A Justiça decretou a prisão preventiva do empresário Élcio Edimar Thomazini. Ele é dono da imobiliária Caravaggio Imóveis. É suspeito de destruir vegetação nativa da Mata Atlântica em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo. O pedido partiu da Promotoria de Justiça de Santa Teresa em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco Central), do Ministério Público do Espírito Santo (MPES).
A decisão saiu na última quarta-feira (9) e atinge diretamente quem mora na Serra. Isso porque a área devastada fica na cabeceira do rio Reis Magos, que abastece cerca de 150 mil moradores da Serra Sede, entorno e Civit I.
Segundo a denúncia do MPES, Thomazini destruiu três áreas de Mata Atlântica sem autorização. O crime ocorreu no dia 2 de dezembro de 2025, em vegetação num estágio médio de regeneração. Juntas, as áreas somam 1.847 metros quadrados. Além disso, as intervenções aconteceram dentro de uma Zona de Preservação Ambiental e, em parte, numa Reserva Legal, na zona rural do município.
O empresário também é acusado de descumprir um embargo ambiental. O Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf) aplicou a medida em junho de 2021. De acordo com o MPES, ele plantou grama em 207 metros quadrados da área embargada. Também fez limpezas periódicas, o que impediu a recuperação natural da vegetação. Uma fiscalização do Idaf, determinada pelo próprio Ministério Público, flagrou as irregularidades.
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Histórico de crimes ambientais em Santa Teresa
Ao pedir a prisão preventiva, o MPES citou 15 ações penais por crimes ambientais que envolvem o empresário. Os processos abrangem diferentes pontos de Santa Teresa, entre eles Caravaggio, Tabocas/Alto Caldeirão, Alto Santo Antônio, Valão de São Pedro e Valão de São Lourenço. O MPES também citou outras investigações e ações civis públicas ligadas a possíveis danos ambientais. Em um dos processos, a Justiça já condenou Thomazini a quatro anos e sete meses de prisão. Porém, o caso ainda está em fase de recurso.
Para a promotora de Justiça de Santa Teresa, Vera Lúcia Murta Miranda, a decisão representa “uma resposta importante diante de intervenções em áreas protegidas e do descumprimento de medidas adotadas para impedir novos danos”. Segundo ela, a atuação do MPES busca garantir que embargos e acordos ambientais sejam efetivamente respeitados.
Além da prisão, a Justiça proibiu o empresário de fazer obras, desmatamento, movimentação de terra, jardinagem ou qualquer exploração econômica na área embargada. Quem descumprir a decisão paga multa de R$ 100 mil.
Devastação em Santa Teresa ameaça a água da Serra
O circuito Caravaggio, onde Thomazini atua há anos, concentra as nascentes que formam o rio Reis Magos. Ali, o riacho que desce da região se junta ao Timbuí e ao Fundão até formar o Reis Magos. Desde o fim de 2017, a Cesan capta essa água em Putiri, na Serra. Antes de chegar ao mar, em Nova Almeida, o rio ainda atravessa boa parte do território serrano.
Desde 2022 o Tempo Novo acompanha a devastação na região. Reportagens do jornal mostraram cortes nos morros, solo exposto e nascentes reviradas. O avanço do parcelamento de terrenos rurais em sítios, chácaras e lotes provocou esses danos. Imobiliárias ligadas ao empresário venderam muitos desses lotes. Além disso, imagens aéreas produzidas em parceria com o portal O Convergente confirmaram a extensão da destruição.
O próprio MPES reconhece o problema. O promotor de Justiça Luciano da Costa Barreto, que também atua em Santa Teresa, afirmou que “o desenvolvimento de Santa Teresa precisa ocorrer de forma planejada, com respeito à legislação ambiental e às regras de uso do solo”. Para ele, a ocupação desordenada prejudica o meio ambiente e pode sobrecarregar a infraestrutura e os serviços públicos, entre eles o abastecimento que chega até a Serra.
Jornalista relata intimidação do mesmo empresário em 2022
O caso reabre uma ferida antiga. Em junho de 2022, durante um evento público do governo do Estado em Santa Teresa, o próprio Thomazini hostilizou o jornalista Bruno Lyra, que tem uma longa trajetória de trabalho no Jornal Tempo Novo, tendo inclusive atuado como chefe de redação. Bruno tinha produzido conteúdo sobre a devastação do Caravaggio em parceria com o Tempo Novo.
Segundo relato do jornalista ao Século Diário, o empresário tirou o celular da mão dele e tentou encerrar a gravação. Isso aconteceu quando Bruno perguntou sobre a relação entre o crescimento dos loteamentos rurais e a preservação ambiental. Na mesma ocasião, outro empresário do setor imobiliário do município também hostilizou a ambientalista Carmem Barcellos.
Ainda conforme a decisão judicial, Thomazini segue tendo direito à defesa e ao contraditório enquanto o processo tramita. A defesa do empresário não foi encontrada, o espaço segue aberto.