Mesmo seis anos após o anúncio de que a humanidade enfrentava uma pandemia de Covid-19, a população ainda convive com marcas, lutos e sequelas deixadas pelo vírus. Entre os mais impactados estão os profissionais da saúde, especialmente os enfermeiros, que estiveram na linha de frente do combate à doença em hospitais, unidades de pronto atendimento e centros de triagem durante o período mais crítico da crise sanitária.
Celebrado em 12 de maio, o Dia Internacional da Enfermagem ganha, neste ano, um significado ainda mais simbólico. No Brasil, a data também marca o início da Semana da Enfermagem, realizada até 20 de maio, período que reforça a importância da categoria e gera reflexões sobre os desafios enfrentados pelos profissionais desde a pandemia.
Muitos destes desafios ainda acompanham profissionais da área que atuaram presencialmente durante um período de muita tensão e quarentena. Uma vivência que os deixou mais experientes na profissão e ainda mais aptos a repassar ensinamentos aos iniciantes. Caso, por exemplo, do Centro Universitário Estácio de Vitória, que possui docentes que atuaram de forma ativa ao longo da crise sanitária.
Enfermeiro e professor, Alcy Leal Aranha explica que a pandemia colocou em xeque muitas certezas profissionais para a categoria.
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“Lidar com uma doença desconhecida, sem tempo para estudá-la, sem entender ao certo como agir, é como colocar-se dentro de um quarto escuro e ir tateando até encontrar o interruptor de luz. Somos formados para salvar e cuidar de vidas. Quando isso não é possível na sua integralidade, nos traz uma imensa frustração profissional”.
Dados do Conselho Regional de Enfermagem do Espírito Santo (Coren-ES), atualizados em abril deste ano, mostram que o estado possui 14.748 enfermeiros ativos. O número é inferior ao total de mortes provocadas pela Covid-19 no Espírito Santo entre 2020 e 2026: 15.290 óbitos. No mesmo período, foram registrados 1.398.638 casos confirmados da doença.
Somados técnicos e auxiliares de enfermagem, categoria que também esteve diretamente envolvida no enfrentamento à pandemia, o número de profissionais da área no estado chega a 59.479.
Entre as lembranças mais difíceis daquele período, Alcy relembra o medo e a ansiedade que tomaram conta das equipes ao presenciarem pacientes jovens e sem comorbidades terem o quadro agravado em poucas horas. “Às vezes, o plantão ainda não tinha nem terminado, e elas já tinham ido a óbito”, conta.
Além das sequelas, a Covid também alterou a forma de ensinar na Saúde. Segundo Vanesa Teixeira, coordenadora e docente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Estácio de Vitória, a pandemia exigiu uma reorganização da enfermagem, desde protocolos até a criação de novos leitos e fluxos hospitalares.
“Ao mesmo tempo, a pandemia também deixou aprendizados importantes para a formação dos profissionais, impulsionou pesquisas, acelerou o uso de tecnologias na área da Saúde e ampliou novas formas de atendimento. Hoje, por exemplo, a telenfermagem é uma prática regulamentada, permitindo que enfermeiros realizem consultas, acompanhamentos e ações de educação em saúde de forma remota”, explicou a coordenadora.
Se as marcas da pandemia permanecem na memória dos profissionais, os impactos emocionais também seguem presentes dentro das unidades de saúde. Mais uma enfermeira e professora da Estácio, Fabiana Moreira revela que o desgaste vivido durante os anos mais críticos da Covid-19 ainda reverbera na categoria.
“O ‘pós-guerra’ ainda existe. Muitos enfermeiros desenvolveram burnout e transtornos de ansiedade que não foram totalmente curados.
A categoria carrega uma carga emocional acumulada; trabalhamos no limite do luto e da pressão técnica por muito tempo, e o reflexo disso ainda aparece no dia a dia das unidades”, afirmou a docente.
Segundo Fabiana, a experiência da pandemia também transformou a maneira como novos profissionais são preparados para atuar na área da Saúde, ampliando discussões sobre acolhimento emocional e humanização no atendimento.
“A pandemia provou que o currículo não pode ser apenas técnico. Na saúde pública e na educação em saúde, hoje, discutimos muito mais o suporte psicológico ao profissional e a escuta ativa ao paciente. A humanização deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma ferramenta de sobrevivência”, destaca.
