Uma das maiores empresas de alimentos e bebidas do mundo iniciou uma ampla redução de custos que envolve 16 mil postos de trabalho e o encerramento de fábricas. A Nestlé, dona de marcas famosas como Nescau, KitKat, Nescafé, Maggi e Purina, pretende concluir a maior parte dessa reorganização até o fim de 2027.
O plano prevê a eliminação de aproximadamente 12 mil cargos administrativos e profissionais em diferentes países. Outros 4 mil postos serão reduzidos principalmente nas áreas de fabricação e cadeia de suprimentos. Juntos, os cortes representam aproximadamente 5,8% do quadro mundial que a companhia possuía quando fez o anúncio.
Ao mesmo tempo, a gigante decidiu encerrar suas operações produtivas em unidades industriais consideradas menos competitivas. Duas fábricas entraram nesse movimento entre 2025 e 2026: uma na Alemanha, onde a produção já terminou, e outra na Hungria, que deixará de fabricar chocolates até dezembro deste ano.
O cenário, entretanto, é diferente no Brasil. Enquanto reduz sua estrutura em determinados mercados, a Nestlé anunciou R$ 7 bilhões em investimentos no país até 2028, inaugurou uma fábrica de R$ 2,5 bilhões e amplia outras unidades brasileiras.
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Nestlé vai cortar 16 mil funcionários
A redução no quadro mundial foi anunciada em outubro de 2025 pelo CEO Philipp Navratil.
Segundo a Nestlé, aproximadamente 16 mil posições deverão desaparecer ao longo de dois anos. Desse total, 12 mil correspondem a funcionários de áreas administrativas e profissionais espalhados por diferentes funções e países.
Outros 4 mil postos fazem parte de programas de produtividade ligados principalmente às áreas de fabricação e cadeia de suprimentos.
A companhia pretende simplificar processos, aumentar o uso de serviços compartilhados, ampliar a automação e reduzir estruturas consideradas duplicadas.
Com as medidas, a Nestlé elevou sua meta de economia do programa Fuel for Growth para 3 bilhões de francos suíços até o fim de 2027.
Quando anunciou os cortes, o novo presidente-executivo deixou claro que pretendia acelerar as mudanças dentro do grupo. A empresa enfrentava pressão para recuperar crescimento, melhorar margens e entregar resultados mais fortes aos investidores, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Fábrica da Nestlé já encerrou produção após mais de 100 anos
Uma das decisões mais simbólicas aconteceu na Alemanha.
A Nestlé decidiu fechar sua fábrica de Neuss, perto de Düsseldorf. A unidade empregava aproximadamente 145 trabalhadores e fabricava produtos como óleo, maionese e mostarda da marca Thomy.
A companhia justificou a decisão citando aumento dos custos, maior sensibilidade dos consumidores aos preços, queda nos volumes produzidos e capacidade industrial ociosa.
O encerramento saiu do papel em 2026.
A produção terminou definitivamente em 9 de junho, quando a unidade fabricou seu último produto. Depois disso, começou a desmontagem dos equipamentos industriais. A fábrica mantinha produção naquele endereço havia mais de um século.
Parte das atividades foi transferida para outras unidades.
A maior parcela da fabricação de tubos de maionese e mostarda passou para a fábrica de Lüdinghausen, também na Alemanha. A Nestlé anunciou investimento de aproximadamente € 13 milhões nessa unidade e criou 30 postos para oferecer aos funcionários afetados pelo encerramento de Neuss.
Nestlé fecha outra fábrica de chocolates
Pouco depois, uma nova decisão industrial chamou atenção.
Em julho de 2026, a Nestlé confirmou que vai encerrar a produção da fábrica de Diósgyőr, na Hungria, em dezembro deste ano.
A unidade possui aproximadamente 220 funcionários e é especializada em figuras ocas de chocolate, como produtos vendidos principalmente em períodos como Páscoa e Natal.
Por lá são produzidos itens relacionados a marcas mundialmente conhecidas, entre elas KitKat, Smarties e Milkybar. Parte relevante da fabricação segue para exportação e os produtos chegam a mais de 20 países.
A história da unidade também chama atenção. A fábrica de Diósgyőr possui cerca de 64 anos e teve papel importante na indústria de chocolates da Hungria.
Agora, porém, a Nestlé decidiu interromper sua produção.
Procura por chocolates pesou na decisão
Diferentemente do corte global de funcionários, a decisão de fechar a fábrica húngara possui uma justificativa bastante específica.
Segundo a Nestlé, houve redução na demanda por chocolates sazonais, especialmente produtos associados a datas comemorativas.
Com menos procura, a produção da fábrica caiu significativamente. Atualmente, Diósgyőr representa menos de 3% da receita da Nestlé na Hungria e apenas 0,4% de seu volume industrial no país.
A companhia decidiu, então, que manter uma instalação especializada nesse tipo de produto deixou de fazer sentido dentro de sua estratégia industrial.
Isso não significa que os chocolates desaparecerão das lojas.
A intenção é transferir a fabricação para um produtor externo que deverá seguir os padrões estabelecidos pela Nestlé.
Nestlé ainda tenta vender a fábrica
Existe ainda uma possibilidade de o complexo industrial continuar funcionando sob outra empresa.
