Nove homens se tornaram réus pela morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, conhecido como “Bracinho”. Ele estava em situação de rua. Segundo a acusação, o grupo o sequestrou em Vitória e o matou na madrugada de 17 de março deste ano, em uma plantação de eucalipto na Serra. O Ministério Público acusa o grupo de operar como milícia privada na Serra e em outros municípios da Grande Vitória. Todos trabalhavam na equipe de rondas de uma empresa de vigilância privada. Atualmente, oito estão presos e um segue foragido.
O Ministério Público do Espírito Santo apresentou a denúncia em 21 de julho. Já o juiz Vinícius Doná de Souza, da 3ª Vara Criminal da Serra, Tribunal do Júri, a recebeu em 7 de agosto. Na mesma decisão, o magistrado manteve as prisões preventivas. Além disso, determinou o fim do sigilo do processo, porque a Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD) concluiu a investigação da Operação Invisíveis.
São réus Ralson Amâncio Chagas, Celso Henrique de Azevedo, Gabriel dos Santos Amaral e Thiago Gonçalves. Também respondem ao processo Saimon Sales César, Paulo Henrique Esteves Silva, Gabriel Fittipaldi, Rafael de Souza Silva e Lucas Miguel Oliveira dos Santos. Este último é o único que a polícia ainda não localizou.
Milícia privada na Serra sob o pretexto de segurança
Segundo o Ministério Público, o grupo se associou dentro de uma empresa do setor de vigilância sediada em Vitória. A associação tinha um objetivo claro: praticar crimes violentos contra pessoas em situação de rua. As vítimas eram moradores que os clientes da empresa apontavam como autores de pequenos furtos em condomínios. Ainda de acordo com a denúncia, o esquema já funcionava desde 2024. O texto cita sequestro, lesão corporal e tortura, sempre com o mesmo modo de execução.
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O promotor Carlos Furtado de Melo Filho sustenta que os réus “agiram como uma milícia privada”. Para ele, a violência tinha um resultado prático e comercial. As vítimas deixavam a região, os clientes ficavam satisfeitos e a empresa prosperava.
O grupo se comunicava por um grupo de WhatsApp chamado “Rondas”, criado em agosto de 2022. Ralson coordenava as conversas, porque comandava a equipe de rondas e liderava a organização, segundo a acusação. Nas mensagens extraídas dos celulares apreendidos, os integrantes trocavam fotos de abordagens. Em um dos trechos, um deles afirma que morador de rua pego de madrugada estaria “autorizado a bater sem pena”.
Tortura com alicate dias antes da morte
Para o MP, o homicídio foi o desdobramento de uma sequência de violências contra a mesma vítima. Antes disso, entre a noite de 7 e a madrugada de 8 de março, quatro réus capturaram “Bracinho” no bairro Prainha, em Vila Velha. Ele dormia na rua. Em seguida, o grupo o agrediu e usou um alicate para arrancar seus dentes. Enquanto isso, os agressores perguntavam se ele voltaria a furtar. Eles próprios filmaram a sessão. Depois, o laudo odontolegal confirmou a ausência de dentição completa.
Em 16 de março, a vítima invadiu a sede da empresa e levou objetos do local, segundo a apuração. Por isso, o grupo interpretou o episódio como afronta à autoridade que exercia informalmente na região. No mesmo dia, os réus passaram a trocar fotos da vítima pelo WhatsApp para facilitar a identificação. Logo depois, Ralson convocou uma reunião na empresa para acertar os detalhes.
Na madrugada seguinte, quatro deles saíram em uma Fiat Strada e cinco em motocicletas. Eles localizaram a vítima na Praia do Suá, em Vitória, e a dominaram com simulacros de arma de fogo, pistolas de airsoft e de pressão. Enquanto isso, os motociclistas cercavam a área. Então o grupo levou “Bracinho” para uma área de mata na região de Nova Almeida, no Contorno de Jacaraípe. Ali, os réus o espancaram e o abandonaram gravemente ferido.
Ainda naquela madrugada, parte do grupo voltou ao local e encontrou a vítima viva. Mesmo assim, foram embora de novo. Na tarde do dia 17, Saimon retornou por determinação de Ralson e constatou a morte. No dia 18, quatro réus voltaram com pás e cavadeiras e enterraram o corpo em uma cova rasa. A polícia só encontrou “Bracinho” em 20 de abril.
O que sustenta a acusação
A decisão que recebeu a denúncia cita laudo cadavérico, laudo de local e imagens de videomonitoramento. Além disso, o juiz aponta o cerco eletrônico estadual, os depoimentos e a extração de dados dos celulares, sobretudo do aparelho de Saimon. A perícia também identificou sangue humano no banco traseiro da Fiat Strada. O material é compatível com o perfil genético da vítima, conforme o Laudo de DNA Forense nº 173/2026.
Por esse motivo, o juiz negou o pedido de devolução dos celulares e do veículo, que pertencem à empresa.
As imputações variam. Ralson, Gabriel Amaral, Paulo Henrique e Lucas Miguel respondem por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e organização criminosa. Já Celso, Thiago, Saimon e Rafael respondem pelos mesmos crimes e também por tortura. Gabriel Fittipaldi, por sua vez, responde por homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Como qualificadoras, o MP aponta motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Por fim, a denúncia aplica a causa de aumento prevista para crimes cometidos por integrantes de milícia privada.
O MP pediu ainda indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.
Casos de Vitória vão para outra vara
A denúncia também descrevia violências contra Edenilson Gustavo de Barros, em 28 de junho de 2024, e Vinícius dos Santos Ferreira, em 8 de março de 2026, ambas em Vitória. O juiz entendeu que não há liame suficiente com o caso da Serra e declinou da competência, determinando o desmembramento e a remessa de cópia dos autos para uma das varas criminais de Vitória.
Os réus foram citados e têm dez dias para apresentar resposta à acusação. Se pronunciados, serão julgados pelo Tribunal do Júri da Serra. O Tempo Novo não encontrou a defesa dos réus. O espaço permanece aberto para manifestação.

