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475 anos de Vitória: uma capital para poucos capixaba$

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Vista aérea de Vitória (ES) com Convento da Penha, ponte e prédios da capital capixaba
Vitória vista do alto: 475 anos de história entre o Convento da Penha e o skyline da capital.
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Vitória tem o metro quadrado mais caro do Brasil. Não o mais caro entre as capitais: o mais caro do país. O dado circulou como novidade. Não é. É apenas a versão contábil de algo que o Espírito Santo sabe há gerações: a capital nunca foi feita para a maioria dos capixabas.

O estado crescer acima da média nacional só acendeu o holofote sobre o que já existia. Preço de imóvel aqui é consequência. A causa tem 475 anos, e é uma história de exclusão.

Começa no nome. A Vila Nova da Vitória nasce no século XVI para celebrar uma vitória militar sobre os povos indígenas que ocupavam aquele território. A capital do Espírito Santo se batizou com a expulsão dos primeiros excluídos da sua própria história.

O padrão se repetiu na economia. Vitória foi, por séculos, a cidade que mais faturou com o café sem ter um pé plantado em seu território. O porto concentrava na Ilha o dinheiro que o interior produzia. A lógica de capturar riqueza gerada fora dos próprios limites virou um método para gerir a economia capixaba.

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Trazendo o texto para mais próximos dos dias de hoje, a Vitória da atualidade é resultado direto do Novo Arrabalde, o redesenho urbano idealizado por Saturnino de Brito. O projeto ganhou escala no bojo dos grandes projetos industriais capixabas, e aí a divisão de papéis ficou explícita: à capital, os empreendimentos imobiliários de alta renda; à Serra, os conjuntos populares. Um município recebeu investimento. O outro recebeu gente de mala e cuia, tornando-se território de confinamento e estoque de mão de obra barata.

E não foram só os pobres. A Serra virou o destino de tudo aquilo com que a capital não queria lidar. Quando Vitória decidiu desmontar o polo de meretrício do centro, no idos dos anos 1960, o endereço seguinte foi Novo Horizonte. Quando o distrito de São José do Queimado deixou de ser ativo territorial e virou passivo, foi transferido para a Serra. Quando a Vale ergueu o Porto de Tubarão, as divisas municipais foram redesenhadas em favor da capital… e tantos outros exemplos que poderiam ser dados.

Vitória é uma cidade de famílias antigas. Para se ter ideia do grau de fechamento, ali existem as ilhas da Ilha: Frade e Boi.

A história da capital é bonita para quem foi favorecido por ela. Para o resto do Espírito Santo, foi peso a carregar. Hoje esse peso tem preço, e ele se mede em metro quadrado. Vitória completa 475 anos exatamente como começou: uma capital para pouquíssimos capixaba$.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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