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Motoristas com dívidas negativadas podem perder a CNH após decisão da Justiça

Motoristas com dívidas podem ter a CNH suspensa pela Justiça em situações específicas.
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Motoristas com dívidas CNH
Motoristas com dívidas podem ter a CNH suspensa. Crédito: Divulgação
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Motoristas com dívidas negativadas podem enfrentar uma consequência que vai além da cobrança financeira. Em determinadas situações, a Justiça pode determinar até mesmo a suspensão temporária da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) durante um processo judicial.

A medida, porém, não vale automaticamente para qualquer pessoa que esteja devendo. Ter uma conta atrasada, aparecer no SPC ou Serasa ou acumular parcelas de empréstimos não faz o motorista perder imediatamente o direito de dirigir.

Para chegar a uma restrição desse tipo, o caso precisa estar na Justiça. Além disso, o juiz deve analisar as tentativas de cobrança, a situação financeira do devedor e o comportamento apresentado durante o processo.

Decisões já aplicadas no Brasil mostram que nem mesmo o valor da dívida, isoladamente, define o resultado. Há registros de suspensão da CNH em cobranças de aproximadamente R$ 14 mil e R$ 20 mil.

Em 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) também estabeleceu parâmetros para orientar magistrados em todo o país sobre o uso dessas medidas.

Quando a Justiça pode suspender a CNH por dívida?

Normalmente, o processo começa quando uma pessoa deixa de pagar uma obrigação e o credor decide buscar o dinheiro judicialmente, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.

A partir daí, a Justiça tenta localizar recursos que possam quitar o débito. Entre as possibilidades estão dinheiro em contas bancárias, veículos, imóveis e outros bens registrados no nome do devedor.

No entanto, nem sempre essas buscas encontram patrimônio suficiente.

Quando os meios tradicionais não produzem resultado, o credor pode pedir outras medidas para tentar fazer o devedor cumprir a obrigação.

O Código de Processo Civil permite que o juiz adote as chamadas medidas executivas atípicas. Dependendo das circunstâncias, decisões judiciais já envolveram CNH, passaporte e até cartões de crédito.

Mesmo assim, a existência de uma dívida, sozinha, não autoriza automaticamente essas restrições.

Homem teve CNH suspensa após dívida chegar a R$ 14 mil

Um dos casos ocorreu em Ipameri, Goiás, após uma cobrança relacionada a um empréstimo contratado com a Cooperativa Sicredi Planalto Central.

O devedor recebeu inicialmente R$ 11 mil por meio de uma cédula de crédito bancário. Pelo contrato, ele deveria quitar o financiamento em 36 parcelas de R$ 452,62.

Entretanto, o homem pagou integralmente apenas 12 prestações. Além disso, algumas parcelas anteriores já haviam sido quitadas com atraso.

Com a aplicação de juros e encargos, o débito chegou a R$ 14.015,95.

A instituição tentou receber o valor por outros meios. Contudo, as buscas realizadas durante o processo não encontraram patrimônio suficiente para garantir o pagamento.

Em determinado momento, o próprio devedor solicitou uma audiência para tentar negociar. A Justiça marcou a conciliação, mas ele não compareceu nem apresentou justificativa.

Outro ponto chamou a atenção do processo.

Publicações feitas pelo homem nas redes sociais mostravam viagens, festas e outros gastos. Em 2018, por exemplo, ele divulgou registros em Boston, Washington e Nova York, nos Estados Unidos, além de destinos turísticos brasileiros.

Para o juiz Luiz Antônio Afonso Júnior, da 1ª Vara Cível, Criminal e da Infância e Juventude de Ipameri, havia uma aparente incompatibilidade entre o padrão de vida exibido publicamente e a ausência de bens encontrados durante a execução.

Diante desse conjunto de circunstâncias, o magistrado determinou a suspensão da CNH e do passaporte. Também ordenou o bloqueio dos cartões de crédito.

Empresária também perdeu temporariamente a CNH

Outro episódio que ganhou repercussão envolveu uma empresária do setor de serviços.

Nesse processo, divulgado em 2024, a dívida estava próxima de R$ 20 mil. A Justiça tentou encontrar patrimônio da devedora, mas não localizou bens declarados suficientes para cobrir o débito.

Ao mesmo tempo, as redes sociais mostravam uma situação diferente.

A empresária publicava imagens em festas, aparecia com roupas de grife e exibia carros de luxo.

Essa diferença entre a situação patrimonial identificada no processo e o padrão de vida mostrado publicamente pesou na análise judicial.