A Nestlé iniciou negociações para encontrar um investidor interessado em comprar a fábrica de Diósgyőr e continuar produzindo alimentos ou chocolates no local.
As conversas já estavam em estágio avançado quando o encerramento da produção foi anunciado. A estratégia poderia preservar pelo menos parte dos empregos, dependendo do acordo com um eventual comprador.
Portanto, assim como aconteceu em outra unidade alemã, o fim da operação da Nestlé não necessariamente significa que o prédio industrial ficará definitivamente fechado.
Outra fábrica conseguiu escapar do fechamento
Um caso ocorrido na Alemanha mostra exatamente essa possibilidade.
Em março de 2025, a Nestlé anunciou que deixaria de operar sua fábrica de Conow, responsável por produtos das marcas Maggi e Garden Gourmet.
Inicialmente, aproximadamente 80 funcionários estavam envolvidos na unidade. A produção da Nestlé seria transferida para outras fábricas europeias.
Entretanto, a companhia encontrou um comprador.
Em novembro, a Nestlé confirmou a venda da fábrica para o grupo alemão Sprehe, que assumiu a unidade em 1º de janeiro de 2026. Cerca de 70 funcionários também passaram para o novo proprietário.
Por isso, Conow não entra na conta das duas fábricas fechadas. A Nestlé saiu da operação, mas a fábrica continuou existindo sob um novo controlador.
Cortes não significam que a Nestlé esteja falindo
Apesar das 16 mil reduções previstas e dos fechamentos industriais, a situação é diferente de uma empresa em recuperação judicial ou ameaçada de falência.
A Nestlé continua lucrativa.
No primeiro semestre de 2026, o grupo registrou 43,1 bilhões de francos suíços em vendas e lucro líquido de aproximadamente 3,47 bilhões de francos suíços. O lucro caiu 31,4% em relação ao mesmo período de 2025, mas permaneceu positivo.
Além disso, as vendas orgânicas avançaram 3,6% no primeiro semestre.
Portanto, os cortes fazem parte principalmente de uma estratégia para aumentar eficiência, eliminar custos e concentrar investimentos em marcas e mercados considerados mais promissores.
Enquanto fecha fábricas no exterior, Nestlé expande no Brasil
O Brasil vive justamente o movimento contrário.
A Nestlé anunciou um novo ciclo de R$ 7 bilhões em investimentos entre 2025 e 2028. O dinheiro será destinado à modernização industrial, ampliação de capacidade produtiva, inovação e sustentabilidade.
A própria companhia classifica o Brasil como um de seus três mercados mais importantes no mundo.
O plano atinge diversas fábricas.
No Espírito Santo, por exemplo, a Nestlé amplia a unidade de Vila Velha, com novas linhas de chocolates, bombons e produtos que combinam biscoitos e chocolate. Entre as marcas beneficiadas aparecem Serenata de Amor e Caribe.
Em Minas Gerais, a companhia expande a produção de Nescafé Dolce Gusto em Montes Claros e faz novos aportes na fábrica de Ituiutaba, ligada a produtos de nutrição, incluindo linhas de Ninho, Nestogeno e Nestonutri.
Já em Araras, São Paulo, a empresa instala uma nova linha para extração de café solúvel.
Nova fábrica recebe investimento de R$ 2,5 bilhões
O maior exemplo da expansão brasileira apareceu em março de 2026.
A Nestlé Purina inaugurou uma nova fábrica em Vargeão, Santa Catarina, após investimento de R$ 2,5 bilhões. A unidade produz alimentos úmidos para cães e gatos.
Quando estiver operando plenamente, a fábrica deverá quase dobrar a capacidade brasileira da Purina para esse tipo de alimento.
Além de atender consumidores brasileiros, a produção possui forte vocação exportadora. A unidade já iniciou embarques para o Chile e pretende ampliar as vendas para outros países da América Latina.
A fábrica também criou 140 empregos permanentes, além de 44 posições indiretas e cerca de 200 postos terceirizados na operação. Durante sua construção, aproximadamente 7,2 mil trabalhadores chegaram a participar das obras.
Nestlé mantém 18 fábricas no Brasil
A presença industrial da companhia no país continua expressiva.
Quando anunciou o ciclo de R$ 7 bilhões, a Nestlé informou possuir 18 unidades industriais em operação no Brasil, além de 12 centros de distribuição. A companhia empregava mais de 30 mil pessoas diretamente no país.
Por enquanto, a Nestlé não detalhou quantos dos 16 mil cortes globais atingirão cada país, portanto não existe base para afirmar que milhares dessas demissões ocorrerão no Brasil. O plano foi apresentado como uma redução mundial distribuída entre diferentes áreas e geografias.
Na prática, a multinacional vive dois movimentos ao mesmo tempo.
Em mercados e operações considerados menos eficientes, corta funcionários, transfere produção e encerra fábricas. Em regiões onde identifica maior potencial de crescimento, como o Brasil, direciona bilhões de reais para ampliar sua capacidade.
Até o fim de 2027, a Nestlé pretende eliminar aproximadamente 16 mil posições globalmente. Enquanto isso, a fábrica de Neuss já encerrou suas atividades industriais e a histórica unidade de chocolates de Diósgyőr se prepara para interromper a produção em dezembro de 2026.