Uma montadora internacional de carros de luxo pode encerrar uma década de produção no Brasil. A fábrica entrou em julho com as linhas paralisadas, o futuro indefinido e centenas de trabalhadores aguardando informações sobre os próprios empregos.
Nos bastidores, uma fabricante chinesa negocia assumir toda a estrutura industrial. A mudança pode retirar dois SUVs da produção nacional e abrir espaço para uma nova linha de veículos híbridos.
A empresa envolvida é a Jaguar Land Rover, conhecida mundialmente pelos carros das marcas Jaguar, Land Rover, Range Rover, Defender e Discovery. A unidade industrial funciona em Itatiaia, no interior do Rio de Janeiro.
Apesar das movimentações, a montadora não confirmou oficialmente que fechará a fábrica. A JLR também não anunciou uma saída completa do Brasil. Mesmo que encerre a fabricação nacional, a empresa poderá continuar vendendo veículos importados por meio das concessionárias brasileiras.
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Montadora internacional evita confirmar fechamento definitivo
Reportagens do setor automotivo apontam que a Jaguar Land Rover concluiu as últimas unidades previstas do Discovery Sport e do Range Rover Evoque na virada de junho para julho.
Esses veículos teriam permanecido no complexo industrial enquanto aguardavam o envio para as concessionárias. Ao mesmo tempo, as movimentações envolvendo o Grupo Chery reforçaram a expectativa de uma troca de comando na fábrica.
A JLR, porém, adotou um discurso cauteloso. Antes do fim de junho, a empresa informou que a unidade seguiria produzindo normalmente durante aquele mês, conforme seu planejamento operacional.
Já em julho, a montadora afirmou que as atividades continuavam de acordo com o planejamento confirmado. No entanto, acrescentou que não existiam confirmações sobre projetos ou iniciativas futuras.
Portanto, a empresa não confirmou o encerramento definitivo. Também não apresentou um novo cronograma de produção para os próximos meses.
Fábrica realiza parada e trabalhadores fazem cursos
O Sindicato dos Metalúrgicos de Itatiaia e Porto Real, o Sindireal, informou que a unidade entrou em uma parada previamente planejada durante julho.
Segundo a entidade, a empresa reservou o período para treinamentos, reciclagens e capacitação dos funcionários. O sindicato também declarou que não recebeu uma comunicação oficial sobre o fechamento imediato da fábrica.
A entidade afirmou ainda que a Jaguar Land Rover continua cumprindo o acordo coletivo de trabalho. Até a última atualização divulgada, nenhum funcionário havia sido dispensado por causa da possível mudança industrial.
Os treinamentos programados envolvem normas de segurança para operação de máquinas, trabalho em altura, plataformas elevatórias e atividades em espaços confinados. Parte dos cursos possui previsão de continuidade até janeiro de 2027.
Número de empregos da montadora internacional
As informações sobre o tamanho atual do quadro de funcionários apresentam diferenças.
Em junho, representantes do Sindireal informaram que a fábrica mantinha 371 empregos diretos. O sindicato demonstrou preocupação com esses postos e defendeu a inclusão de garantias trabalhistas em qualquer acordo de transferência da unidade.
Em uma atualização publicada no dia 21 de julho, porém, a entidade citou aproximadamente 500 funcionários ligados à operação. O sindicato também reforçou que ninguém havia sido demitido até aquele momento.
Dessa forma, o possível encerramento da produção ainda não provocou uma demissão em massa. Contudo, os trabalhadores permanecem diante de um cenário incerto enquanto a JLR não anuncia seus próximos passos e a negociação com a fabricante chinesa não chega ao fim.
Produção nacional começou há dez anos
A Jaguar Land Rover inaugurou a fábrica brasileira em 14 de junho de 2016. O complexo representou a primeira unidade industrial própria da companhia fora do Reino Unido e a primeira linha de produção da marca na América Latina, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
A empresa anunciou um investimento inicial de R$ 750 milhões. Na época, a fábrica recebeu capacidade para produzir até 24 mil veículos por ano.
A operação começou com o Discovery Sport e, posteriormente, passou a montar também o Range Rover Evoque.
No entanto, a unidade nunca utilizou toda a capacidade disponível. A fábrica trabalhava pelo sistema SKD, no qual carrocerias pintadas e grande parte dos componentes chegavam do exterior. Os funcionários brasileiros realizavam principalmente as etapas finais da montagem.
Vendas aumentam dúvidas sobre continuidade
O baixo volume de vendas dos dois SUVs ajuda a explicar a possível mudança de estratégia.
Em 2025, o Discovery Sport registrou 425 emplacamentos no Brasil. O Range Rover Evoque somou outras 332 unidades. Juntos, os dois veículos alcançaram apenas 757 vendas durante todo o ano.
