O Ministério Público Eleitoral pediu ao Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo (TRE-ES) o cancelamento definitivo da pesquisa eleitoral ES-06002/2026, divulgada pelo Instituto Veritá, além da aplicação de multa máxima contra a empresa. Em parecer contundente, o procurador Regional Eleitoral, Paulo Augusto Guaresqui, afirma que o levantamento apresentou “dados dissonantes da realidade” e possuía “clara capacidade de enganar e influenciar ilegitimamente o eleitor capixaba”.
A manifestação foi apresentada dentro de uma representação movida pelo MDB estadual contra o instituto de pesquisa. O centro da acusação envolve a metodologia utilizada no levantamento, que, segundo o Ministério Público, teria produzido uma distorção territorial capaz de favorecer diretamente o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini.
De acordo com o parecer, o Instituto Veritá registrou oficialmente no sistema PesqEle a utilização do método PPT (Probabilidade Proporcional ao Tamanho), técnica que exige proporcionalidade entre o tamanho do eleitorado e o peso da amostra coletada. No entanto, o MP afirma que a execução prática da pesquisa contrariou frontalmente esse princípio.
O documento aponta que, das 1.220 entrevistas realizadas, 514 ocorreram em Vitória, equivalente a 42,13% de toda a amostra, embora a capital represente apenas 8,89% do eleitorado capixaba. Segundo o Ministério Público, isso deu à cidade um peso “quase cinco vezes superior” ao tamanho real de sua participação eleitoral.
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Enquanto isso, municípios estratégicos ficaram totalmente fora do levantamento. O parecer destaca que Serra e Vila Velha — os dois maiores colégios eleitorais do Espírito Santo — não tiveram nenhuma entrevista realizada. Também foram excluídas cidades relevantes como São Mateus, Aracruz e Viana.
O Ministério Público sustenta que a concentração das entrevistas justamente no principal reduto político de Pazolini provocou uma “superexposição artificial de competitividade”. O procurador afirma que a distorção teve impacto direto nos números divulgados pela pesquisa, que colocavam o então prefeito de Vitória com 38,3% na pesquisa espontânea e 32% na estimulada.
Em um dos trechos mais duros da manifestação, o MP afirma:
“O viés político derivado desta distorção é evidente e materializa o perigo de dano ao processo democrático. A hiper-representação do eleitorado da capital resultou diretamente em uma alavancagem dos números do candidato Lorenzo Pazolini (…) Trata-se de uma superexposição artificial de competitividade, moldada por uma amostragem maculada, com clara capacidade de enganar e influenciar ilegitimamente o eleitor capixaba.”
Além da suposta distorção territorial, o Ministério Público também aponta outra irregularidade considerada grave: a pesquisa teria incluído perguntas sobre a disputa para presidente da República sem que esse cargo estivesse registrado oficialmente no sistema da Justiça Eleitoral. Segundo o parecer, isso viola diretamente a Resolução 23.600/2019 do Tribunal Superior Eleitoral.
O MP sustenta ainda que esse formato pode gerar o chamado “efeito de ancoragem”, quando respostas sobre um cargo influenciam cognitivamente a escolha do eleitor em perguntas posteriores. Para reforçar o argumento, o parecer cita precedentes dos TREs de Goiás e Maranhão e também entendimento recente do Tribunal Superior Eleitoral sobre irregularidades em pesquisas eleitorais.
Na manifestação, a Procuradoria Regional Eleitoral afirma que a pesquisa perdeu a confiabilidade necessária para divulgação pública e classifica a situação como uma “manipulação flagrante” demonstrada pelos próprios documentos apresentados pelo instituto.
Ao final, o Ministério Público pede ao TRE-ES:
- a proibição definitiva da divulgação da pesquisa ES-06002/2026;
- o cancelamento oficial do levantamento;
- e a aplicação de multa no valor máximo previsto pela legislação eleitoral.
A defesa do Instituto Veritá, citada no processo, sustenta que a Justiça Eleitoral deve ter atuação mínima sobre metodologias de pesquisa e afirma que não houve fraude ou irregularidade na execução do levantamento.
A equipe de reportagem do Jornal Tempo Novo procurou o instituto para se manifestar sobre o caso, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para esclarecimentos. Em relação ao candidato citado, a reportagem não conseguiu localizar sua defesa até o momento.
