Universidade federal procura cães voluntários para ajudar a identificar câncer em estudo inédito

A Ufes está procurando cães voluntários para identificar câncer e outras doenças em estudo inédito.
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A Ufes está realizando estudo inédito para detecção de câncer e outras doenças. Crédito: Divulgação

Cães domésticos poderão ajudar pesquisadores a identificar sinais de doenças graves, como câncer, tuberculose e esquistossomose, por meio do olfato. A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) desenvolve a iniciativa, considerada inédita no Brasil, e já cadastra tutores interessados em participar do estudo com seus pets.

A pesquisa busca treinar cães de médio e grande portes, ativos, brincalhões e motivados por comida para reconhecer alterações presentes em materiais biológicos humanos. A equipe vai conduzir o trabalho no Núcleo de Doenças Infecciosas (NDI/Ufes), ligado ao Centro de Ciências da Saúde (CCS), no campus de Maruípe, em Vitória.

Como vai funcionar o treinamento dos cães

Os cães participarão de sessões uma ou duas vezes por semana. Cada encontro deve durar entre uma e duas horas. A equipe fará as atividades em uma área localizada atrás do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam/Ufes), no campus de Maruípe.

Atualmente, a Universidade de São Paulo (USP) constrói os equipamentos que vão integrar o sistema de treinamento. Depois disso, os pesquisadores vão instalar a estrutura na Ufes e iniciar as atividades com os animais.

O estudo deve durar quatro anos. Ao longo desse período, os pesquisadores vão coletar materiais biológicos, recrutar e selecionar cães, treinar os animais, aplicar testes de desempenho e analisar os resultados, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.

Cadastro de cães voluntários na Ufes

Os tutores que quiserem cadastrar os animais podem entrar em contato pelo WhatsApp (51) 99981-8599, pelo e-mail caes.cancer@gmail.com ou pelo perfil @caes.cancer no Instagram. A participação não terá custo.

Treinamento funciona como uma brincadeira

A equipe vai usar o reforço positivo como base do treinamento. Na prática, os cães receberão como recompensa sua comida preferida sempre que identificarem corretamente uma amostra positiva.

O médico veterinário Gustavo Jantorno vai supervisionar a dinâmica. Ele tem experiência no treinamento de cães que atuam com órgãos federais, como a Receita Federal e o Ministério da Agricultura e Pecuária.

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Segundo o professor Carlos Graeff, do Departamento de Patologia da Ufes e coordenador geral do estudo, o método já tem aplicação em outros países para diferentes finalidades.

“Os desafios são próprios do método de treinamento e avaliação dos cães que já é bem desenvolvido em muitos países, tanto para detectar doenças como para detectar drogas ilícitas ou dinheiro”, afirmou.

Procedimento não coloca os animais em risco

Os pesquisadores garantem que os cães não terão contato direto com os materiais biológicos. A equipe manterá as amostras em tubos fechados e aplicará processos de filtragem e segurança antes dos testes.

Durante a atividade, os animais vão farejar amostras organizadas em um carrossel mecânico. O equipamento conta com colaboração do professor Tim Edwards, da Universidade de Waikato, na Nova Zelândia.

Quando o cão não identificar sinais da doença em uma amostra, ele poderá acionar uma haste flexível com o focinho. Assim, o carrossel gira e apresenta uma nova amostra para avaliação.

Além disso, câmeras vão monitorar todo o processo. A automação também ajuda a reduzir interferências humanas e evita distrações que possam atrapalhar a concentração dos animais.

Projeto reúne universidades do Brasil e do exterior

Batizado de Xero, o estudo reúne professores, pesquisadores, médicos veterinários, estatísticos e estudantes de diferentes áreas da Ufes e de outras instituições brasileiras.

A iniciativa também conta com apoio da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Além disso, universidades de Portugal, Austrália e Nova Zelândia participam como parceiras internacionais.

A proposta combina biologia celular, comportamento animal e tecnologia óptica. Com isso, os pesquisadores pretendem unir a capacidade olfativa dos cães a ferramentas avançadas de análise química.

Como os cães conseguem perceber sinais de doenças

Segundo Carlos Graeff, o diagnóstico pelo cheiro não depende da identificação de uma única molécula. Na verdade, os cães reconhecem padrões químicos complexos associados a determinadas doenças.

A equipe quer que os animais percebam combinações de compostos presentes nas amostras, mesmo em quantidades muito pequenas.

“Os cachorros conseguem perceber essas substâncias em concentrações de até uma parte por trilhão, o que é muito menor do que o limite detectado pelos aparelhos de laboratório atuais”, explicou o pesquisador.

Em uma fase futura, os pesquisadores também pretendem avaliar se os cães conseguem farejar diretamente pessoas com suspeita de melanoma, um tipo de câncer de pele.

Objetivo não é levar cães para hospitais

Apesar do uso dos animais na pesquisa, a proposta não prevê a presença de cães em postos de saúde, ambulatórios ou hospitais. A equipe pretende manter os animais em ambiente controlado, dentro do laboratório.

As equipes de saúde poderão coletar amostras, como urina e ar expirado, em unidades públicas, ambulatórios ou até nas casas dos pacientes. Depois, esse material seguiria para análise na Ufes.

“A proposta é que os animais trabalhem em ambiente controlado, dentro do laboratório, enquanto as amostras biológicas, como urina e ar expirado, possam ser coletadas em postos de saúde, ambulatórios ou até mesmo nas residências dos pacientes pelas equipes de saúde e depois encaminhadas para análise na Ufes”, afirmou Graeff.

Segundo o professor, a pesquisa busca desenvolver uma estratégia simples, segura e de baixo custo para triagem de doenças. No futuro, o método poderá ajudar principalmente regiões com pouco acesso a exames mais complexos.

Pesquisa é inédita no mundo para esquistossomose

Um dos principais diferenciais do estudo está no uso de cães farejadores para identificar a esquistossomose, doença conhecida popularmente como “barriga d’água”. Segundo a Ufes, nenhuma outra pesquisa no mundo usa essa abordagem com o mesmo objetivo.

Além disso, o projeto associa o trabalho dos cães à espectroscopia de infravermelho próximo, conhecida pela sigla NIRS. Essa tecnologia funciona como uma espécie de “leitura química por luz” e ainda aparece pouco na medicina humana para fins diagnósticos.

A equipe da Ufes desenvolve essa técnica há quase uma década. O método projeta uma luz invisível sobre a amostra de urina e lê, de forma imediata, as respostas químicas presentes no material.

Para os pesquisadores, a urina representa um dos materiais mais promissores para exames de rotina no futuro, já que tem baixo custo e fácil coleta. Desde 2019, o grupo do NDI/Ufes trabalha na padronização desses testes voltados à esquistossomose.

Estudo segue normas éticas

O Comitê de Ética em Pesquisa do CCS/Ufes, o Hucam/Ufes e o Comitê de Ética em Pesquisas com Animais (Ceua/Ufes) aprovaram a pesquisa. Além disso, o projeto segue as normas brasileiras para pesquisas com seres humanos e animais.

A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financiam o estudo.

Foto de Gabriel Almeida

Gabriel Almeida

Jornalista há 11 anos, Gabriel Almeida é editor-chefe do Portal Tempo Novo. Atua diretamente na produção e curadoria do conteúdo, além de assinar reportagens sobre os principais acontecimentos da cidade da Serra e temas de interesse público estadual.

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