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Estudo descobre que leite de barata tem três vezes mais energia que o de vaca

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Barata marrom sobre galho seco, imagem que ilustra o Prêmio Ig Nobel 2026 e o estudo do leite de barata
Imagem ilustrativa de barata: o leite produzido pela espécie Diploptera punctata rendeu o Ig Nobel 2026 de química.
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O Prêmio Ig Nobel 2026 escolheu dez pesquisas que primeiro fazem rir e depois fazem pensar. Criada em 1991 pela revista americana Annals of Improbable Research, a premiação é uma paródia do Nobel e homenageia estudos científicos reais que soam absurdos à primeira vista. A cerimônia aconteceu na última quinta-feira (3), no centro de convenções de Zurique, na Suíça. Entre os vencedores está o grupo que mediu o valor nutricional do leite de barata: as proteínas desse leite carregam três vezes mais energia que as do leite de vaca. Na mesma noite, seis cientistas brasileiros levaram o prêmio de biologia.

O que é o leite de barata premiado em Zurique

Barata não amamenta, e o nome “leite” serve para explicar a função. A espécie estudada é a Diploptera punctata, chamada de barata-besouro do Pacífico, a única que se sabe gerar filhotes vivos em vez de botar ovos. Enquanto carrega os embriões, a fêmea secreta um líquido nutritivo em uma bolsa dentro do próprio corpo. Esse líquido se transforma em cristais sólidos no intestino dos filhotes, e foram esses cristais que os cientistas decidiram investigar.

A história começou por acidente, na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. O pesquisador Nathan Coussens notou os cristais e insistiu que não eram apenas ácido úrico, como supunha o orientador. Quase dez anos depois, uma equipe internacional conseguiu decifrar a estrutura em resolução atômica. O grupo foi liderado por Subramanian Ramaswamy, do instituto inStem, em Bangalore, na Índia. O trabalho usou cristalografia de raios X e saiu em 2016 na revista IUCrJ, com onze autores de cinco países.

O conteúdo do cristal explica o prêmio. Cada um deles reúne proteína, gordura e açúcar, além de todos os aminoácidos essenciais, o que o aproxima de um alimento completo. A energia gira em torno de 232 calorias por 100 gramas, cerca de três vezes o valor da mesma quantidade de leite de vaca. Durante a digestão, além disso, o cristal libera aminoácidos aos poucos, e não de uma vez.

Por que ninguém vende suplemento de leite de barata

Ordenhar barata está fora de questão, porque o animal é minúsculo e produz pouquíssimo material. Diante disso, os autores levantaram a ideia de reproduzir a proteína em laboratório, com leveduras, caso o suplemento virasse produto algum dia. Uma década depois, nada chegou ao mercado. Ramaswamy costuma lembrar que o grupo não buscava substituto alimentar nenhum e foi atrás dos cristais por pura curiosidade.

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Brasileiros vencem o Ig Nobel 2026 de biologia

O prêmio de biologia foi para seis cientistas brasileiros ligados ao Instituto Butantan, em São Paulo. A pergunta da pesquisa era direta: o que faz uma jararaca picar uma pessoa? Para responder, eles calçaram uma bota reforçada e tocaram de leve nas serpentes com o pé, imitando o que acontece quando alguém pisa no animal sem ver. Foram 40.480 toques em 116 jararacas, sempre variando a parte do corpo, o horário e a temperatura. No fim, os dados mostraram que o bicho ataca mais pela manhã e quando faz mais calor.

O grupo reúne João Miguel Alves Nunes, Adriano Fellone, Selma Maria Almeida-Santos, Carlos Roberto de Medeiros, Ivan Sazima e Otavio Augusto Vuolo Marques. Alves Nunes, autor principal, tem 28 anos e é de Santo André. Ele levou quatro picadas ao longo de dois anos de trabalho e teve reação alérgica ao veneno e ao soro antiofídico. Por isso, deixou o próprio projeto antes do fim. Coincidência à parte, o troféu entregue em Zurique tem a forma de um pé humano com cogumelos nascendo entre os dedos.

Estudo premiado foi despublicado em 2025

A pesquisa saiu em maio de 2024 na revista Scientific Reports, do grupo Nature. Em fevereiro do ano seguinte, porém, a revista retratou o artigo, ou seja, cancelou a publicação e invalidou formalmente os resultados. A decisão não teve relação com fraude nem com plágio. O comitê de ética do Butantan não havia autorizado dois pontos do experimento. Pelo protocolo aprovado, a equipe deveria trabalhar só com serpentes adultas e estimular os animais com um gancho, e não com o pé. O próprio instituto pediu a retirada do texto, e a revista afirmou ter apurado o caso conforme as práticas do Cope, comitê internacional de ética em publicações científicas.

Os autores discordaram da decisão. Segundo Alves Nunes, os dados estão corretos e nenhum animal morreu ou ficou com sequelas durante a pesquisa. Ele diz ainda que o termo “pisada”, usado no artigo, atrapalhou o entendimento, porque a descrição correta seria tocar levemente com o pé.

Cuecas enterradas e beijo de urso polar completam a lista

As outras oito categorias seguiram a mesma lógica. Na ciência do solo, quatro pesquisadores enterraram mil cuecas iguais em mais de 25 países e as desenterraram dois meses depois, para medir a saúde da terra pelo grau de decomposição do tecido. Já a biomecânica premiou cientistas que criaram uma definição mais precisa de beijo e a aplicaram a formigas, aves, ursos polares e humanos. A medicina reconheceu, em caráter póstumo, o japonês Tokuji Unno, autor de um estudo sobre a aerodinâmica de assoar o nariz. Também entraram na lista um projeto de mictório sem respingos, o uso de bicos de mosquito como bicos de impressora 3D, a constatação de que bebês têm cheiro ótimo para os pais e adolescentes não, evidências de que pessoas de classe alta pegam mais doces de um pote destinado a crianças e a conclusão de que todos valorizam amigos capazes de ser cruéis com quem a gente não gosta.

Depois de 35 anos de cerimônias nos Estados Unidos, em espaços como Harvard e o MIT, a organização levou o evento para a Europa e alegou preocupação com a concessão de vistos a convidados estrangeiros. A próxima edição, em 2027, acontece em Antuérpia, na Bélgica. O Nobel oficial, que não tem qualquer relação com o Ig, anuncia os vencedores no começo de outubro.

Foto de Mari Nascimento

Mari Nascimento

Mari Nascimento é repórter do Tempo Novo há 24 anos. Atualmente, a jornalista escreve para diversas editorias do portal, principalmente para a de Política.

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