Quarenta e quatro anos se passaram desde que um grupo de jovens dividiu marchas, acampamentos, treinamentos e a rotina militar no 38º Batalhão de Infantaria (38º BI). O tempo levou cada um para um caminho diferente, mas não conseguiu encerrar uma amizade que começou dentro do quartel, em 1982.
No último sábado (26), antigos integrantes da Companhia de Comando e Serviços (CCS) voltaram a se reunir em Vitória. O encontro aconteceu no Álvares Cabral e manteve uma tradição que, nos últimos anos, passou a fazer parte do calendário dos veteranos e de suas famílias.
A confraternização reúne antigos companheiros que hoje vivem em diferentes cidades e até fora do Brasil. Alguns enfrentam viagens de milhares de quilômetros para participar do reencontro e reviver histórias de uma fase que marcou a juventude de todos.
Além da nostalgia, porém, a iniciativa ganhou outra dimensão. A amizade construída durante o serviço militar se transformou também em uma rede de solidariedade, com mobilizações para ajudar integrantes do próprio grupo e famílias que enfrentam dificuldades.
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Nesta edição, os veteranos reuniram alimentos não perecíveis e fraldas para doação.
Amizade começou entre jovens soldados em 1982

Quando ingressaram no Exército, em 1982, a maioria dos integrantes do grupo tinha cerca de 19 anos.
Os jovens passaram a dividir praticamente todos os dias durante o período de serviço militar. Foram 11 meses e 27 dias de convivência antes das primeiras baixas, termo usado para a saída dos militares do serviço.
Nesse período, enfrentaram treinamentos, marchas, acampamentos, operações e uma rotina marcada por disciplina e trabalho coletivo. A convivência aproximou os integrantes da Companhia de Comando e Serviços e criou vínculos que continuaram mesmo depois que cada um deixou o quartel.
Com o fim do serviço militar, os antigos soldados seguiram profissões e trajetórias completamente diferentes.
Entre eles estão professores, advogados, empresários, dentistas, servidores públicos, policiais e militares que permaneceram no Exército até a reserva.
Alguns também deixaram o Brasil. Há integrantes que atualmente vivem em países como Itália e Portugal.
Um dos casos é o de Leopoldino, de 64 anos. Professor e coordenador de uma universidade na Flórida, nos Estados Unidos, ele costuma viajar ao Brasil para participar das confraternizações. Além disso, mantém um número de telefone brasileiro para facilitar o contato permanente com os antigos companheiros.
WhatsApp ajudou a reunir novamente os antigos companheiros
Embora parte dos veteranos tenha mantido contato ao longo das décadas, a aproximação do grupo ganhou força em 2018.
Naquele ano, os antigos militares criaram um grupo no WhatsApp. A ferramenta facilitou a localização de companheiros que haviam perdido contato e abriu caminho para encontros maiores.
Antes disso, alguns integrantes já promoviam pequenas reuniões. Entretanto, foi a partir da criação do grupo que surgiu a ideia de reunir um número maior de veteranos em uma mesma confraternização.
O primeiro grande encontro aconteceu em 2020.
Desde então, a reunião passou a ocorrer todos os anos e se transformou em uma oportunidade para rever amigos, apresentar familiares e recordar situações vividas durante o período no 38º BI.
Rubens, de 62 anos, está entre os responsáveis pela organização das confraternizações. Para muitos participantes, reencontrar colegas depois de décadas significa voltar, ainda que por algumas horas, ao período em que todos tinham pouco mais de 18 anos.
Tradições do quartel continuam fazendo parte dos encontros
Mesmo décadas depois da saída do Exército, algumas brincadeiras mantêm referências diretas à rotina militar.
Durante as confraternizações, os veteranos reproduzem situações do período de serviço, incluindo as tradicionais flexões determinadas pelo antigo comandante.
A dinâmica virou uma forma descontraída de recordar os tempos de quartel.
Entre uma atividade e outra, surgem histórias sobre treinamentos, companheiros, dificuldades e episódios que permanecem na memória do grupo mesmo depois de mais de quatro décadas.
As reuniões também passaram a incluir esposas, filhos e outros parentes. Dessa forma, os vínculos formados em 1982 acabaram alcançando uma nova geração.
Reencontro deu origem a ações de solidariedade
A união dos veteranos também passou a servir para apoiar quem enfrenta momentos difíceis.
Uma das primeiras grandes mobilizações aconteceu durante o encontro realizado em 2020. Na ocasião, os antigos soldados arrecadaram recursos para comprar uma cadeira de rodas destinada a um companheiro que enfrentava uma doença degenerativa.
A partir daquele momento, o grupo começou a ampliar as ações de apoio.
Quando algum integrante passa por dificuldades financeiras, os veteranos procuram reunir recursos, oferecer ajuda e até buscar oportunidades de trabalho.
O grupo também discute projetos maiores para ajudar companheiros que precisam melhorar suas condições de vida, inclusive com iniciativas relacionadas à moradia.
Assim, os encontros deixaram de representar apenas uma confraternização anual e passaram a funcionar como uma rede permanente de apoio.
Veteranos mantêm memória dos companheiros que morreram
Ao longo dos 44 anos desde o período no 38º BI, quatro integrantes do grupo morreram.
Por isso, os reencontros também reservam espaço para homenagens.
Familiares dos antigos companheiros continuam próximos dos veteranos e participam das confraternizações, preservando a ligação construída ainda na época do serviço militar.
Para o grupo, recordar os amigos que já morreram também faz parte da manutenção da história compartilhada desde 1982.
Laços do quartel atravessaram mais de quatro décadas
O que começou como uma convivência obrigatória entre jovens convocados para o serviço militar acabou se transformando em uma relação que atravessou mudanças de profissão, cidades, países e diferentes fases da vida.
Hoje, mais de quatro décadas depois, os veteranos continuam organizando viagens, encontros e ações sociais para manter o contato.
A cada nova reunião, antigas histórias voltam à mesa, novos familiares passam a fazer parte da confraternização e o grupo reforça uma amizade iniciada quando todos ainda eram jovens soldados.
Do quartel para a vida, a turma da Companhia de Comando e Serviços do 38º BI transformou os meses vividos em 1982 em um vínculo que já dura 44 anos.