Uma mudança que começa a ganhar força no varejo brasileiro está alterando a rotina de milhares de trabalhadores. Grandes redes de supermercados e farmácias decidiram substituir a tradicional escala 6×1 por modelos que garantem dois dias de descanso durante a semana.
Em algumas das maiores empresas do setor, a transformação já alcança toda a operação das lojas. Outras redes começaram por unidades específicas e avançam gradualmente com a escala 5×2, aumentando o número de trabalhadores contemplados.
A discussão ganhou ainda mais força nesta quarta-feira (2). Isso porque a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a proposta que acaba nacionalmente com a escala 6×1 e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.
A aprovação ocorreu de forma simbólica. O relator, senador Omar Aziz, rejeitou as emendas apresentadas e preservou o texto que já havia recebido o aval da Câmara dos Deputados. Agora, a PEC 221/2019 segue para o Plenário do Senado.
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Enquanto a mudança nacional avança no Congresso, empresas como Raia, Drogasil, Drogaria São Paulo, Pacheco e Savegnago já reorganizaram jornadas e passaram a oferecer dois dias de descanso para trabalhadores de suas operações.
Além delas, redes como Extrabom, Supernosso, Coop, Farmácias São João e Supermercados Pague Menos também começaram a adotar ou ampliar experiências com o modelo 5×2.
Raia e Drogasil acabam com escala 6×1 nas farmácias
Uma das maiores mudanças ocorreu na RD Saúde, empresa responsável pelas redes Raia e Drogasil.
A companhia implantou a escala 5×2 em sua operação de mais de 3,5 mil farmácias espalhadas pelo Brasil.
Na prática, os funcionários das lojas passaram a trabalhar durante cinco dias e descansar dois.
A empresa havia iniciado experiências com o novo formato antes de ampliar a jornada para a operação das farmácias.
Apesar da segunda folga, a carga horária semanal continua em 44 horas. Portanto, neste momento, houve uma redistribuição das horas dentro de cinco dias de trabalho.
A companhia também passou a enxergar a nova escala como uma estratégia para tornar as vagas mais atraentes e reduzir a rotatividade de funcionários, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Drogaria São Paulo e Pacheco levam 5×2 para milhares de trabalhadores
Outra mudança de grande porte ocorreu no Grupo DPSP, responsável pelas bandeiras Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco.
O grupo adotou a escala 5×2 na operação de aproximadamente 1.650 lojas.
A reorganização alcança cerca de 24 mil trabalhadores, que passaram a contar com dois dias de descanso.
Assim como ocorre na RD Saúde, entretanto, a carga semanal permanece em 44 horas.
Para oferecer a segunda folga, a empresa distribui o total de horas dentro dos cinco dias trabalhados.
O grupo também aponta a nova organização da jornada como uma forma de melhorar a retenção de profissionais e aumentar a atratividade das oportunidades de emprego.
Savegnago troca 6×1 por 5×2 em todas as lojas
Entre os supermercados, o Savegnago aparece como uma das redes que mais avançaram na mudança.
A companhia começou testando a escala 5×2 em uma unidade. Após acompanhar os resultados, decidiu expandir o formato para todas as lojas da bandeira Savegnago Supermercados.
Os trabalhadores passaram, então, a cumprir cinco dias de expediente e contar com duas folgas.
A carga semanal continua em 44 horas. Dessa forma, o expediente diário precisa ser reorganizado para que o total seja cumprido dentro dos cinco dias.
Em uma divisão simples, são aproximadamente 8 horas e 48 minutos de trabalho por dia.
O Grupo Savegnago também começou a introduzir a escala 5×2 em unidades do Paulistão Atacadista.
Extrabom começa fim da escala 6×1
No Espírito Santo, o Extrabom também entrou no grupo das redes que começaram a mudar a organização da jornada.
A empresa faz parte do Grupo Coutinho, responsável ainda pelas bandeiras Extraplus e Atacado Vem.
A primeira etapa começou em três supermercados do Extrabom: Laranjeiras, na Serra; Gaivotas, em Vila Velha; e Vila Rubim, em Vitória.
Os trabalhadores dessas unidades passaram a atuar durante cinco dias e ganharam uma segunda folga na semana.
O resultado da experiência abriu caminho para a expansão da iniciativa dentro do grupo.
A expectativa é que o modelo alcance uma parcela cada vez maior das operações e possa chegar a mais de 5 mil trabalhadores.
Entretanto, a escala 5×2 ainda não está presente em todas as lojas do Extrabom, Extraplus e Atacado Vem.
Assim como outras empresas do varejo, o grupo mantém as 44 horas semanais e reorganiza a carga dentro de cinco dias.
Supernosso também amplia dois dias de descanso
O Grupo Supernosso também começou a mudar sua organização de trabalho.
Inicialmente, aproximadamente 500 funcionários de três unidades participaram da experiência com a escala 5×2.
Depois dos primeiros resultados, a companhia passou a ampliar o formato para operações das bandeiras Supernosso e Apoio Mineiro.
A empresa relacionou a experiência a resultados positivos na retenção de profissionais e também na atração de candidatos para novas vagas.
O formato mantém 44 horas semanais, mas permite que o trabalhador tenha dois dias de folga.
Coop leva escala 5×2 para todas as drogarias
A Coop também começou a abandonar a escala tradicional em parte de suas atividades.
Nas drogarias da cooperativa, a implantação do 5×2 alcançou todas as unidades.
Dessa forma, os trabalhadores passaram a contar com dois dias de descanso por semana.
