Uma empresa de tecnologia avisou aos funcionários que eles vão passar por uma nova entrevista de emprego, mesmo já estando contratados, e que o tema central será o uso de IA no trabalho. Segundo o e-mail interno enviado à equipe, o resultado das conversas vai alimentar uma revisão que pode mudar funções, responsabilidades e até a permanência de cada um na empresa.
A empresa é a Proton, da Suíça, dona do Proton Mail e de outros serviços focados em privacidade. O e-mail saiu na segunda-feira (26) e acabou vazando para o site americano 404 Media.
Como vão funcionar as entrevistas sobre IA no trabalho
As conversas acontecem de 4 a 11 de novembro. Quem conduz não é o chefe direto: os entrevistadores vêm de fora da equipe e da linha de comando do funcionário, escolhidos entre líderes que mostram forte domínio de IA. Cada pessoa precisa chegar com exemplos concretos de como usa a tecnologia.
Nem todo mundo será chamado. O CEO Andy Yen começou o processo entrevistando mais de 40 líderes das áreas de engenharia e produto, e agora a avaliação se estende ao resto da companhia. Segundo o e-mail, a empresa quer ver melhorias concretas no trabalho e decisões bem pensadas sobre quando usar a IA, e também quando não usar. Além disso, o próprio comunicado avisa que as entrevistas terão consequências.
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Proton nega usar IA como desculpa para demitir
Depois do vazamento, a Proton respondeu publicamente no Reddit. A empresa afirmou que não está fazendo demissões nem usando a IA como desculpa, que enfrenta falta de profissionais, contrata em todas as áreas e quer identificar quem precisa de apoio extra. Ainda segundo a Proton, as entrevistas servem também para descobrir quem pode ajudar a liderar os projetos internos de IA.
O tom do e-mail interno, porém, é mais duro que o da nota pública. A mensagem avisa que qualquer decisão sobre o emprego de cada funcionário será comunicada separadamente. Até agora, não há confirmação de que alguém tenha sido demitido por causa das avaliações.
Uma empresa de privacidade que desconfiava da IA
A virada chama atenção pela origem. A Proton tem um chatbot próprio, o Lumo, mas Yen disse à revista Wired, em agosto, que vê a IA como uma forma de vigilância e que a empresa entrou nesse mercado a contragosto, quando ficou claro que a tecnologia não ia embora. Pelos dados mais recentes, de 2024, a companhia tinha cerca de 500 funcionários.
IA no trabalho já pesa nas vagas do Brasil
A Proton não está sozinha. Na mesma semana, a Microsoft ofereceu pacotes de saída voluntária a cerca de 60 mil funcionários, 27% da força de trabalho global, enquanto amplia os investimentos em IA. A empresa, no entanto, não afirmou que a tecnologia vai ocupar essas vagas.
No Brasil, a cobrança aparece nos anúncios de emprego. Segundo o Barômetro de Empregos de IA 2026, da PwC, quase 119 mil vagas ligadas à IA surgiram no país em um ano, e o número de anúncios que pedem essas competências quase triplicou. A fatia de vagas que exigem habilidades em IA passou de 1,1% para 3,6%. Para quem não é da área de tecnologia, o dado mais relevante é outro: 92% dessas vagas pedem gente que saiba usar a ferramenta, e não quem a desenvolve.
O caso da Proton leva essa exigência para dentro de quem já está contratado. Por enquanto, trata-se de uma empresa de cerca de 500 pessoas na Suíça. Ainda assim, a pergunta que ela fez à própria equipe pode chegar a outros escritórios em breve: o que você já faz com IA, e o que faria melhor com ela?