O tubo de sangue coletado no posto vai deixar a estrada e seguir pelo céu até o laboratório. A Unimed apresentou um drone para transporte de exames que deve entrar em operação em até 90 dias, e a novidade traz para perto uma pergunta que já ronda as entregas no país: a máquina vai ocupar o lugar de quem faz esse caminho de moto ou de carro?
Por trás do projeto está a Unimed Serra Gaúcha, que apresentou o equipamento durante a Mercopar, feira realizada de 20 a 23 de outubro em Caxias do Sul. Segundo a cooperativa, é o primeiro drone do Rio Grande do Sul destinado ao transporte de amostras de exames laboratoriais.
Como funciona o drone para transporte de exames
O voo vai ligar o posto de coleta do Pronto-Atendimento de Farroupilha à área técnica do Complexo Hospitalar Unimed, em Caxias, numa rota programada de 17,4 quilômetros. O equipamento escolhido é o DLV-2 A25, da Speedbird Aero, totalmente elétrico.
Nem todo material vai subir. Só entram na carga amostras de baixo risco, usadas em exames de rotina e em análises de vírus, bactérias e fungos. Além disso, o acondicionamento segue as regras de segurança para esse tipo de transporte.
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Na estrada, 30 minutos; no ar, 24
Pela rodovia, o trajeto leva cerca de 30 minutos. De drone, a previsão é de 24. Seis minutos parecem pouco, e por isso o argumento da cooperativa vai além do relógio. Na estrada, a amostra fica sujeita a congestionamento, desvio e outros imprevistos; no ar, a rota programada tende a manter o mesmo tempo todos os dias. Para um laboratório que processa cerca de 240 mil exames de sangue por mês, essa regularidade pesa tanto quanto a velocidade.
O drone também não chega sozinho. Na mesma feira, a Unimed mostrou os robôs Sofia, que já circulam pelos corredores do hospital em Caxias levando medicamentos entre setores. Equipados com sensores, eles desviam de obstáculos, chamam o elevador e avisam a equipe quando chegam ao destino.
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E o motoboy, perde o lugar?
Por enquanto, não. Segundo a Unimed, equipes treinadas continuam responsáveis pela coleta e pela entrega das amostras nas etapas em terra. Ao drone cabe apenas o trecho entre a decolagem e o pouso. A cooperativa, no entanto, não detalhou quem faz hoje o transporte pela estrada nem se haverá mudança no quadro de pessoal.
O desenho lembra o que o iFood já faz com a mesma Speedbird. Nesse modelo, a máquina assume o trecho mais complicado e improdutivo, enquanto o entregador se concentra nas rotas urbanas, mais densas e rentáveis. Ou seja, o drone não aposenta o motoboy de uma vez, mas pode mudar o tipo de corrida que sobra para ele.
Quem está por trás do drone
A Speedbird Aero nasceu em 2018, em Franca, no interior de São Paulo, e já soma mais de 43 mil entregas comerciais desde 2020. Além da comida do iFood, a empresa transporta exames para os laboratórios Fleury e Pardini e mantém voos comerciais diários no Reino Unido, na Bélgica, em Portugal e nos Estados Unidos. Em março, a Anac autorizou o DLV-2 A25, o mesmo modelo da rota gaúcha, a operar em áreas com até 5 mil habitantes por quilômetro quadrado.
O que ainda não se sabe
A Unimed não informou a data do primeiro voo regular nem o valor investido. Também não disse se a rota de Farroupilha já tem a autorização específica da Anac e do Decea, exigida para entregas feitas além da linha de visão do operador. Falta ainda saber o que acontece em dias de mau tempo.
Mesmo assim, a cena de um tubo de sangue cruzando o céu entre duas cidades deixou de ser coisa de filme. A pergunta que fica é menos sobre a máquina e mais sobre as pessoas: quem vai monitorar esses voos, quem recebe a carga em terra e quanto tempo falta para essa conta chegar ao trabalho de quem vive da estrada.