Nos supermercados da Coop, entretanto, a transformação acontece de maneira gradual.
A empresa iniciou experiências em unidades específicas antes de decidir por uma expansão para toda a operação.
Portanto, a escala 5×2 ainda não contempla todos os trabalhadores dos supermercados.
Farmácias São João começam transição para 5×2
Outra gigante que começou a testar uma nova jornada foi a Farmácias São João.
A companhia possui mais de 1,2 mil unidades e figura entre as maiores redes farmacêuticas do país.
A escala 5×2 começou a funcionar em parte das lojas.
Agora, a empresa acompanha os resultados operacionais para avaliar uma expansão mais ampla.
Por isso, a rede ainda não eliminou a escala 6×1 em todas as unidades.
Mesmo assim, a movimentação de uma empresa desse tamanho reforça a tendência de mudança dentro do varejo farmacêutico.
Supermercados Pague Menos ampliam escala 5×2
Os Supermercados Pague Menos também avançam na adoção do modelo com dois dias de folga.
A companhia possui cerca de 40 lojas e concentra sua atuação principalmente no interior de São Paulo.
Parte significativa das unidades já utiliza a escala 5×2, e a rede vem ampliando gradualmente o novo formato.
Neste caso, é importante destacar que os Supermercados Pague Menos não pertencem à rede de farmácias Pague Menos.
Apesar do mesmo nome, são empresas diferentes.
Por que supermercados e farmácias estão abandonando a escala 6×1?
Um dos principais motivos para a mudança está na disputa por trabalhadores.
Supermercados e farmácias costumam funcionar durante períodos prolongados, incluindo noites, fins de semana e feriados.
Por isso, durante muitos anos, a escala 6×1 se tornou um dos modelos mais utilizados nesses setores.
Entretanto, as empresas passaram a enfrentar dificuldades maiores para preencher determinadas vagas e manter funcionários.
Ao mesmo tempo, trabalhadores passaram a valorizar oportunidades que oferecem mais tempo livre e dois dias de descanso durante a semana.
Nesse cenário, o 5×2 começou a ser utilizado como um diferencial para atrair candidatos e reduzir pedidos de demissão.
Além disso, o avanço político do fim da escala 6×1 aumenta a pressão sobre empresas que ainda utilizam o formato tradicional.
Escala 5×2 não significa trabalhar somente 40 horas
Existe uma diferença importante entre a mudança promovida atualmente pelas empresas e a proposta aprovada no Congresso.
A escala define quantos dias o funcionário trabalha e quantos dias descansa.
Já a jornada determina a quantidade total de horas trabalhadas na semana.
Por isso, uma empresa pode acabar com a escala 6×1, implantar o modelo 5×2 e continuar exigindo 44 horas semanais.
É o que acontece atualmente em várias redes.
O trabalhador recebe uma segunda folga. Por outro lado, precisa cumprir uma jornada diária maior para completar as 44 horas dentro dos cinco dias.
A PEC que avança no Senado traz uma mudança maior: além dos dois dias de descanso, reduz o limite semanal para 40 horas.
Senado aprova fim da escala 6×1 em comissão
O cenário político mudou nesta quarta-feira, 2 de setembro.
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o texto-base da PEC 221/2019, que acaba com a escala 6×1 e estabelece dois dias de repouso semanal remunerado.
A proposta também reduz a jornada máxima de trabalho das atuais 44 horas para 40 horas semanais, sem diminuição dos salários.
O parecer aprovado é do senador Omar Aziz. O relator rejeitou as 36 emendas apresentadas durante a discussão, mantendo o texto que já havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados.
A votação na CCJ ocorreu de forma simbólica.
Com isso, a PEC venceu mais uma etapa importante no Congresso e segue agora para o Plenário do Senado.
Fim da escala 6×1 ainda não está valendo
Apesar da nova aprovação, a escala 6×1 ainda não acabou oficialmente no Brasil.
A decisão desta quarta-feira aconteceu dentro da CCJ do Senado. A PEC ainda precisa ser aprovada pelo conjunto dos senadores.
Por se tratar de uma mudança na Constituição, serão necessárias duas votações no Plenário.
Em cada uma delas, o texto precisa receber pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores.
Existe expectativa de uma tramitação rápida. Antes da votação na comissão, Omar Aziz já havia afirmado que buscaria um calendário especial para permitir que a proposta avançasse imediatamente ao Plenário.
Caso o Senado aprove exatamente o mesmo texto que veio da Câmara, a proposta poderá seguir para promulgação.
Nesse cenário, não existe sanção nem veto do presidente da República.
Se os senadores fizerem uma mudança substancial no conteúdo, entretanto, a PEC precisará voltar para a Câmara.
Como ficará a jornada após o fim da 6×1?
O texto aprovado estabelece uma transição antes da implantação definitiva das 40 horas.
A primeira mudança ocorrerá 60 dias depois da promulgação da emenda.
Nesse momento, o limite semanal cairá de 44 para 42 horas e os trabalhadores passarão a ter dois dias de repouso remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos.
Na etapa seguinte, a jornada máxima chegará a 40 horas semanais.
O texto também determina que a redução aconteça sem corte de salário.
A proposta preserva ainda possibilidades de regras diferenciadas por meio de acordos e convenções coletivas em determinadas atividades e regimes específicos.
Enquanto essa mudança nacional ainda depende da votação definitiva do Senado, gigantes dos supermercados e farmácias já começaram a se antecipar. Para milhares de trabalhadores dessas empresas, a rotina de seis dias de trabalho para apenas um de descanso já começa a ficar para trás.
