Cientistas conseguiram transformar cheiros em informação digital, enviar esse sinal e recriar o odor em outro aparelho. Até agora, três aromas fizeram essa viagem com sucesso, mas os pesquisadores se recusam a dizer quais. O motivo é uma disputa direta com uma gigante americana de tecnologia para ver quem chega primeiro ao cheiro digital.
O trabalho acontece no Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia. Quem conta a novidade é o professor Johan Lundström, especialista em percepção de odores, em entrevista dada em setembro à rádio sueca P4 Stockholm.
Como funciona o cheiro digital
A lógica parece simples, mas exige psicólogos, químicos e matemáticos trabalhando juntos. Primeiro, a equipe mede os componentes químicos de um cheiro. Em seguida, transforma essa receita em sinal digital. Do outro lado, um aparelho chamado de “tela química” lê o sinal e monta o odor de novo.
Para explicar, Lundström usa uma comparação do dia a dia: ninguém assiste a um vídeo recebido por e-mail sem ter uma tela. Com o cheiro, segundo ele, vale a mesma regra. Por isso, quem recebe precisa do equipamento específico.
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No exemplo dado pelo pesquisador, uma pessoa poderia ver um buquê de rosas em um filme e sentir o perfume das flores ao mesmo tempo.
Projeto milionário reúne três países
A pesquisa faz parte do projeto D2Smell, que recebeu 11,8 milhões de euros do Conselho Europeu de Pesquisa em 2023. O dinheiro é dividido entre Lundström, o israelense Noam Sobel, do Instituto Weizmann, e o alemão Jonathan Williams, da Sociedade Max Planck. A professora Danica Kragic Jensfelt, do KTH, o Instituto Real de Tecnologia da Suécia, também integra o grupo.
A inspiração, segundo os próprios cientistas, veio de Alexander Graham Bell, o inventor do telefone. Assim como ele levou a voz de um lugar para outro, a equipe quer fazer o mesmo com os cheiros.
Não, ainda não dá para receber cheiro por e-mail
Nas redes sociais, a notícia ganhou versões exageradas. Algumas publicações afirmam que os cientistas já mandam cheiros por e-mail e que isso acontece pela primeira vez na história. Nenhuma das duas afirmações é verdadeira.
O e-mail aparece só na comparação feita pelo professor. Além disso, a ideia de transmitir cheiro digital é antiga. Em 1999, a empresa americana DigiScents criou o iSmell, um aparelho que soltava aromas ao abrir um site ou uma mensagem. O negócio consumiu 20 milhões de dólares e fechou em 2001, sem conseguir novos investidores.
A diferença agora está no método. Em vez de liberar cheiros prontos guardados em cápsulas, o grupo tenta reconstruir o odor a partir da composição química.
Por enquanto, a tecnologia segue em fase de pesquisa. Os resultados divulgados até agora vieram de uma entrevista, e não de um estudo científico publicado. Também não há previsão de quando a tela de cheiros vai chegar às casas. A corrida, pelo jeito, já começou.