Como consequência, a Justiça suspendeu a CNH e o passaporte da empresária.

As informações disponíveis sobre o processo, entretanto, não esclarecem de onde surgiu originalmente a dívida de aproximadamente R$ 20 mil.

Por isso, não é possível afirmar se a cobrança envolvia empréstimo, cartão de crédito ou outro compromisso financeiro.

Nome no Serasa pode causar suspensão da CNH?

Um motorista pode estar negativado no SPC ou Serasa e continuar utilizando sua CNH normalmente.

O mesmo acontece com quem atrasa cartão de crédito, empréstimo, financiamento ou outras contas.

A possibilidade de restrição aparece somente quando existe uma cobrança judicial e o juiz entende que determinadas medidas podem ajudar no cumprimento da obrigação.

Além disso, cada processo precisa passar por uma análise específica.

Portanto, não existe uma regra segundo a qual qualquer motorista negativado perderá a carteira de habilitação.

STJ criou critérios para os juízes em 2026

O Superior Tribunal de Justiça estabeleceu em janeiro de 2026 critérios para o uso das medidas executivas atípicas ao julgar o Tema Repetitivo 1.137.

Com isso, os juízes passaram a contar com parâmetros nacionais para avaliar restrições aplicadas durante processos de execução.

Entre os pontos analisados está a utilidade concreta da medida. Ou seja, o magistrado precisa verificar se suspender determinado direito realmente pode contribuir para o pagamento da dívida.

Além disso, o juiz deve considerar alternativas menos prejudiciais ao devedor.

Também precisa avaliar se as formas tradicionais de cobrança já foram utilizadas ou se apresentam pouca chance de resultado.

Outro requisito envolve a fundamentação da decisão. O magistrado precisa explicar por que aquela restrição faz sentido naquele processo específico.

Assim, não basta simplesmente apontar que existe uma dívida e ordenar a suspensão da CNH.

O devedor também precisa ter espaço para apresentar defesa e explicar sua situação.

Existe valor exato de dívida para perder a CNH?

Não existe um valor mínimo definido para que a Justiça possa analisar a suspensão da habilitação.

Consequentemente, não há uma regra nacional dizendo que dívidas acima de R$ 10 mil, R$ 20 mil ou R$ 50 mil permitem automaticamente a adoção da medida.

Os próprios processos já divulgados mostram isso.

No caso de Goiás, por exemplo, a dívida chegou a pouco mais de R$ 14 mil. Já no processo envolvendo a empresária, o débito ficou próximo de R$ 20 mil.

Entretanto, os valores representaram apenas parte da análise.

O juiz também pode observar há quanto tempo o processo tramita, se existem bens disponíveis, quais tentativas de cobrança já aconteceram e se há sinais de que o devedor dificulta o pagamento.

Motorista profissional pode contestar a suspensão da CNH

A forma como a pessoa utiliza a CNH também pode fazer diferença.

Motoristas de aplicativo, caminhoneiros, entregadores, taxistas e profissionais que dependem diretamente de veículos para obter renda podem argumentar que a suspensão prejudica sua fonte de sustento.

Nesse cenário, impedir o motorista de trabalhar poderia até reduzir sua capacidade de levantar recursos para quitar a dívida.

Por isso, esse impacto também precisa entrar na análise do magistrado.

A Justiça deve observar os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade antes de impor ou manter uma medida desse tipo.

Dívida não provoca suspensão automática da CNH

Na prática, o motorista não perde a habilitação apenas porque deixou uma conta vencer.

Primeiro, o credor precisa levar a cobrança à Justiça. Depois, normalmente ocorrem tentativas para encontrar dinheiro ou bens capazes de cobrir o débito.

Se essas alternativas falharem, outras medidas podem entrar em discussão.

Ainda assim, o juiz precisa avaliar as circunstâncias do caso, ouvir o devedor e explicar por que a suspensão da CNH poderia contribuir para o cumprimento da decisão judicial.

Portanto, a Justiça pode suspender a CNH por dívidas em determinadas situações, mas não existe suspensão automática para quem está negativado. Cada caso depende do andamento do processo, das tentativas anteriores de cobrança e da análise individual feita pelo magistrado.

Foto de Gabriel Almeida

Gabriel Almeida

Jornalista há 11 anos, Gabriel Almeida é editor-chefe do Portal Tempo Novo. Atua diretamente na produção e curadoria do conteúdo, além de assinar reportagens sobre os principais acontecimentos do Brasil e temas de interesse público nacional.

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