Uma das maiores montadoras do mundo prepara uma nova etapa de uma reestruturação que pode mudar profundamente sua estrutura industrial. O plano coloca milhares de empregos em risco, ameaça grandes fábricas e também acompanha uma redução no número de veículos mantidos no portfólio.
A pressão por novos cortes cresceu nos últimos meses. Agora, a direção discute uma redução que pode alcançar aproximadamente 50 mil postos de trabalho adicionais. Além disso, quatro grandes complexos industriais aparecem em uma proposta de encerramento gradual da produção ao longo da próxima década.
A empresa por trás desse movimento é a Volkswagen. No Brasil, a marca segue entre as líderes absolutas do mercado. Em agosto de 2026, ficou na segunda colocação entre as montadoras, com 41.403 veículos emplacados, atrás apenas da Fiat.
Entretanto, o cenário enfrentado pelo grupo em sua principal base industrial europeia é bem diferente. Custos elevados, fábricas com capacidade ociosa, perda de rentabilidade e a rápida expansão das fabricantes chinesas fizeram a companhia acelerar a busca por economia.
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Volkswagen estuda mais 50 mil demissões
O presidente-executivo do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, passou a defender uma redução de custos muito mais profunda.
A companhia já possui programas de reestruturação que, somados entre diferentes empresas do grupo, envolvem aproximadamente 50 mil reduções de postos. Agora, Blume indicou que outros 50 mil empregos podem precisar desaparecer para aproximar os custos da Volkswagen daqueles registrados pelos concorrentes.
Dessa forma, considerando medidas antigas e a nova proposta, a transformação poderia atingir perto de 100 mil posições dentro do conglomerado ao longo dos próximos anos.
No entanto, existe uma diferença importante. Os novos 50 mil cortes ainda não representam 50 mil demissões oficialmente aprovadas.
O próprio Blume tratou o número como uma referência do tamanho da economia necessária. Portanto, a quantidade final pode mudar conforme as negociações com sindicatos, representantes dos trabalhadores e acionistas avancem.
A Volkswagen já havia firmado um acordo para reduzir em mais de 35 mil pessoas seu quadro nas operações alemãs até 2030. Esse processo prioriza aposentadorias, desligamentos voluntários e outras formas consideradas socialmente responsáveis pela empresa.
Agora, porém, a administração considera insuficiente o ajuste feito anteriormente.
Quatro fábricas da Volkswagen podem parar de produzir
A maior mudança pode ocorrer dentro das próprias fábricas.
Uma proposta da administração prevê encerrar a produção de veículos em quatro importantes unidades do Grupo Volkswagen entre 2031 e 2034.
O cronograma divulgado prevê o fim da produção em Emden e Zwickau em 2031. Hanover entraria na sequência, em 2032. Já Neckarsulm, fábrica da Audi, deixaria de produzir veículos em 2034.
As quatro unidades ficam na Alemanha.
Por enquanto, entretanto, trata-se de uma proposta da administração que ainda precisa passar pelo conselho de supervisão. A empresa também não confirmou publicamente que todas essas fábricas serão definitivamente fechadas.
Na prática, existe diferença entre encerrar a produção atual e abandonar completamente um complexo industrial. Algumas instalações podem receber novas atividades, novos produtos ou até parceiros externos.
Mesmo assim, o plano demonstra que a Volkswagen passou a considerar alternativas que, alguns anos atrás, pareciam extremamente difíceis dentro de sua estrutura alemã.
Volkswagen também começa a eliminar carros do catálogo
A redução não ocorre apenas entre funcionários e fábricas.
A Volkswagen também começou a rever quais carros continuarão fazendo sentido dentro de um portfólio global considerado grande e caro.
Um dos casos já confirmados envolve o Touareg.
A atual geração do SUV de luxo encerra sua produção em 2026. Para marcar a despedida, a Volkswagen chegou a lançar a versão especial Touareg Final Edition. O modelo estava no mercado desde 2002 e acumulou mais de 1,2 milhão de unidades comercializadas ao longo de três gerações.
Portanto, ao contrário das quatro fábricas ainda discutidas, o encerramento da produção do atual Touareg a combustão já foi oficialmente anunciado.
T-Roc Cabriolet também vai sair de produção
Outro modelo com data marcada para desaparecer das linhas de montagem é o T-Roc Cabriolet.
O conversível continuará sendo fabricado somente até meados de 2027 na unidade de Osnabrück.
Depois disso, a fabricação do carro termina. A própria Volkswagen confirma que atualmente analisa alternativas para dar outra finalidade ao complexo industrial.
O encerramento tem peso simbólico. O T-Roc Cabriolet representa atualmente o último conversível vendido pela marca Volkswagen em seu catálogo europeu.
Além disso, a decisão deixa a fábrica de Osnabrück praticamente sem automóveis Volkswagen para produzir a partir de 2027.
Por isso, a companhia procura novos projetos para preservar o complexo.
Uma das alternativas discutidas envolve até mesmo uma parceria com a indústria de defesa. A Volkswagen assinou uma carta de intenção relacionada ao possível uso de parte da unidade por uma empresa desse setor.
