A Polícia Civil afirma que dezenas de pessoas em situação de rua sofreram tortura praticada pela equipe de rondas de uma empresa de vigilância privada na Grande Vitória (entenda o caso clicando aqui). O número apareceu nesta quinta-feira (13), durante coletiva na Chefatura, em Vitória, e supera em muito o que consta no processo em curso na Serra.
Até agora, a investigação formalizou três casos de tortura. Em um deles, a vítima também morreu. Trata-se de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, o “Bracinho”, sequestrado na Praia do Suá e morto em uma plantação de eucalipto na Serra, em março. Nove homens já viraram réus por causa do crime. Desses, oito estão presos e um segue foragido.
O restante das vítimas apareceu nas conversas extraídas dos celulares apreendidos, porém ainda não recebeu identificação. Agora, esse é o foco da apuração.
Por que as vítimas não aparecem
Segundo a polícia, essas pessoas raramente procuram a delegacia. Muitas estão aterrorizadas. Outras sequer sabem quem as agrediu, porque não conseguem distinguir se quem bateu era policial ou vigilante.
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Por isso, a Polícia Civil fez um apelo público direto. Vítimas, familiares e qualquer pessoa que tenha informação, ainda que indireta, sobre agressões praticadas pelo grupo devem ligar para o 181. A denúncia é anônima e chega direto à delegacia responsável.
Além disso, a corporação levantou uma hipótese ainda sem confirmação. Entre as pessoas desaparecidas na região, pode haver vítimas que o grupo matou e que ainda não foram localizadas. O cruzamento dessas informações, no entanto, depende de novas denúncias.
Com os réus presos, a avaliação da polícia é que as vítimas passem a se sentir mais seguras para falar.
“Eles praticavam um verdadeiro tribunal”
A empresa onde os réus trabalhavam atua com portaria virtual e videomonitoramento, atendendo condomínios e lojistas em área nobre de Vitória. O rondista tinha uma função definida: verificar a frente dos prédios, desarmar alarmes e acionar a polícia em caso de furto ou invasão.
Na prática, porém, a equipe fazia outra coisa, segundo a investigação. O titular da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), delegado Tarcísio Otoni, responsável pelo caso, descreveu assim durante a coletiva:
“Eles atuavam inclusive além das funções que a própria polícia pode atuar. Eles praticavam um verdadeiro tribunal. Identificavam, aplicavam a pena e muitas vezes pena de morte.”
De acordo com a apuração, a polícia identificou vínculo estável entre os integrantes há pelo menos dois anos. O procedimento seguia sempre o mesmo padrão: identificar quem incomodava os condomínios monitorados, capturar, agredir e remover a pessoa para outro local.
O que muda na leitura do caso
Durante a coletiva, o delegado corrigiu um ponto que vinha sendo repetido sobre o caso. A vítima não morreu em decorrência da tortura, como se supunha. Na verdade, a decisão de matar já estava tomada antes, segundo ele.
Ainda de acordo com a apuração, tudo aconteceu na manhã de 16 de março, poucas horas depois de os rondistas verem nas imagens que “Bracinho” havia entrado na sede da empresa, na Praia do Suá. Naquele mesmo momento, pelo grupo de WhatsApp, os réus decidiram sequestrá-lo, combinaram para onde o levariam e definiram que o matariam.
“Ele foi torturado, mas o homicídio já estava combinado. A gente já tem a comprovação que o homicídio já é o desejo desse grupo criminoso”, afirmou o delegado.
Além disso, a polícia explicou por que um dos nove réus não responde por organização criminosa. Oito deles integram a equipe de rondas e mantinham vínculo estável. O nono, por outro lado, trabalha no setor de monitoramento e participou pontualmente daquela ação, sem o vínculo permanente que a lei exige. Por isso, ele responde apenas por homicídio qualificado e ocultação de cadáver.
Alerta a síndicos e condomínios
A parte mais direta da coletiva, contudo, não tratou dos réus. O alerta principal se dirigiu a quem contrata esse tipo de serviço.
“Não existe nenhuma empresa de segurança legitimada a fazer a retirada de pessoas em situação de rua, independente da situação”, afirmou o delegado-geral. “Não é função de rondista, não é função de empresa de vigilância encostar ou fazer qualquer tipo de atitude em relação a ninguém.”
Segundo ele, existem órgãos próprios para lidar com a situação, como a assistência social, a polícia e o Estado. Portanto, quem terceiriza essa tarefa pode ter responsabilidade penal.
A investigação continua nessa linha. A polícia afirmou que síndicos, condomínios e empresários podem responder criminalmente por homicídio e tortura, caso fique comprovado que contrataram o serviço sabendo da conduta da equipe. Para ilustrar, a comparação feita na coletiva se deu com o crime de receptação.
“Tem esse tipo de indivíduo porque tem quem pague. Os caras não estão fazendo aquilo ali de graça.”
O Tempo Novo segue acompanhando o caso e está à disposição da defesa dos envolvidos caso queira se pronunciar.
