Uma briga dentro de uma das famílias mais conhecidas do varejo brasileiro ganhou consequências milionárias. A disputa envolve um império imobiliário estimado em R$ 5 bilhões e ajudou a aprofundar a crise de uma gigante do setor de móveis, que agora tenta reorganizar uma dívida de aproximadamente R$ 140 milhões.
A situação chegou a um ponto crítico. Além do pedido de recuperação judicial, uma das empresas ligadas à operação chegou a ter a falência decretada em outro processo. O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), porém, suspendeu os efeitos dessa decisão enquanto analisa um recurso.
No centro dessa crise está a Marabraz, tradicional rede de móveis e eletrodomésticos. A companhia protocolou, no sábado, 15 de agosto, um pedido urgente de recuperação judicial na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
O processo reúne cinco empresas responsáveis pela operação da rede. Juntas, elas apresentam um passivo de R$ 140,188 milhões. A Marabraz afirma que enfrenta principalmente uma crise financeira e de liquidez, mas sustenta que o negócio continua operacionalmente viável.
Leia também
Briga de família atingiu império de R$ 5 bilhões
Para entender como uma das redes mais conhecidas do setor chegou a essa situação, é preciso voltar à organização do patrimônio da família Fares, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Durante décadas, a família acumulou imóveis por meio da LP Administradora, uma holding que concentra um patrimônio imobiliário estimado em aproximadamente R$ 5 bilhões. Esses imóveis tinham uma função essencial para o negócio.
A Marabraz precisava constantemente de capital de giro para comprar produtos, manter estoques, financiar vendas e sustentar suas operações. Para conseguir crédito em condições melhores, integrantes da família apresentavam ativos imobiliários como garantia aos bancos.
Esse modelo funcionou durante anos.
Entretanto, a estrutura começou a mudar após uma disputa entre integrantes da própria família.
Em 2011, os irmãos Nasser, Jamel e Adiel Fares transferiram suas participações na holding para seis filhos. Anos depois, Nasser e Jamel recorreram à Justiça para tentar recuperar as cotas transferidas.
A disputa colocou os patriarcas contra filhos e sobrinhos e passou a envolver diretamente o controle do patrimônio imobiliário bilionário da família.
Pais e filhos foram parar na Justiça
Nasser e Jamel entraram com uma ação em dezembro de 2024 para tentar recuperar uma participação de 66% que havia sido transferida aos herdeiros.
Em março de 2025, eles conseguiram uma decisão favorável em primeira instância. Depois, porém, o caso mudou de direção.
O Tribunal de Justiça de São Paulo reverteu a sentença. Com isso, os herdeiros mantiveram o controle da holding responsável pelo patrimônio imobiliário.
A situação criou um problema importante para a Marabraz.
Isso porque Nasser continuou à frente da rede como CEO, enquanto Jamel permaneceu ligado à área financeira, mas os executivos deixaram de controlar os imóveis usados historicamente como garantias para obtenção de crédito.
Na prática, quem administrava a operação varejista já não tinha o mesmo acesso ao patrimônio que ajudava a garantir os financiamentos.
Gigante dos móveis perdeu garantias usadas para conseguir empréstimos
Esse rompimento aparece como um dos principais pontos apresentados pela Marabraz para explicar sua deterioração financeira.
Segundo a documentação apresentada à Justiça, as disputas societárias fizeram os administradores da operação perderem o controle sobre as empresas detentoras dos ativos imobiliários.
Assim, a Marabraz deixou de contar com parte das garantias que utilizava nas negociações com instituições financeiras.
As consequências atingiram diretamente o caixa.
Os bancos passaram a restringir limites de crédito. Além disso, algumas linhas ficaram mais caras e determinadas operações de capital de giro deixaram de ser renovadas.
Para uma varejista, essa situação causa um problema em cadeia. A empresa precisa de dinheiro para financiar estoques, fornecedores e vendas parceladas. Quando o crédito diminui, a pressão sobre o caixa aumenta rapidamente.
Foi justamente esse cenário que, segundo a empresa, criou uma deterioração progressiva das finanças.
Dívida da gigante de móveis chega a R$ 140 milhões
A crise levou a Marabraz a pedir proteção judicial.
O processo envolve R$ 140,188 milhões em dívidas e reúne cinco sociedades ligadas à operação:
- Comercial de Móveis Jordanésia;
- S.V.C. Jaraguá Comercial;
- Comercial Móveis das Nações;
- Comercial Zena Móveis;
- Monta Móveis Prestadora de Serviços.
Segundo os advogados da rede, essas empresas possuem controle comum e operações interligadas. A petição também aponta a existência de mais de mil reclamações trabalhistas envolvendo companhias do grupo.
Caso a Justiça autorize o processamento da recuperação judicial, a Marabraz pretende apresentar um plano para reorganizar as dívidas. A empresa também pediu a suspensão temporária de cobranças e execuções, além de medidas para preservar bens considerados essenciais às atividades.
Empresa da rede já teve falência decretada
Outro ponto chama atenção e reforça a gravidade do momento.
A Comercial de Móveis Jordanésia, uma das cinco empresas incluídas no pedido de recuperação judicial, já enfrentava um processo no qual houve decreto de falência.
Contudo, a 1ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do TJ-SP suspendeu essa decisão após a apresentação de um recurso. Portanto, os efeitos da falência não estão valendo enquanto o caso continua em análise.
Por isso, a recuperação judicial se torna ainda mais importante para o grupo. O mecanismo permite que uma empresa em dificuldade financeira tente negociar suas obrigações antes que a situação avance para uma quebra definitiva.
Ainda assim, o pedido de recuperação judicial não significa que a Marabraz faliu.
A companhia tenta justamente reorganizar as dívidas para evitar esse desfecho.
Juros altos e consumo também pesaram
A briga familiar não aparece como o único motivo da crise.
A Marabraz também atribui sua situação aos juros elevados, à retração do consumo, ao crescimento da inadimplência e às mudanças provocadas pela digitalização do varejo.
O crédito caro pesa especialmente sobre redes que dependem de financiamento para manter estoques e oferecer vendas parceladas.
Além disso, a empresa enfrentou a perda das garantias imobiliárias justamente em um momento no qual obter dinheiro no mercado ficou mais caro.
A combinação aumentou a pressão sobre o caixa e dificultou a renovação das dívidas.
Rede de móveis chegou a ter 135 lojas
A dimensão da crise chama atenção pelo tamanho alcançado pela varejista.
A Marabraz se tornou uma das marcas mais conhecidas do comércio paulista e chegou a operar 135 lojas espalhadas pela Região Metropolitana de São Paulo, Baixada Santista, Vale do Paraíba e cidades do interior.
Agora, a empresa tenta preservar sua operação enquanto negocia uma saída para a dívida milionária.
A Marabraz informou que as lojas continuam abertas e que pretende manter as atividades normalmente durante o processo. A rede afirma ainda que pretende priorizar empregos e preservar as relações com clientes, fornecedores e parceiros.
Portanto, quem compra na Marabraz não enfrenta, neste momento, um anúncio de encerramento geral das atividades.
O próximo passo depende da Justiça. Até 17 de agosto, as informações disponíveis indicavam que a empresa havia protocolado o pedido e aguardava a decisão sobre o processamento da recuperação judicial.
Se conseguir avançar com a recuperação, a gigante dos móveis terá a oportunidade de apresentar aos credores um plano para renegociar seus compromissos e tentar superar uma crise que mistura R$ 140 milhões em dívidas, crédito mais caro e uma disputa familiar por um patrimônio estimado em R$ 5 bilhões.