Em poucos minutos, parte da memória judicial do Espírito Santo virou cinza. Um incêndio de grandes proporções destruiu, na manhã desta terça-feira (21), o Arquivo Geral do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), no bairro Jardim Limoeiro, na Serra. As chamas começaram por volta das 6h e tomaram o galpão que guardava processos físicos de décadas, num dos maiores danos já registrados ao patrimônio documental do Judiciário capixaba.
O local reunia cerca de 350 mil caixas com processos e documentos das comarcas de Vitória, Serra, Cariacica, Vila Velha e Viana. Inaugurado em 2018, o complexo tem quase 11 mil metros quadrados e funciona às margens da Rodovia ES-010. Não houve feridos. Diversas viaturas do Corpo de Bombeiros de municípios da Grande Vitória atuaram no combate, com apoio de caminhão-pipa da Defesa Civil da Serra e de agentes de trânsito da Prefeitura, que orientaram os motoristas na região.
Uma perda que não volta
Mais do que o galpão, o fogo levou embora anos de história. Presidente do SindjudES, a servidora Maria Clelia esteve no local para acolher os funcionários e resumiu o tamanho do prejuízo. Segundo ela, o dano é irreparável, porque ali estava todo o acervo de processos arquivados do Poder Judiciário. Havia servidores que dedicaram mais de 35 anos ao arquivo do Tribunal e viram o trabalho de uma vida inteira desaparecer em instantes. Não sobrou quase nada do que estava dentro do prédio.
O sindicato disse que acompanha o caso desde as primeiras informações e que permanece à disposição dos servidores, muitos deles ainda abalados. Fisicamente, todos passam bem. O peso, agora, é outro.
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Um risco que já havia sido anunciado
O incêndio reacende um alerta que já circulava. Antes da tragédia, o próprio SindjudES havia publicado reportagens sobre as condições do Arquivo Geral, apontando mofo, risco de incêndio e um ambiente considerado inadequado para a guarda de documentos. Servidores relatavam que o acervo estava mal armazenado e sob ameaça constante. O que era denúncia virou realidade poucos meses depois.
Esse é o ponto que separa um acidente de uma tragédia anunciada. Quando o risco é apontado por quem trabalha no local e o desfecho é exatamente aquele que foi previsto, a pergunta deixa de ser apenas sobre a causa do fogo e passa a ser sobre o que se deixou de fazer antes dele.
O que diz o Tribunal de Justiça
Em nota, o TJES confirmou a perda total dos arquivos físicos, mas afirmou que parte do acervo já estava digitalizada. Segundo o secretário-geral do Tribunal, Anselmo Laghi Laranja, uma parcela significativa dos processos já tinha versão digital. Os que ainda não haviam sido convertidos seriam, em sua maioria, documentos mais antigos, muitos deles já previstos para descarte. O Tribunal informou ainda que processos considerados mais sensíveis, como os de família e inventários, estão preservados.
O TJES também destacou que o Arquivo Geral tinha Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) válido, cobertura securitária contra incêndio e videomonitoramento reforçado. A instituição citou mutirões de limpeza, uma força-tarefa em junho e uma reorganização ampla do espaço promovida em dezembro de 2025, já na gestão da presidente do Tribunal, desembargadora Janete Vargas Simões. Segundo o TJES, bens permanentes novos foram realocados a tempo e não foram atingidos pelas chamas.
O Tribunal afirmou que fará, junto com os órgãos de segurança, uma apuração criteriosa das causas e das circunstâncias do incêndio.
O que fica
Ainda que a digitalização preserve boa parte do conteúdo, o que ardeu em Jardim Limoeiro não se resume a papel. Cada caixa daquele arquivo guardava disputas, direitos, decisões e histórias de famílias capixabas, a própria memória de como a Justiça funcionou no Espírito Santo ao longo de décadas. Uma parte dessa história agora só existe onde já havia sido copiada. O resto, o fogo levou.
