Mestre Álvaro
Yuri Scardini é autor do livro 'Serra: a história de uma cidade' e escreve sobre política e economia

Vitória não tem para onde crescer e depende da Serra para isso, diz Vidigal – e tem mais…

Vidigal Vitória

No último sábado (20), a obra do binário da Avenida Norte Sul foi inaugurada pelo prefeito Sergio Vidigal e pelo governador Renato Casagrande. As intervenções representaram um investimento de R$ 100 milhões, abrangendo desde a adequação da avenida principal até a urbanização de toda a região vizinha. Durante o evento, o prefeito apresentou os novos projetos de investimento em infraestrutura rodoviária para a Norte Sul, que é indiscutivelmente uma das avenidas mais importantes do Espírito Santo, já que interliga as duas maiores economias do estado.

Para a coluna Mestre Álvaro, Vidigal também comentou sobre o desenvolvimento metropolitano. Segundo ele, “Vitória não tem para onde crescer” e, nesse sentido, precisa cada vez mais se conectar com a Serra para que o dinamismo econômico de uma impulsione a outra. Nesse aspecto, Vidigal parece estar correto. De fato, até o início do século XX, Vitória era um local pequeno e pouco adensado, com a centralidade econômica concentrada no Centro da capital, impulsionada pela atividade portuária.

Porém, desde o projeto do Novo Arrabalde de Vitória, proposto em 1896 pelo engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, a capital expandiu sua ocupação territorial para áreas até então pouco exploradas, especialmente em direção ao litoral. Desde então, a capital passou por muitas transformações em seu território, até que, em 1963, toda a faixa continental de Vitória foi desanexada da Serra e incorporada à capital, dividindo o distrito de Carapina, que naquela época se estendia até o canal de Camburi.

Essa nova área tirada da Serra, foi objeto de intensa atividade imobiliária, impulsionada pelo processo de implantação da Vale na Ponta de Tubarão, entre outros projetos como a CST, UFES e o Aeroporto de Vitória. Com um IDH muito alto, Vitória foi rapidamente ocupada ao longo do século XX, e aquela pequena cidade, cujo Centro era o principal ambiente urbano, passou a experimentar maior complexidade social, apoiada nas políticas de apropriação fiscal e no poder político e econômico das elites capixabas.

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Além dos exemplos explícitos em relação à Serra, como as disputas pela arrecadação agrícola do distrito de São José do Queimado, quando este era relevante, ou a anexação de parte de Carapina para receber os impostos do Complexo de Tubarão (como já mencionado), existem muitos outros exemplos que não deixam dúvidas sobre a vocação da capital em se beneficiar como centro financeiro em detrimento dos demais municípios. No passado recente, por exemplo, a capital era a que mais arrecadava com o café, sem sequer ter um pé de café plantado em seu território.

No decorrer desse processo, a Serra emergiu como a capital industrial e, posteriormente, como a capital logística do Espírito Santo; é um caso raríssimo no Brasil de uma cidade que é maior em economia e população do que sua respectiva capital estadual, e já começa a demonstrar uma certa inversão de papéis, como o movimento observado recentemente de centenas de moradores da capital que vêm à Serra em busca de atendimento de saúde público, um fluxo que historicamente sempre ocorreu na direção inversa.

Neste contexto mais amplo, Vidigal parece estar correto ao apostar na interligação com a capital, seja nas obras da Norte Sul, na municipalização da BR-101, que se tornará a futura Avenida Mestre Álvaro, ou no projeto da terceira estrada ligando as duas cidades via litoral, passando pelas áreas da Vale, que está incluído no pedido de crédito intencional ao banco dos BRICS.

Essas três soluções viárias, se construídas e ampliadas, podem sem dúvida incentivar uma migração de parte do crescimento que a capital não consegue mais absorver. Ainda existe intensa atividade imobiliária em Vitória, por exemplo, mas trata-se de projetos de altíssimo padrão, que são muitos em quantidade, mas limitados em unidades residenciais. O próprio Censo Demográfico do IBGE de 2022 revela isso, pois em um intervalo de 12 anos, a capital cresceu em apenas 3 mil habitantes, enquanto a Serra cresceu mais de 100 mil.

Existe também o projeto Nazca, que prevê a criação de um novo bairro em Vitória, próximo ao Centro, pela Serafim Derenzi. É um projeto expressivo, mas que não representa uma mudança radical nos eixos e padrões de crescimento, considerando que a capital possui enorme limitação geográfica nas margens sul e oeste, que fazem divisa com Vila Velha pela bacia de Vitória e com Cariacica pelo estuário do Lameirão. A única ligação continental da capital é com a Serra, através das áreas anexadas em 1963; por onde a limitação geográfica é muito menor, já que não é preciso cruzar o mar ou o mangue, apenas o pequeno canal de Camburi.