O desempenho permaneceu reduzido em 2026. Entre janeiro e junho, o Discovery Sport registrou 191 emplacamentos, enquanto o Evoque chegou a 133. Assim, os dois modelos somaram 324 unidades no primeiro semestre.
Esses números ficaram muito distantes da capacidade de 24 mil veículos por ano anunciada para a fábrica.
Enquanto isso, outros carros importados ganharam espaço dentro da própria marca. Esse cenário reduziu a importância da montagem brasileira e aumentou os custos para manter uma estrutura dedicada a veículos de baixo volume.
Dois SUVs podem sair de linha no Brasil
As informações divulgadas pelo setor automotivo indicam que o Discovery Sport e o Range Rover Evoque nacionais continuarão disponíveis enquanto existirem unidades nos estoques.
Depois disso, os dois SUVs poderão deixar o catálogo brasileiro. A JLR concentraria seus investimentos em veículos mais caros e com maior rentabilidade, principalmente dentro das famílias Range Rover e Defender.
O fim desses dois modelos, contudo, não representaria necessariamente a saída da Land Rover do país.
A companhia poderá continuar importando automóveis e atendendo os clientes por meio da rede de concessionárias, oficinas e serviços de pós-venda. A possível despedida, portanto, envolve a produção industrial brasileira, e não obrigatoriamente toda a operação comercial.
Chery negocia assumir estrutura industrial
O Grupo Chery aparece como o principal interessado na fábrica. O conglomerado pretende utilizar o complexo para produzir veículos das marcas Omoda e Jaecoo.
Representantes da fabricante chinesa participaram de reuniões com autoridades municipais e estaduais. As conversas abordaram questões fiscais, jurídicas e administrativas necessárias para manter uma operação automotiva no local.
As negociações também envolvem incentivos tributários. A Chery busca condições que permitam adaptar a fábrica, ampliar a capacidade produtiva e iniciar a montagem nacional de seus veículos.
A CNN informou que as tratativas avançaram e que equipes técnicas analisaram a transição da operação. Entretanto, nenhuma das fabricantes anunciou oficialmente a conclusão da compra ou transferência.
Nova fábrica pode produzir até 100 mil carros
Caso assuma o complexo, a Chery poderá transformar completamente a atual estrutura.
O planejamento citado por reportagens do setor prevê uma capacidade inicial de até 87 mil veículos por ano. Em uma segunda etapa, a fábrica poderia alcançar aproximadamente 100 mil automóveis anuais a partir do segundo semestre de 2027.
A operação também mudaria do sistema SKD para o CKD. Nesse modelo, as peças chegam mais desmontadas e a fábrica assume etapas adicionais, como montagem da carroceria e pintura.
Isso exigiria investimentos, obras e aumento do volume de produção. Em contrapartida, o projeto poderia fortalecer a cadeia de fornecedores e criar novas oportunidades de trabalho. Esses números, porém, ainda fazem parte de planos divulgados nos bastidores e não receberam confirmação oficial da Chery.
Modelos híbridos aparecem nos planos
O Omoda 4 chegou a aparecer como um dos principais candidatos para inaugurar a nova operação. O SUV compacto deverá disputar mercado com Volkswagen Tera, Fiat Pulse e Renault Kardian.
Contudo, informações mais recentes também colocam o Omoda 5 e o Jaecoo 5 entre os primeiros veículos escolhidos para a fabricação nacional.
A Omoda & Jaecoo confirmou que pretende começar a produzir carros no Brasil nos primeiros meses de 2027. A empresa, porém, ainda não revelou oficialmente o endereço da fábrica.
A fabricante atribui o silêncio a acordos de confidencialidade. Mesmo assim, a unidade atualmente ocupada pela JLR continua apontada como a principal opção para o projeto.
Futuro dos funcionários depende da multinacional internacional
A chegada da fabricante chinesa representa a principal esperança para preservar a atividade industrial e os empregos.
Uma transição rápida permitiria aproveitar a estrutura pronta, a localização estratégica e os profissionais já capacitados para trabalhar na indústria automotiva.
Entretanto, o sindicato defende que qualquer negociação inclua garantias para os trabalhadores. A entidade teme que uma mudança de empresa provoque desligamentos ou alterações nos contratos.
Até o momento, a JLR não anunciou demissões coletivas. A Chery também não informou quantos funcionários pretende contratar ou aproveitar caso assuma a fábrica.
Assim, a unidade permanece oficialmente em uma parada planejada. Ao mesmo tempo, a ausência de um cronograma futuro, o baixo volume de vendas e as negociações com o grupo chinês mantêm abertas as dúvidas sobre o fim da produção da Jaguar Land Rover no Brasil.
