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Não adianta frear: radar que mede velocidade média de veículos é instalado na BR-101

Radar que mede a velocidade média dos veículos foi instalado na BR-101.
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Radar de velocidade média
Radar que mede a velocidade média dos veículos foi instalado na BR-101. Crédito: Divulgação
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Frear somente quando o radar aparece e voltar a acelerar logo depois pode deixar de funcionar como estratégia para motoristas que trafegam pela BR-101. Um sistema instalado no Espírito Santo consegue acompanhar o veículo entre diferentes pontos da rodovia e calcular a velocidade média mantida durante vários quilômetros.

A tecnologia utiliza radares existentes no trecho entre Sooretama e Linhares, no Norte do Estado. Em vez de observar apenas a velocidade do carro no instante em que ele passa pelo equipamento, o sistema compara o horário registrado em diferentes pontos e calcula quanto tempo o motorista levou para completar o percurso.

Apesar de a estrutura estar instalada, os testes do sistema estão temporariamente suspensos. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) determinou em 18 de setembro de 2026 a interrupção dos projetos-piloto de controle de velocidade média nas rodovias federais concedidas. Segundo a agência, serão feitos ajustes técnicos, procedimentais e operacionais, principalmente relacionados à sinalização e à comunicação com os usuários.

No Espírito Santo, a ordem atinge diretamente o projeto da BR-101. A Decisão Surod nº 1.510 suspendeu, até nova determinação da ANTT, a implementação do experimento que havia sido autorizado para três segmentos entre os quilômetros 102,740 e 125,500.

Isso significa que, neste momento, o projeto de velocidade média não está sendo executado nos moldes autorizados pela agência. Os radares convencionais existentes na BR-101, porém, continuam sujeitos às regras normais de fiscalização da velocidade registrada em cada ponto.

Radar consegue descobrir quem acelera depois de passar pelo equipamento

O sistema de velocidade média muda completamente a lógica usada pelos equipamentos tradicionais, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.

No radar convencional, a fiscalização ocorre em um ponto específico. Se o limite naquele local é de 60 km/h, por exemplo, o aparelho registra a velocidade apresentada pelo veículo justamente no momento da passagem.

Na medição por trecho, a conta é diferente.

O primeiro equipamento registra a passagem do veículo e o horário. Alguns quilômetros depois, outro ponto identifica o mesmo automóvel. Como o sistema sabe a distância entre os dois locais e quanto tempo o motorista gastou para percorrê-la, consegue calcular a velocidade média desenvolvida naquele trecho.

Dessa maneira, um motorista poderia passar diante dos dois equipamentos a 60 km/h e, ainda assim, ter uma média superior ao limite caso tenha acelerado entre eles.

É justamente esse comportamento que a tecnologia pretende identificar: reduzir bruscamente a velocidade próximo ao radar e voltar a acelerar assim que o equipamento fica para trás, prática conhecida como “efeito canguru”.

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Sistema já flagrou picape com média de 124 km/h

Antes de a ANTT suspender os testes, a concessionária já utilizava a tecnologia em ações experimentais na BR-101 capixaba.

Um dos casos mais extremos ocorreu durante um teste realizado no trecho de 23 quilômetros no Norte do Espírito Santo. Uma picape registrou velocidade média de 124 km/h em uma área onde o limite era de apenas 60 km/h.

O veículo, contudo, não havia ultrapassado o limite exatamente nos pontos onde estavam os radares.

Ao comparar o tempo de deslocamento entre os equipamentos, o sistema identificou que o motorista havia trafegado em velocidade muito maior no restante do percurso.

O trecho passa pela região da Reserva Biológica de Sooretama, onde o limite reduzido está relacionado também à circulação de animais silvestres e às características da rodovia.

Um em cada dez veículos monitorados estava acima do limite

O resultado de uma operação realizada em 26 de maio também mostrou como a medição por trecho consegue revelar comportamentos que podem passar despercebidos pelos radares pontuais.

Durante aproximadamente três horas, veículos foram acompanhados entre os quilômetros 102 e 125 da BR-101.

A análise apontou 51 veículos acima da velocidade permitida quando considerada a média do percurso, o equivalente a aproximadamente 10% dos automóveis monitorados. Mais da metade desses 51 condutores apresentou média superior em mais de 50% ao limite estabelecido para o trecho.

Os motoristas foram abordados pela Polícia Rodoviária Federal em uma ação educativa, mas não receberam multas com base na velocidade média.