Vidigal aposta que esses três projetos de infraestrutura rodoviária interligarão a Serra e Vitória pelos próximos 30 anos, possibilitando que parte do crescimento dos negócios, serviços, comércio e imobiliário seja desviada para a Serra. Isso poderia potencialmente alterar o perfil populacional para um status menos desafiador ao poder público, com crescimento orçamentário sem necessariamente ser acompanhado pela intensa demanda social. Estima-se, por exemplo, que 80% da população da Serra dependa do SUS para acessar serviços de saúde, um dado que adiciona complexidades à governança da Serra. Além disso, há quase 80 mil alunos na rede municipal que necessitam do arranjo educacional da Serra, que envolve também a segurança alimentar.

O mundo vive um período de economia verde e desterritorialização digital, mas no contexto da Serra, as estradas continuam sendo os vetores de crescimento mais perenes. O Binário da Norte Sul é uma obra absolutamente estruturante, que incluirá mais duas fases: a construção de um mergulhão no encontro da Avenida José Rato no Bairro de Fátima com a Norte Sul, eliminando o semáforo e criando uma pista livre; a transferência do Terminal de Carapina das margens da Norte Sul para Carapina; e, por fim, a duplicação do trecho da Norte Sul de Limoeiro até Laranjeiras. Ao fim dessas etapas, a Norte Sul se transformará em um amplo corredor econômico e de mobilidade urbana, muito mais expansivo do que sua concepção original ainda nos anos 1980.

A municipalização da BR-101, transformando-a na Avenida Mestre Álvaro, permitirá que a Serra supere o descaso histórico com que o Governo Federal tratou esse importante eixo viário, não só eliminando a burocracia engessada para investimentos, mas também alocando recursos para torná-la mais eficaz, com passagens de nível entre bairros opostos e maior flexibilidade para uso e ocupação do solo. Seria ainda melhor se o cone de aproximação do aeroporto fosse rediscutido, para tornar o sul de Carapina uma área mais atrativa e economicamente competitiva.

Por fim, a terceira ligação de Serra a Vitória, um projeto frequentemente discutido nesta coluna, pode transformar a região de Carapebus/Bicanga na ‘nova Itaparica’ do Espírito Santo, que é o atual centro de atividade imobiliária. Pode ocorrer um fenômeno similar ao observado no litoral de Vila Velha após a construção da Terceira Ponte, que promoveu intenso desenvolvimento socioeconômico nas áreas da Praia da Costa e de Itapuã.

Esses três projetos podem ainda ser somados ao Contorno de Jacaraípe, já em execução, e ao futuro Contorno de Santa Cruz, que interligará a Serra com um dos maiores complexos portuários em implantação do país, localizado na cidade de Aracruz.

Na prática, a integração urbana da Serra e Vitória é a chance que as duas cidades têm de se fundir cada vez mais economicamente, preservando suas particularidades e culturas. O que precisa avançar nos próximos anos, além, evidentemente, dos projetos de infraestrutura rodoviária, é a compreensão de que, juntamente com eles, as políticas de integração metropolitana precisam ser ampliadas. Há um fosso nesse sentido, já que ambas as cidades continuam a pensar e a fazer política pública como se estivessem separadas por uma muralha institucional. A concepção da Grande Vitória avançou desde sua implantação em 1996, mas parece não acompanhar o ritmo de integração das dinâmicas populacionais que já ocorrem há anos e só aumentam.

Um exemplo simples: se a Serra atende milhares de moradores de Vitória em suas três UPAs, como pode ser sustentável para o orçamento público, caso essa tendência continue crescendo? O SUS é universal, mas o orçamento municipal não é. Os moradores de Vitória que são atendidos na Serra frequentemente retiram medicamentos em farmácias públicas, adquiridos com recursos da Prefeitura da Serra. Este é apenas um pequeno exemplo.

De qualquer forma, esse é um tema mais amplo; no que tange ao projeto vidigalista de desenvolvimento da Serra para os próximos 30 anos: a maior conexão entre as duas cidades pode ser um dos caminhos para avançar com a experiência de ocupação urbana e desenvolvimento socioeconômico da Serra após o fim do período agrícola e o início da fase industrial (década de 60) que, posteriormente, avançou também fortemente para a atividade logística (primeira década dos anos 2000).

Conectar Serra e Vitória poderá potencialmente expandir o setor de construção civil, considerando que no território já consolidado da Serra (basicamente a metade leste), 35% ainda são áreas ociosas; além disso, fomentará o comércio, os serviços diversos e o turismo intermunicipal, o que, na prática, significaria o espalhamento da elite e da classe média alta capixaba para além de Vitória e das faixas costeiras de Vila Velha.

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