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Adeus, Brasil: grande empresa americana fecha única fábrica brasileira e culpa tarifaço dos EUA

Empresa americana fechou fábrica e anunciou saída do Brasil.
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Empresa americana
A empresa americana fechou fábrica e anunciou saída do Brasil. Crédito: Divulgação
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Uma multinacional centenária decidiu encerrar toda a sua produção industrial no Brasil. A medida atinge mais de 400 trabalhadores diretos e coloca fim a uma operação que recebeu investimentos superiores a R$ 200 milhões nos últimos anos.

A unidade chegou a empregar aproximadamente mil pessoas antes da pandemia. Além disso, tinha capacidade para produzir cerca de 1 milhão de peças por ano. Mesmo com essa estrutura, mudanças no comércio internacional e na estratégia global da companhia reduziram a importância da fábrica brasileira.

A empresa é a Kohler, gigante americana especializada em louças, metais, produtos para cozinhas e banheiros. A companhia encerrou na segunda-feira, 31 de agosto, a produção de sua fábrica localizada em Andradas, no Sul de Minas Gerais.

Era a única fábrica da Kohler no Brasil.

Apesar disso, a multinacional não está abandonando o mercado brasileiro. A empresa continuará com escritório, distribuição, importação e vendas no país. Ao mesmo tempo, pretende concentrar cada vez mais seus negócios em produtos premium e de luxo.

Mais de 400 trabalhadores são afetados pelo fechamento

O encerramento ocorreu justamente quando os funcionários se preparavam para voltar ao trabalho.

Parte da equipe estava em férias coletivas desde 17 de agosto. O retorno ocorreria na segunda-feira, dia 31.

Antes disso, entretanto, os trabalhadores receberam uma mensagem orientando que não comparecessem normalmente à unidade. A empresa convocou uma reunião e comunicou o encerramento da fábrica.

Cerca de 400 trabalhadores estão diretamente envolvidos no processo. Após o anúncio, o Sindicato dos Trabalhadores Ceramistas e Vidreiros de Andradas, Poços de Caldas e Caldas iniciou negociações com a Kohler sobre os contratos de trabalho. A entidade também informou que deverá convocar uma assembleia extraordinária para discutir a situação.

A empresa informou ainda que dará suporte aos trabalhadores durante o processo e manterá benefícios por um período após o anúncio.

Dessa forma, o fechamento da produção não significa que todos os contratos tenham terminado imediatamente. As condições dos desligamentos ainda passam por negociação entre representantes dos trabalhadores e a companhia, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.

Fábrica recebeu mais de R$ 200 milhões em investimentos

O encerramento chama atenção principalmente por causa do tamanho dos investimentos feitos na operação brasileira.

A Kohler entrou no país por meio da aquisição da Fiori e transformou a unidade de Andradas em sua base de produção no mercado nacional.

Nos anos seguintes, a multinacional ampliou e modernizou a operação. Ao todo, mais de R$ 200 milhões foram destinados à fábrica.

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A capacidade produtiva chegou a aproximadamente 1 milhão de peças por ano. Além disso, antes da pandemia, a unidade chegou a reunir aproximadamente mil trabalhadores.

Nos últimos anos, porém, o quadro de funcionários diminuiu. No momento do encerramento, pouco mais de 400 empregos diretos estavam ligados à fábrica.

Tarifaço dos EUA também pesou na decisão da empresa americana

Além da reorganização interna da companhia, o cenário comercial entre Brasil e Estados Unidos também entrou na conta.

As tarifas impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras pesaram na decisão de encerrar a produção em Andradas, segundo informações divulgadas sobre o fechamento. A própria decisão da Kohler tem sido relacionada pela imprensa especializada ao impacto das tarifas e ao avanço da estratégia de nearshoring.

Esse fator ganhou importância porque os Estados Unidos representam o principal mercado da multinacional. Parte da produção brasileira tinha como destino o mercado americano.

Com as novas barreiras comerciais, produzir no Brasil para depois enviar mercadorias aos Estados Unidos perdeu competitividade.

Ao mesmo tempo, a Kohler ampliou sua capacidade industrial no México. A localização oferece uma vantagem estratégica: as fábricas mexicanas ficam muito mais próximas do mercado americano.

Portanto, a companhia passou a contar com alternativas para abastecer os Estados Unidos sem depender da produção brasileira.

Esse movimento faz parte do chamado nearshoring. Na prática, grandes companhias aproximam suas fábricas dos principais mercados consumidores para reduzir custos logísticos, riscos comerciais e tempo de transporte.

Dessa maneira, o tarifaço não aparece como a única causa do fechamento da fábrica brasileira. Porém, ele se somou à expansão da produção no México, à facilidade de importar produtos da Ásia e à mudança de estratégia mundial da Kohler.

