Uma fabricante tradicional, que atravessou mais de cinco décadas de atividade e chegou a empregar centenas de trabalhadores, não conseguiu superar uma grave crise financeira. Após meses de dificuldades, a Justiça decretou a falência da companhia e determinou medidas para localizar e proteger seu patrimônio.
Além da dívida milionária, o processo reúne problemas no cumprimento da recuperação judicial, pendências com credores e impostos, questionamentos sobre recursos obtidos com a venda de patrimônio e a interrupção completa da produção. A Justiça também apontou a retirada de máquinas de grande porte e o abandono de uma das unidades industriais.
A empresa é a Indústria de Móveis 3 Irmãos S/A, fundada em 1971 em Campo Alegre, no Planalto Norte de Santa Catarina. O juiz Uziel Nunes de Oliveira, da Vara Regional de Falências, Recuperação Judicial e Extrajudicial de Jaraguá do Sul, decretou a falência no dia 10 de agosto de 2026.
A decisão encerra a tentativa de recuperação judicial da companhia. O processo começou em 2024, e a Justiça concedeu a recuperação judicial em outubro de 2025. Entretanto, menos de um ano depois, o agravamento da situação levou à transformação do processo em falência.
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Dívida da fabricante de móveis chega a R$ 133 milhões
A relação disponível após a decretação da falência aponta uma exposição financeira estimada em aproximadamente R$ 133,9 milhões. Contudo, esse número ainda não representa o valor definitivo, já que a administração judicial precisa analisar créditos, contestações e possíveis atualizações apresentadas pelos credores.
Com a falência, a Justiça determinou a lacração dos estabelecimentos da companhia em Campo Alegre e Caçador. Além disso, a Recupere – Instituto de Recuperação Judicial e Falências continuará responsável pela administração judicial do caso.
Agora, a administradora deverá localizar, arrecadar, inventariar e avaliar máquinas, imóveis, veículos, equipamentos e outros bens pertencentes à indústria. Posteriormente, esse patrimônio poderá seguir para venda com o objetivo de levantar recursos para o pagamento dos credores.
A Justiça também determinou pesquisas e bloqueios de ativos financeiros, imóveis e veículos. Além disso, encaminhou informações ao Ministério Público para análise de possíveis crimes relacionados à falência.
Justiça apontou problemas durante recuperação da empresa
A dívida elevada, sozinha, não explica a decisão judicial. Durante a recuperação, surgiram diferentes problemas que agravaram a situação da fabricante.
Entre eles aparecem obrigações não cumpridas com credores que somavam aproximadamente R$ 210 mil e € 175,5 mil. Além disso, a empresa não comprovou no processo a destinação de aproximadamente R$ 3,25 milhões arrecadados com vendas de ativos que haviam recebido autorização judicial.
Também houve problemas tributários. O Estado de Santa Catarina cancelou três parcelamentos relacionados ao ICMS depois de atrasos em parcelas. Ao mesmo tempo, o processo registrou débitos perante a Receita Federal.
Outro ponto chamou a atenção da Justiça: a situação do patrimônio da empresa. Segundo os registros do processo divulgados pela imprensa catarinense, máquinas de grande porte deixaram a sede sem autorização judicial. Além disso, a produção parou completamente em 14 de maio de 2026 e a unidade de Campo Alegre ficou em estado de abandono.
Fabricante de móveis tentou vender patrimônio antes da falência
Antes do agravamento definitivo da crise, a Três Irmãos tentou levantar dinheiro com parte do próprio patrimônio.
Em abril de 2026, a fabricante promoveu um leilão que reuniu imóveis rurais e equipamentos industriais. Os bens ofertados tinham avaliação conjunta próxima de R$ 7 milhões. A operação fazia parte das tentativas de reorganizar as finanças durante a recuperação judicial.
Ainda assim, as medidas não conseguiram restabelecer a operação.
Fabricante chegou a empregar cerca de 500 trabalhadores
A falência encerra uma trajetória iniciada em 1971. A Três Irmãos nasceu como uma pequena marcenaria familiar em Campo Alegre e, posteriormente, avançou para a fabricação de móveis de madeira maciça, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Com o crescimento, a companhia ganhou espaço também fora do Brasil. Em 2009, realizou sua primeira exportação para a IKEA, multinacional sueca do setor de móveis. Depois, em 2016, adquiriu uma unidade industrial em Caçador.
A expansão continuou e, em 2020, a empresa inaugurou um parque industrial com mais de 16 mil metros quadrados em São Bento do Sul. No auge, a fabricante chegou a manter aproximadamente 500 empregos diretos. Essa unidade, porém, encerrou as atividades em 2023.
Segundo informações apresentadas durante a recuperação judicial, a crise ganhou força a partir de 2021. Problemas na logística internacional, falta de contêineres, alta do frete marítimo, aumento dos custos de matérias-primas, juros elevados e queda das exportações pressionaram as contas da empresa.
Agora, com a falência decretada, o processo entra em uma nova fase. A administração judicial deverá organizar o patrimônio, verificar os créditos e preparar a venda dos ativos para tentar pagar os credores conforme as regras previstas na legislação falimentar.
