Toda vez que um caso de violência infantil ocupa as manchetes, a sociedade se pergunta como aquilo foi possível. A pergunta, porém, talvez devesse ser outra: quantas pessoas perceberam que havia algo errado com aquela criança antes da tragédia acontecer?
Uma criança dificilmente consegue pedir socorro com palavras. Ela fala através do medo, das mudanças de comportamento, das lesões inexplicadas, do silêncio, da tristeza, da ansiedade, da regressão, do olhar que evita encontrar outro olhar. Crianças contam histórias de muitas maneiras. O problema é que nem sempre estamos preparados para escutá-las.
Proteger uma criança nunca foi responsabilidade de uma única pessoa. É uma missão compartilhada entre família, escola, profissionais da saúde, vizinhos, Conselho Tutelar, Ministério Público, Poder Judiciário e toda a sociedade. Quando um desses elos falha, os demais precisam se fortalecer. Quando todos falham, quem paga o preço é sempre a criança.
Vivemos um tempo em que disputas familiares chegam cada vez mais aos tribunais. Em muitos desses processos surge a discussão sobre alienação parental. Sim, ela pode existir e merece ser identificada quando comprovada. Mas nenhuma hipótese pode se sobrepor ao dever de investigar, com profundidade e responsabilidade, qualquer indício de violência contra uma criança.
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A proteção da infância não pode ser confundida com a defesa incondicional de um adulto. Quando existe suspeita de abuso físico, psicológico ou sexual, a prioridade não deve ser descobrir quem vencerá a disputa entre os pais. A prioridade deve ser preservar a vida, a integridade e a segurança da criança.
Infelizmente, ainda existem pessoas que deixam de denunciar porque têm medo de se envolver. Profissionais receiam processos. Familiares evitam conflitos. Vizinhos acreditam que “não é problema deles”. Mas a omissão também produz consequências.
A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente não deixam dúvidas: crianças e adolescentes têm prioridade absoluta. Isso significa que toda decisão precisa colocar sua proteção acima de qualquer outro interesse.
Nenhuma sentença consegue devolver uma infância interrompida. Nenhuma condenação devolve os abraços que deixaram de acontecer. Nenhum pedido de desculpas faz uma criança voltar à vida.
Talvez a maior pergunta que cada um de nós deva responder não seja “quem foi o culpado?”, mas “o que eu faria se percebesse que uma criança está em perigo?”.
Porque proteger uma criança nunca será exagero. Será sempre um compromisso ético, humano e coletivo
