Justiça condena rede de farmácias a pagar R$ 10 milhões por exigir CPF de cliente

A rede de farmácias Raia Drogasil foi condenada pela Justiça a pagar indenização de R$ 10 milhões.
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A Raia Drogasil foi condenada pela Justiça a pagar indenização de R$ 10 milhões. Crédito: Divulgação

A Justiça condenou a rede de farmácias Raia Drogasil a pagar R$ 10 milhões por danos morais coletivos. A decisão ocorreu após o Judiciário entender que a empresa exigia o CPF dos consumidores para liberar descontos e promoções.

A sentença saiu no Maranhão. Além disso, ela reacendeu uma discussão comum no varejo: empresas podem pedir dados pessoais antes de oferecer preços promocionais?

Segundo a decisão, a rede não pode exigir informações pessoais para conceder descontos. Portanto, os mesmos preços promocionais devem ficar disponíveis para todos os clientes. Isso inclui quem não quiser informar o CPF ou participar de programas de cadastro.

Justiça vê pressão sobre o consumidor

O Portal Tempo Novo teve acesso a decisão judicial. O juiz Douglas de Melo Martins, da Vara de Interesses Difusos e Coletivos de São Luís, foi quem assinou a decisão. Ele acolheu uma ação civil pública movida pelo Centro de Promoção da Cidadania e Defesa dos Direitos Humanos Padre Josimo e pelo Instituto de Cidadania, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social do Maranhão (ICDESCA).

Na avaliação da Justiça, o consumidor deve entregar seus dados de forma livre, consciente e bem informada. No entanto, a exigência do CPF para liberar desconto cria uma pressão econômica sobre o cliente.

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Com isso, o consumidor pode se sentir obrigado a fornecer os dados para pagar menos. Essa situação pesa ainda mais quando a compra envolve medicamentos, produtos de saúde e itens de higiene.

Para o juiz, essa prática compromete a validade do consentimento. Afinal, o cliente não escolhe com liberdade quando precisa informar o CPF para ter acesso ao menor preço.

“Determinei que a empresa: cesse a exigência de CPF para descontos; garanta preços promocionais a todos os consumidores; implemente política clara de consentimento em até 60 dias; pague R$ 10 milhões por danos morais coletivos ao Fundo Estadual de Direitos Difusos; e arque com custas e honorários. Fixei ainda multa diária de R$ 100 mil por descumprimento”, disse o juiz.

Descontos não podem depender do CPF

A sentença classificou a conduta como abusiva, coercitiva e desleal. Além disso, o juiz destacou que medicamentos e produtos de saúde não podem servir como ferramenta para forçar a entrega de dados pessoais.

Com a decisão, a Raia Drogasil terá que mudar seus procedimentos de atendimento. A empresa deverá explicar, de forma clara, por que coleta os dados dos consumidores.

A rede também precisará informar por quanto tempo guarda essas informações. Além disso, deverá dizer se compartilha os dados com outras empresas ou terceiros.

Essas explicações precisam aparecer antes da adesão do cliente a programas de fidelidade, cadastros promocionais ou sistemas semelhantes. Dessa forma, o consumidor poderá decidir com mais clareza se deseja participar.

Indenização vai para fundo estadual

A condenação de R$ 10 milhões será destinada ao Fundo Estadual de Proteção dos Direitos Difusos (FEPDD).

Além da indenização, a sentença reforça outro ponto importante. Empresas não podem transformar descontos em uma forma indireta de coleta obrigatória de dados pessoais.

Na prática, a Justiça entendeu que benefícios comerciais não podem depender da entrega do CPF. Por isso, preços promocionais e abatimentos devem alcançar também quem não deseja se cadastrar.

Portanto, a participação em programas de desconto deve ocorrer de forma voluntária. Antes de aceitar o cadastro, o cliente também precisa saber como a empresa usará seus dados.

Decisão pode atingir outras redes

O caso chama atenção porque envolve uma das maiores redes de farmácias do país. Por isso, a decisão pode influenciar outras empresas do varejo.

Nos últimos anos, pedir CPF em troca de descontos virou uma prática comum. Farmácias, supermercados, postos de combustíveis e lojas de vários segmentos adotaram esse modelo.

No entanto, a sentença reforça que o consumidor precisa ter liberdade real de escolha. Ou seja, ele deve decidir se quer ou não compartilhar suas informações pessoais.

A decisão também fortalece o debate sobre proteção de dados no Brasil. Esse tema ganha ainda mais peso no setor farmacêutico, que lida com medicamentos e produtos ligados à saúde.

Embora ainda caibam recursos, a condenação já aparece como uma das decisões mais relevantes sobre direitos do consumidor, proteção de dados e programas de desconto em farmácias.

O que diz a Raia Drogasil?

O Portal Tempo Novo entrou em contato com a Raia Drogasil, mas ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

Foto de Gabriel Almeida

Gabriel Almeida

Jornalista há 11 anos, Gabriel Almeida é editor-chefe do Portal Tempo Novo. Atua diretamente na produção e curadoria do conteúdo, além de assinar reportagens sobre os principais acontecimentos da cidade da Serra e temas de interesse público estadual.

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