Golf deixa fábrica histórica, mas não será descontinuado
Outra mudança importante envolve um dos carros mais conhecidos da Volkswagen.
O Golf deixará de ser produzido em Wolfsburg a partir de 2027. No entanto, nesse caso, o modelo não será encerrado.
A Volkswagen decidiu transferir a fabricação do Golf e do Golf Variant para Puebla, no México. Dessa forma, a empresa reduz a capacidade instalada na Alemanha, mas mantém o carro em produção.
Portanto, são situações diferentes.
O Touareg a combustão encerra seu atual ciclo de produção em 2026. O T-Roc Cabriolet sai de linha em 2027. Já o Golf continuará existindo, mas perderá sua atual base produtiva alemã.
Além desses casos confirmados, outros veículos aparecem em análises sobre uma possível simplificação futura do catálogo do grupo. Porém, ainda não existe confirmação oficial de encerramento para todos eles.
Por que a Volkswagen quer cortar tanto?
A explicação está principalmente na rentabilidade.
Durante décadas, a Volkswagen utilizou mercados como a China para gerar lucros elevados. Entretanto, fabricantes locais cresceram rapidamente e passaram a dominar principalmente os segmentos de carros elétricos e eletrificados.
Empresas chinesas também aumentaram a presença na Europa e em outros mercados estratégicos.
Ao mesmo tempo, a Volkswagen mantém uma enorme estrutura industrial na Alemanha. Algumas fábricas trabalham abaixo da capacidade disponível.
Oliver Blume afirmou que os custos indiretos da empresa permanecem cerca de 30% acima dos níveis observados em concorrentes comparáveis.
Além disso, tarifas comerciais e bilhões de euros necessários para desenvolver veículos elétricos, baterias, softwares e novas plataformas pressionam ainda mais os resultados.
Consequentemente, a direção quer produzir mais usando uma estrutura menor.
Sindicatos prometem reação
Entretanto, implementar o plano não será simples.
Os representantes dos trabalhadores possuem grande influência na estrutura de governança da Volkswagen e rejeitam principalmente demissões compulsórias e fechamentos de fábricas.
A IG Metall, maior sindicato industrial da Alemanha, já avisou que haverá forte resistência caso a empresa tente desmontar o acordo anterior firmado com os funcionários.
Além disso, o Estado da Baixa Saxônia possui participação relevante na Volkswagen e também exerce influência sobre decisões estratégicas.
Por isso, a administração não consegue simplesmente anunciar o encerramento das fábricas sem enfrentar uma longa disputa interna.
Uma reunião do conselho de supervisão marcada para 4 de setembro de 2026 deverá analisar as propostas de reestruturação e alternativas apresentadas pelos trabalhadores e demais acionistas.
Cortes não atingem fábricas brasileiras neste momento
Apesar do tamanho da reestruturação global, o cenário brasileiro segue na direção oposta.
As quatro fábricas brasileiras não aparecem na relação de unidades ameaçadas pelo novo plano.
Atualmente, a Volkswagen possui três fábricas de veículos no país e uma unidade dedicada a motores. Elas ficam em São Bernardo do Campo, Taubaté e São Carlos, em São Paulo, além de São José dos Pinhais, no Paraná.
Além disso, a empresa mantém um ciclo de investimentos de R$ 16 bilhões no Brasil entre 2024 e 2028.
A operação brasileira também ganhou uma ofensiva de produtos. O planejamento mais recente fala em 17 novos veículos no país até 2028. Entre eles estão modelos flex, híbridos e novas gerações de produtos já conhecidos pelos consumidores.
A futura picape Tukan, por exemplo, será o primeiro Volkswagen eletrificado produzido no Brasil e começará a nova fase tecnológica da companhia no mercado nacional.
Assim, neste momento, não existe anúncio de fechamento das fábricas brasileiras relacionado aos quatro complexos ameaçados na Europa.
Volkswagen continua forte no Brasil
O contraste fica ainda maior quando se observam as vendas.
Em agosto de 2026, a Volkswagen terminou como a segunda montadora com mais emplacamentos no Brasil, registrando 41.403 veículos. A Fiat liderou com 48.427 unidades.
Além disso, três Volkswagen apareceram entre os modelos de maior volume naquele mês. O Polo ficou em segundo lugar entre os veículos leves, o Tera apareceu logo atrás e o T-Cross também entrou entre os dez primeiros.
Portanto, a enorme reestruturação discutida pela Volkswagen não significa uma retirada da empresa do Brasil.
O que está em jogo é principalmente uma redução estrutural no grupo, especialmente em sua operação alemã. Se a administração conseguir aprovar o projeto, a Volkswagen poderá acrescentar aproximadamente 50 mil cortes aos programas já existentes e encerrar a produção em quatro importantes fábricas entre 2031 e 2034.
Ao mesmo tempo, alguns carros já começaram a deixar definitivamente o catálogo. O Touareg a combustão encerra seu ciclo em 2026, enquanto o último T-Roc Cabriolet deixará a fábrica em 2027.
Com isso, a Volkswagen tenta diminuir custos, reduzir sua enorme estrutura industrial e liberar recursos para enfrentar uma indústria automobilística cada vez mais dominada pela eletrificação e pela rápida expansão das fabricantes chinesas.