Todos os anos, em setembro, o debate sobre prevenção do suicídio ganha espaço. Campanhas, publicações nas redes sociais, eventos e mensagens de conscientização nos lembram da importância de cuidar da saúde mental. Mas o que acontece quando setembro amarelo termina?
Essa é uma pergunta que merece ser feita. Porque falar sobre prevenção do suicídio não pode se resumir a uma campanha anual. A prevenção precisa estar presente na forma como a sociedade reconhece o sofrimento, oferece cuidado e responde às pessoas que precisam de ajuda.
Na prática, muitas pessoas passam meses enfrentando dificuldades emocionais sem conseguir acessar um tratamento. Algumas não têm condições financeiras para pagar um psicólogo. Outras encontram dificuldades para conseguir atendimento psiquiátrico ou enfrentam longas esperas nos serviços públicos. Há também quem não procure ajuda por vergonha, medo de ser julgado ou por acreditar que precisa dar conta de tudo sozinho.
Esse cenário mostra que o problema não está apenas na falta de informação. Muitas pessoas já sabem que precisam de ajuda. O que falta, muitas vezes, é conseguir chegar até ela.
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Também precisamos olhar para a maneira como o sofrimento é tratado no cotidiano. Ainda é comum ouvir que alguém precisa ser forte, que está exagerando ou que deveria simplesmente seguir em frente. Em uma sociedade que valoriza tanto a produtividade, até mesmo o sofrimento parece precisar de uma justificativa para ser levado a sério.
Uma pessoa pode continuar trabalhando, cuidando da casa, dos filhos e cumprindo suas responsabilidades enquanto enfrenta um sofrimento intenso. O fato de ela continuar funcionando não significa que esteja bem.
Por isso, a prevenção também passa pela capacidade de reconhecer mudanças de comportamento, perceber quando alguém está se afastando, perguntar como essa pessoa está e, principalmente, levar sua resposta a sério. Não se trata de transformar familiares e amigos em profissionais de saúde, mas de compreender que a escuta e o acolhimento podem ser importantes para que alguém não enfrente uma situação difícil completamente sozinho.
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que o cuidado não pode depender apenas da boa vontade das pessoas próximas. A prevenção exige serviços de saúde acessíveis, profissionais preparados e políticas públicas que garantam acompanhamento para quem precisa.
Na Psicologia, compreendemos que o sofrimento psíquico pode estar relacionado a diferentes aspectos da vida: perdas, conflitos, relações, condições de trabalho, isolamento, dificuldades financeiras e tantas outras experiências. Não existe uma única explicação para o sofrimento de uma pessoa, assim como não existe uma única resposta para todas as situações.
O que existe é a necessidade de olhar para cada pessoa com seriedade, sem reduzir sua experiência a frases prontas ou a uma explicação simplista.
O Setembro Amarelo pode ser uma oportunidade importante para ampliar essa discussão. Mas ele não pode ser o único momento em que falamos sobre saúde mental. Se queremos realmente avançar na prevenção do suicídio, precisamos discutir o acesso ao cuidado, a qualidade dos vínculos, as condições de vida e a forma como lidamos com quem está sofrendo.
Porque uma sociedade que só reconhece o sofrimento quando ele se torna uma emergência precisa repensar a maneira como cuida da saúde mental.
Setembro pode ser o ponto de partida. O cuidado precisa continuar o ano inteiro.