Um projeto apresentado pela vereadora Eduarda Campopiano (PL) na Câmara Municipal de Praia Grande, no litoral paulista, reproduz palavra por palavra a proposta que deu origem à lei da maconha da Serra. O texto paulista chega a manter o nome da cidade capixaba: segundo a proposta, o dinheiro das multas iria para entidades de combate às drogas “no município da Serra”, a mais de 700 quilômetros de Praia Grande.
A semelhança veio a público em uma análise da BBC News Brasil. A reportagem mostra que propostas de Campopiano, eleita no último domingo (4) com 1,96 milhão de votos, a maior votação de São Paulo, repetem artigos e justificativas que já circulavam em outras casas legislativas.
O que diz o projeto da Serra
Na Serra, o projeto foi protocolado em 2025 pelo gabinete do vereador Pastor Dinho Souza. Ele dispõe sobre infração administrativa para quem consumir maconha em locais de ambiência familiar e próximo a crianças e adolescentes.
A versão de Praia Grande traz a mesma ementa e os mesmos artigos iniciais. Também repete a definição de espaços públicos, a menção ao Estatuto da Criança e do Adolescente e a multa de meio salário mínimo prevista no texto original. A diferença fica, basicamente, na troca do nome do município. Em um dos parágrafos, porém, a troca não aconteceu, e a Serra ficou no texto.
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Lei da maconha da Serra já está em vigor
Por aqui, a proposta virou lei. Os vereadores Agente Dias (Republicanos) e Pastor Dinho assinaram o projeto, aprovado pela Câmara da Serra em 18 de março de 2026. Em seguida, a lei foi publicada no Diário Oficial da Câmara em 28 de abril.
A norma alterou o Código de Posturas do município. Com isso, o consumo de drogas ilícitas em espaços públicos passou a ser infração administrativa, com multas que chegam a R$ 2.800 em caso de reincidência. A votação, no entanto, dividiu o plenário: vereadores contrários apontaram inconstitucionalidade e defenderam tratar o tema como questão de saúde pública.
Outros textos reaproveitados
A Serra não foi o único endereço que ficou para trás. Segundo a BBC, um programa de educação financeira proposto por Campopiano para Praia Grande fala em beneficiar “cidadãos paulistanos”, termo que designa moradores da capital, e não do município litorâneo.
Além disso, a análise aponta trechos reaproveitados de propostas do vereador paulistano Lucas Pavanato (PL), aliado dela na campanha de 2026, e da deputada estadual catarinense Ana Campagnolo (PL). A reportagem também menciona inspirações vindas do ChatGPT. Campopiano cita Campagnolo e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) como referências políticas.
O Tempo Novo procurou a assessoria de Eduarda Campopiano e os vereadores autores da lei na Serra. O espaço segue aberto para manifestação.
Quem é Eduarda Campopiano
Aos 23 anos, Eduarda Campopiano saltou dos 3.583 votos que a elegeram vereadora de Praia Grande, em 2024, para 1.956.238 votos na disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Com isso, tornou-se a deputada estadual mais votada do estado.
A projeção veio das redes sociais, onde ela construiu a imagem de uma política conservadora e antifeminista. Em entrevista, chegou a se definir assim: “Sou do PL, sou uma mulher conservadora, antifeminista”. Nas redes, também já se apresentou como “a maior inimiga das feministas”.
A declaração mais polêmica envolve o feminicídio. Durante um debate com a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL), Campopiano afirmou: “Eu não acho que feminicídio seja algo que exista”. Na ocasião, ela defendeu que assassinatos de mulheres tenham agravantes ligados à superioridade física do agressor, mas questionou o feminicídio como categoria específica.
A legislação brasileira, no entanto, prevê o feminicídio como crime: é o assassinato de mulheres motivado por violência doméstica e familiar ou por menosprezo e discriminação à condição de mulher. Por isso, a fala voltou a circular depois da eleição e provocou reação de entidades e figuras públicas.
Além disso, Campopiano se posiciona contra o aborto, as cotas raciais e a criminalização da misoginia. Ela promete levar essas pautas para o mandato na Alesp.