Produção no México reduziu necessidade da fábrica brasileira

A expansão mexicana ganhou peso justamente durante a reorganização industrial da companhia.

A Kohler aumentou significativamente sua capacidade produtiva naquele país. Dessa forma, consegue fabricar milhões de peças mais perto dos Estados Unidos.

Além disso, a multinacional possui fornecedores e operações na Ásia.

A combinação tornou mais fácil abastecer diferentes mercados com produtos vindos do México e do continente asiático. Consequentemente, manter uma fábrica no Brasil dedicada principalmente a produtos de menor valor passou a fazer menos sentido dentro da nova estratégia.

Informações divulgadas após o fechamento apontam que o crescimento da capacidade produtiva em outras regiões e a facilidade de transportar produtos do México e da Ásia também pesaram na decisão.

Empresa americana muda estratégia e aposta no mercado de luxo

Outro fator decisivo está na transformação do portfólio da multinacional.

A Kohler quer ampliar sua presença nos segmentos premium, de luxo, tecnologia e bem-estar.

Enquanto isso, a fábrica de Andradas concentrava parte importante de sua produção em produtos considerados mais padronizados. Nesse mercado, fabricantes disputam clientes principalmente pelo preço.

A própria companhia considera esse segmento altamente competitivo.

Por outro lado, produtos sofisticados oferecem margens maiores e permitem que a empresa explore tecnologia, design e exclusividade.

Nos últimos anos, a Kohler reforçou essa estratégia por meio da aquisição de marcas internacionais voltadas ao público de alto padrão.

Em 2023, a companhia comprou a Kast, especializada em cubas de concreto voltadas ao segmento premium. Posteriormente, adquiriu a alemã KLAFS, conhecida pela fabricação de saunas, banhos a vapor e equipamentos de bem-estar.

Portanto, o fechamento brasileiro faz parte de uma mudança mais ampla na estratégia da companhia, e não apenas de uma redução isolada de custos.

Marca Fiori também chega ao fim

A mudança encerra ainda a trajetória da Fiori dentro da operação da Kohler.

A marca teve papel fundamental na entrada da multinacional no mercado brasileiro. Foi a partir da aquisição da operação que a empresa americana passou a produzir localmente.

Agora, entretanto, a estratégia será diferente.

A Kohler pretende concentrar inicialmente suas vendas no Brasil na própria marca internacional. Posteriormente, outras marcas de alto padrão pertencentes ao grupo poderão chegar ao mercado brasileiro.

A empresa também pretende ampliar sua participação em hotéis de luxo, projetos arquitetônicos sofisticados e empreendimentos residenciais de alto padrão.

Empresa americana continuará funcionando no Brasil

Apesar do encerramento da fábrica, a multinacional não deixará o país.

A Kohler continuará importando e comercializando produtos no mercado brasileiro. Além disso, manterá sua estrutura administrativa, de distribuição e de vendas.

As lojas também permanecerão abertas.

Na prática, portanto, a mudança representa o fim da produção industrial da Kohler no Brasil, mas não o encerramento das operações comerciais da companhia.

O modelo passa a depender principalmente de produtos fabricados no exterior e posteriormente importados.

Empresa americana pode vender fábrica para concorrente

Outro ponto ainda permanece indefinido: o futuro do enorme complexo industrial de Andradas.

Entre as possibilidades avaliadas está a venda da estrutura para outra empresa do setor.

Caso um concorrente adquira a fábrica, o parque industrial poderá voltar a produzir sob um novo controlador. Entretanto, até o momento, não existe confirmação de comprador.

Enquanto isso, a Prefeitura de Andradas acompanha os impactos econômicos do fechamento.

O município também acompanha a situação dos trabalhadores, enquanto o sindicato negocia com a empresa as condições relacionadas aos contratos e desligamentos.

O encerramento pode produzir consequências que vão além dos mais de 400 empregos diretos. Prestadores de serviços, transportadoras, fornecedores e outras empresas que mantinham negócios com a fábrica também podem sentir os efeitos da decisão.

Para Andradas, o fechamento encerra uma importante etapa industrial. Já para a Kohler, começa uma nova fase no Brasil: sem produção própria e com uma estratégia concentrada em importações, produtos de maior valor agregado e no mercado de luxo.

Foto de Gabriel Almeida

Gabriel Almeida

Jornalista há 11 anos, Gabriel Almeida é editor-chefe do Portal Tempo Novo. Atua diretamente na produção e curadoria do conteúdo, além de assinar reportagens sobre os principais acontecimentos do Brasil e temas de interesse público nacional.

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