Uma cidade do Espírito Santo terá mudanças no abastecimento de água após a estiagem reduzir o volume de um dos córregos utilizados para atender a população. A situação levou à adoção de um sistema de rodízio, que dividirá o fornecimento entre diferentes regiões do município.
A situação aumenta a preocupação com os efeitos do Super El Niño, que poderá atingir intensidade muito forte nos últimos meses de 2026. O fenômeno ocorre em um momento de alerta para a disponibilidade de água no Espírito Santo, onde a seca já prejudicou rios e sistemas de captação.
O cenário também preocupa a Grande Vitória. Na Serra, por exemplo, a Prefeitura já elaborou um plano de contingência para enfrentar possíveis impactos do fenômeno, incluindo calor extremo, estiagem prolongada e risco de falta d’água.
A situação traz à memória a crise hídrica de 2016, quando mais de 1,7 milhão de moradores da Grande Vitória enfrentaram racionamento de água durante 55 dias. Naquela época, bairros da Serra, Vitória e outros municípios ficaram sem abastecimento em determinados dias da semana.
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Cidade do Espírito Santo terá rodízio de água após seca em córrego
O município que terá o abastecimento dividido em dias alternados é Mantenópolis, localizado na Região Noroeste do Espírito Santo.
Segundo a Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan), a redução no volume do Córrego Manteninha comprometeu a quantidade de água disponível para captação e tratamento.
Diante da situação, a concessionária decidiu implantar um sistema de rodízio. A cidade será dividida em dois setores, que receberão água em dias alternados, entre 7h e 19h, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
A medida busca distribuir a água disponível entre os moradores e reduzir os impactos da estiagem sobre o abastecimento.
Entretanto, a população já enfrenta dificuldades há algum tempo. Moradores relatam interrupções frequentes, principalmente nas regiões mais altas do município.
Em alguns casos, famílias chegaram a permanecer aproximadamente cinco dias sem fornecimento durante uma semana recente.
A falta d’água também levou parte da população a procurar alternativas, como a utilização de poços. Contudo, existem dúvidas sobre a qualidade dessa água, que ainda depende de avaliação técnica para comprovar sua segurança para consumo.
A Prefeitura de Mantenópolis informou que busca medidas judiciais desde abril para solucionar os problemas no abastecimento.
Além disso, a Cesan acompanha as condições de Águia Branca e Barra de São Francisco. A empresa ainda não anunciou rodízio nessas cidades, mas admite que poderá adotar restrições caso a disponibilidade de água diminua.
Espírito Santo enfrenta seca que já atingiu todos os 78 municípios
A situação de Mantenópolis acontece durante um período de pressão sobre os recursos hídricos capixabas.
De acordo com o 9º Boletim de Monitoramento do El Niño, divulgado pela Defesa Civil Estadual no fim de setembro, a seca moderada atingiu 100% do território do Espírito Santo em agosto de 2026.
O resultado representou uma piora em relação a julho, quando a classificação alcançava 91,7% do estado.
A estiagem reduz a umidade do solo, prejudica a agricultura e pode diminuir o volume de água nos rios utilizados para abastecer a população.
O monitoramento da Cesan também identificou dificuldades em determinados sistemas.
Em 25 de setembro, dos 102 pontos de captação acompanhados pela companhia, 13 estavam em estado de atenção, distribuídos por oito municípios.
Os outros 89 pontos apresentavam condições normais de operação.
Apesar da melhora registrada após as chuvas de setembro, a Defesa Civil mantém o acompanhamento dos mananciais, já que a recuperação não ocorre de maneira uniforme.
Serra depende dos rios Santa Maria da Vitória e Reis Magos para abastecimento
A preocupação com a disponibilidade de água não se limita aos municípios do interior.
Na Grande Vitória, milhões de moradores dependem de sistemas que captam água em rios sujeitos às variações do regime de chuvas.
Na Serra, o principal manancial é o Rio Santa Maria da Vitória, responsável por fornecer água para grande parte do município por meio do sistema que inclui a Estação de Tratamento de Água de Carapina.
O município também conta com o Rio Reis Magos, que abastece regiões como Serra Sede e ajuda a reduzir a pressão sobre o sistema Santa Maria.
A Cesan inaugurou o Sistema Reis Magos em 2017, após antecipar as obras em resposta à grave crise hídrica enfrentada pelo Espírito Santo.
O empreendimento recebeu investimentos de aproximadamente R$ 70 milhões e começou a operar com capacidade de produzir mais de 43 milhões de litros de água tratada diariamente.
Na época da inauguração, a estrutura tinha capacidade prevista para atender diretamente cerca de 150 mil moradores da Serra, além de beneficiar indiretamente outras áreas metropolitanas.
Vitória também depende de dois rios e pode sofrer efeitos de estiagem prolongada
Em Vitória, o abastecimento depende principalmente de dois mananciais: Rio Santa Maria da Vitória e Rio Jucu.
O Santa Maria atende áreas da região continental da capital, especialmente bairros da porção norte. Já o sistema do Rio Jucu fornece água para a região insular de Vitória, além de atender outros municípios da Grande Vitória.
Isso significa que uma estiagem prolongada capaz de reduzir a vazão desses rios pode pressionar o abastecimento de diferentes cidades ao mesmo tempo.
Entretanto, a existência de sistemas interligados e de diferentes fontes de captação ajuda a ampliar a segurança hídrica da região.
