Perdas pode acontecer. Não só com a morte, mas de tantas outras formas que nem sempre a gente nomeia. E cada uma delas, de algum jeito, deixa marcas. A questão é o que a gente faz com o que fica?
Nem toda perda vem com um enterro, um velório, um rito que avisa: “agora é hora de sofrer”. Há perdas que chegam devagar, quase sem fazer barulho, e a gente só percebe depois que já aconteceram. Perder um emprego, um sonho que não se concretizou, uma amizade que se desfez, um amor que se foi. Perder a confiança em alguém, a segurança que se tinha, a sensação de pertencer a algum lugar. São perdas reais, mas muitas vezes silenciosas.
Há também a perda que todo mundo vive, mas quase ninguém aprendeu a lidar que é o envelhecer. O corpo muda, a força diminui, o lugar social se transforma com a aposentadoria e a saída dos filhos de casa. Essas perdas do envelhecimento são difíceis porque não há um luto formal para elas, ninguém entrega flores quando se perde a juventude, ninguém escreve cartas de pêsames quando certas portas se fecham. A pessoa carrega sozinha essa dor difusa, e a saúde mental sente a tristeza sem nome, irritação, isolamento, ansiedade. Tudo isso pode ser luto. Luto pelo que foi e não volta, luto pelo que se esperava ser e não se foi.
Vivemos numa cultura que não gosta de falar de perda, que prefere empurrar a tristeza para debaixo do tapete, que exige da gente estar sempre bem, sempre produtivo. Quem sofre com isso muitas vezes se sente fora de lugar, como se estivesse errado por sentir o que sente.
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Não há um jeito certo de lidar com perdas, cada uma é única, como cada pessoa é única. Mas talvez um caminho possível seja reconhecer que o que estou sentindo é uma perda. É válido sentir-se assim. Não é frescura, não é fraqueza, não é falta de fé. É uma resposta humana a algo que se foi. Esse reconhecimento já é um alívio, porque permite que a pessoa se autorize a sentir. Autorize a chorar, a ficar triste, a não querer fazer nada. Autorize a estranhar o corpo que muda, a sentir saudade do que já foi, a não saber ainda como se reorganizar com o que ficou.
Às vezes, o que mais ajuda é poder falar, com quem escuta sem pressa, sem dar soluções, sem dizer que “vai passar”. Falar com quem sabe que o sofrimento não se resolve com frases prontas, mas se acolhe com presença. Falar com alguém que você tenha confiança. Falar com alguém que te acolhe. Falar com um profissional que entende que o luto não tem prazo, que cada perda tem seu tempo.
Se você está vivendo alguma perda, seja ela qual for, talvez este texto seja um convite para não enfrentar isso sozinho. Não precisa resolver tudo agora, não precisa fingir que está bem. Mas pode começar a nomear o que sente, pode se permitir sentir, pode buscar alguém que escute. O que fica quando se perde é a pessoa que era, agora diferente. E essa pessoa merece cuidado, merece tempo, merece não ser apressada a “superar”. Perder é humano. Mas também é humano encontrar novos jeitos de seguir.
Por Nilson S. Aliprandi, psicólogo clínico – Abordagem Centrada na Pessoa (CRP 16/11049)
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