A pressão alta raramente avisa antes de virar emergência. Agora, uma pesquisa mostrou que três aparelhos juntos conseguiram enxergar esse aviso: um medidor de pressão portátil, um dispositivo de pulso e um programa de inteligência artificial. A combinação identificou, com até três dias de antecedência, quem estava a caminho de uma crise de pressão alta. O estudo é preliminar e saiu nesta segunda-feira (2).
Os pesquisadores vão apresentar os resultados no congresso científico da Associação Americana do Coração (AHA), entre 6 e 9 de novembro, em Chicago, nos Estados Unidos. A pesquisa acompanhou 4.190 adultos de 40 a 85 anos com hipertensão estágio 2. Todos se tratavam em um hospital da província de Sindh, no Paquistão, e participaram entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.
Como a IA identificou o risco de crise de pressão alta
Durante o estudo, os voluntários usaram um medidor de pressão com braçadeira, que fazia leituras de dia e de noite, inclusive durante o sono. Ao mesmo tempo, um aparelho de pulso com sensores de luz registrava os batimentos e a variação entre eles.
Em seguida, a inteligência artificial cruzou 47 características desses dados, como a queda da pressão no sono, a subida ao acordar e as oscilações ao longo dos dias. Quando o sistema apontava risco, o médico recebia um alerta, procurava o paciente, revisava os sintomas e, se preciso, ajustava o remédio.
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A crise hipertensiva acontece quando a pressão passa de 18 por 12 e vem acompanhada de danos aos órgãos. Nessa situação, o paciente corre risco de AVC, infarto, lesão nos rins, rompimento da aorta ou acúmulo de líquido nos pulmões.
O sinal que aparece durante o sono
Ao longo de 12 meses, 312 participantes tiveram 418 crises, o que representa cerca de 7% do grupo. Entre quem recebeu alerta, 32% de fato enfrentaram uma crise. Por outro lado, 97,4% dos que não receberam aviso passaram o período sem nenhum episódio.
O dado que mais chama atenção vem da madrugada. Pacientes cuja pressão não baixava durante o sono, como deveria acontecer, tiveram quase cinco vezes mais chance de ter uma crise de pressão alta nos dias seguintes. Já quem acordava com a pressão mais de 35 mmHg acima do nível da noite teve quase quatro vezes mais chance.
Além disso, o alerta fez diferença quando chegou a tempo. Nos casos em que o médico ajustou a medicação em até 24 horas, as crises caíram cerca de 61% e as idas ao pronto-socorro, 45%.
Pressão alta atinge quase 3 em cada 10 adultos no Brasil
O assunto mexe com milhões de famílias brasileiras. Segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde, o diagnóstico médico de hipertensão entre adultos subiu de 22,6% em 2006 para 29,7% em 2024.
No país, a tecnologia de pulso também começou a entrar nesse cuidado. Em janeiro, a Anvisa liberou o alerta de hipertensão do Apple Watch, que analisa sinais por 30 dias e orienta o usuário a procurar um médico. Esse recurso, porém, foi pensado para indicar possível pressão alta em quem ainda não tem diagnóstico, e não para prever crises.
O relógio sozinho não faz isso
Apesar do resultado animador, a pesquisa tem limites claros. Trata-se de um estudo preliminar, apresentado em congresso e ainda sem publicação completa em revista científica. Como todos os voluntários eram do Paquistão e passaram pelo mesmo hospital, os próprios autores afirmam que o método precisa ser testado em outros grupos antes do uso amplo.
Também pesa o fato de que o alerta dependia do medidor de braço, e não apenas do relógio. A própria AHA recomenda aparelhos automáticos de braço e não indica os de pulso ou de dedo para medir a pressão, porque as leituras são menos confiáveis.
Para o autor principal, o médico Waleed Razzaq Chaudhry, uma única medição registra só um instante, enquanto o acompanhamento contínuo revela o padrão que antecede o problema. Ainda assim, a especialista em hipertensão Maria Delgado-Lelievre, da Universidade de Miami, reforça que esse tipo de tecnologia deve somar ao trabalho do médico, e não substituí-lo.