.
Negociações começaram em junho
A atual campanha dos bancários começou oficialmente em 24 de junho, quando os representantes da categoria entregaram a pauta de reivindicações à Fenaban.
A primeira reunião ocorreu em 2 de julho e colocou em discussão temas como jornada 4×3, teletrabalho, direito à desconexão, inclusão de pessoas com deficiência e cláusulas sociais.
Na segunda rodada, realizada em 7 de julho, a negociação avançou sobre empregos, fechamento de agências, demissões, trabalho remoto e os efeitos da inteligência artificial sobre as funções bancárias.
Em 16 de julho, a terceira reunião abordou igualdade de oportunidades e direitos destinados a diferentes grupos de trabalhadores.
A saúde mental e as metas de produtividade ganharam espaço na quarta rodada, realizada em 21 de julho.
No encontro seguinte, em 30 de julho, os representantes dos bancários apresentaram as cobranças por aumento real dos salários, PLR, vales e outras verbas.
Já em 13 de agosto, durante a sétima rodada, surgiu o principal impasse. Segundo a Contraf, os bancos não apresentaram um percentual geral de reajuste e sugeriram congelamento do piso de entrada e correções diferenciadas conforme a faixa salarial.
Próxima reunião pode definir paralisação nos bancos
Agora, as atenções se concentram na negociação desta terça-feira (18).
Caso trabalhadores e bancos consigam avançar em uma proposta, o cenário de paralisação poderá mudar.
Por outro lado, se o impasse continuar, sindicatos de diferentes regiões poderão realizar manifestações e suspender atividades na quinta-feira (20), conforme decisão das respectivas assembleias.
A extensão de uma eventual paralisação dependerá da adesão dos bancários e das deliberações realizadas pelos sindicatos.
O que dizem os bancos
A Federação Brasileira de Bancos informou que recebeu a pauta de reivindicações da campanha salarial em 24 de junho.
Segundo a entidade, as conversas seguem o calendário previamente definido entre as partes.
A representação dos bancos também afirmou esperar que as negociações terminem com um entendimento capaz de atender aos dois lados.