Até o momento, não há anúncio de rodízio de água na Serra ou em Vitória por causa do Super El Niño de 2026. O risco depende principalmente da evolução das chuvas, da vazão dos rios e das condições operacionais dos sistemas de abastecimento.
Serra e Vitória já ficaram 55 dias em racionamento de água durante crise histórica
O risco de uma nova crise hídrica chama atenção porque o Espírito Santo já enfrentou uma situação semelhante há dez anos.
Em 2016, depois de aproximadamente três anos de estiagem, o estado passou por uma das piores crises de abastecimento de sua história.
A redução da água disponível nos rios Santa Maria da Vitória e Jucu obrigou a Cesan a implantar um rodízio na Grande Vitória.
O racionamento começou em 22 de setembro de 2016 e terminou em 17 de novembro daquele ano, após 55 dias.
A medida atingiu 416 bairros de Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana e Fundão, alcançando mais de 1,7 milhão de habitantes.
Na ocasião, a concessionária organizou os bairros em sete grupos. Cada região ficava sem abastecimento por 24 horas em um determinado dia da semana.
Depois da interrupção, o sistema ainda poderia levar até 24 horas para restabelecer completamente o fornecimento.
A crise afetou especialmente as localidades atendidas pelo Rio Santa Maria da Vitória, incluindo grande parte da Serra e bairros da região continental de Vitória.
O sistema abastecido pelo Rio Jucu apresentou recuperação mais rápida e teve o rodízio suspenso em 7 de outubro de 2016.
Já as áreas dependentes do Santa Maria permaneceram sob restrições até novembro, quando as chuvas permitiram a recuperação da vazão.
Segundo o balanço divulgado pela Cesan na época, o racionamento permitiu economizar aproximadamente 1,6 bilhão de litros de água.
Esse volume seria suficiente para abastecer o município da Serra por aproximadamente 36 dias, considerando o consumo de referência utilizado pela companhia naquele período.
A crise também acelerou investimentos em infraestrutura, incluindo a implantação do Sistema Reis Magos, que passou a reforçar o abastecimento da Serra no ano seguinte.
Prefeitura da Serra prepara plano para enfrentar Super El Niño e risco de falta d’água
Diante das previsões climáticas para o fim de 2026 e início de 2027, a Prefeitura da Serra decidiu antecipar medidas de prevenção.
A administração municipal elaborou um plano de contingência que reúne ações para enfrentar períodos de seca, temperaturas extremas, incêndios e chuvas intensas.
Em setembro, o município também ativou o Centro Integrado de Comando e Controle do El Niño 2026/2027, responsável por coordenar as medidas de preparação e resposta.
A iniciativa reúne diferentes setores da administração municipal, incluindo Defesa Civil, saúde, educação e assistência social.
Na questão do abastecimento, a preocupação está relacionada principalmente aos efeitos de uma estiagem prolongada sobre os rios e ao aumento do consumo de água durante períodos de calor.
O planejamento também considera outros riscos.
Temperaturas elevadas podem aumentar os atendimentos médicos por desidratação e problemas relacionados ao calor. Já as alterações nos períodos de chuva podem favorecer condições para a proliferação do mosquito transmissor da dengue.
Além disso, a vegetação mais seca aumenta o risco de incêndios, enquanto chuvas concentradas em pouco tempo podem provocar alagamentos e enxurradas.
Super El Niño pode atingir intensidade muito forte ainda em 2026
As autoridades acompanham o avanço do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
Essa alteração influencia a circulação atmosférica e pode modificar a distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes partes do planeta.
Segundo o quarto boletim do Painel El Niño 2026/2027, divulgado em outubro por órgãos federais de monitoramento climático, a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte no trimestre de outubro a dezembro está em torno de 95%.
A expressão Super El Niño é utilizada popularmente para identificar episódios de intensidade excepcional.
No Espírito Santo, a preocupação envolve principalmente a possibilidade de chuvas irregulares, temperaturas mais altas e agravamento das condições de estiagem em algumas regiões.
Entretanto, a Defesa Civil ressalta que o fenômeno não determina sozinho as condições climáticas do estado. As temperaturas do Oceano Atlântico e outros fatores atmosféricos também influenciam o volume de chuvas.
Portanto, embora exista risco de agravamento da seca, não é possível afirmar que todos os municípios enfrentarão racionamento ou atribuir exclusivamente ao El Niño a redução do volume dos rios.
Espírito Santo pode enfrentar novo racionamento de água?
O início do rodízio em Mantenópolis reforça a preocupação com a disponibilidade de água nos municípios capixabas.
Entretanto, a situação atual ainda é diferente daquela enfrentada pela Grande Vitória em 2016.
A região metropolitana conta hoje com estruturas que não estavam disponíveis durante a crise anterior, como o Sistema Reis Magos, que reforçou a oferta de água para a Serra.
Além disso, a Cesan e a Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) acompanham as vazões dos principais rios utilizados para captação.
Mesmo assim, a possibilidade de períodos prolongados sem chuva exige atenção, especialmente nos sistemas que dependem dos rios Santa Maria da Vitória e Jucu.
A orientação é evitar desperdícios, manter as caixas-d’água em condições adequadas e acompanhar os comunicados oficiais sobre o fornecimento.
Por enquanto, Mantenópolis enfrenta a necessidade de rodízio, enquanto Serra, Vitória e outros municípios permanecem sob monitoramento preventivo.
A evolução do El Niño e o comportamento das chuvas nos próximos meses serão fundamentais para determinar se novas cidades precisarão adotar medidas de restrição no abastecimento.