ANTT havia autorizado teste por 180 dias

O projeto ganhou uma nova etapa em setembro.

No dia 9 daquele mês, a Superintendência de Infraestrutura Rodoviária da ANTT autorizou formalmente a Ecovias Capixaba a realizar o projeto-piloto em três partes da BR-101:

  • do km 102,740 ao km 107,080;
  • do km 107,080 ao km 118,500;
  • do km 118,500 ao km 125,500.

A autorização previa 180 dias de experimento, contados a partir da implantação e do início efetivo do monitoramento. A concessionária também deveria encaminhar mensalmente os resultados à agência.

Mas poucos dias depois a ANTT mudou o cronograma.

Em 18 de setembro, a agência decidiu interromper temporariamente os projetos para fazer novos ajustes. A suspensão não significa o abandono definitivo da tecnologia: a própria ANTT informou que divulgará os próximos passos depois da conclusão dos aprimoramentos.

Radar de velocidade média pode dar multa atualmente?

Mesmo antes de suspender os testes, a ANTT já classificava o projeto como técnico, educativo e experimental.

Na BR-101, no Espírito Santo, a agência proibiu o uso dos dados de velocidade média para aplicar multas ou outras penalidades aos motoristas durante essa fase.

Ao anunciar a suspensão, a ANTT também reforçou que não multou nem penalizou nenhum motorista com base na velocidade média registrada durante os experimentos.

A suspensão, porém, não altera a fiscalização feita pelos radares convencionais.

Se um equipamento regular registrar o veículo acima da velocidade máxima permitida, o motorista poderá receber normalmente as penalidades previstas no Código de Trânsito Brasileiro.

Excesso acima de 50% pode render multa de R$ 880,41

A punição mais pesada prevista para excesso de velocidade ocorre quando o motorista circula mais de 50% acima do limite permitido.

O artigo 218, inciso III, do Código de Trânsito Brasileiro classifica a conduta como infração gravíssima e determina multa multiplicada por três, além da suspensão do direito de dirigir. O valor da penalidade é de R$ 880,41.

Em um trecho limitado a 60 km/h, portanto, um flagrante feito por radar convencional acima da faixa prevista na legislação pode colocar o motorista nessa situação.

É importante separar as duas coisas: esse tipo de punição já existe e continua valendo para equipamentos convencionais. O que ainda não está sendo utilizado para multar é o cálculo da velocidade média entre dois pontos.

Cinco radares foram usados no trecho da BR-101

O projeto capixaba aproveitou equipamentos que já estavam instalados na rodovia.

Cinco radares localizados entre os quilômetros 102 e 125 passaram a permitir o cruzamento dos registros dos veículos. Dessa forma, não era necessário colocar um aparelho completamente novo em cada ponto: o sistema utilizava os dados coletados para calcular o tempo de deslocamento.

A tecnologia cria uma fiscalização diferente da que o motorista está acostumado a encontrar nas estradas brasileiras.

Em vez de existir apenas um ponto de controle, todo o espaço entre dois equipamentos pode ser analisado.

Suspensão vale até nova decisão da ANTT sobre radar de velocidade média

Por enquanto, porém, o avanço dessa fiscalização entrou em compasso de espera.

A determinação da ANTT suspendeu a implementação do projeto da BR-101 capixaba até uma nova decisão da Superintendência de Infraestrutura Rodoviária. A agência não informou uma data para a retomada.

A justificativa oficial é a necessidade de aprimorar aspectos técnicos, operacionais e de comunicação com os usuários antes que os experimentos prossigam.

Assim, a concessionária já instalou o sistema capaz de calcular a velocidade média e testou a tecnologia na BR-101. Durante os testes, o equipamento identificou inclusive motoristas que aceleravam entre os pontos de fiscalização. Neste momento, porém, a ANTT mantém esse tipo de teste suspenso, e o sistema não gera multas.

Se a agência autorizar a retomada do projeto, a fiscalização seguirá uma lógica bem diferente da tradicional. Como o sistema analisa a velocidade ao longo de todo o percurso, frear apenas diante do radar não impede que a tecnologia identifique excessos cometidos nos quilômetros anteriores.

Foto de Gabriel Almeida

Gabriel Almeida

Jornalista há 11 anos, Gabriel Almeida é editor-chefe do Portal Tempo Novo. Atua diretamente na produção e curadoria do conteúdo, além de assinar reportagens sobre os principais acontecimentos do Brasil e temas de interesse público nacional.

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