Durante boa parte do século 20, um frasco de Biotônico Fontoura era presença comum nos armários de muitas famílias brasileiras. Crianças recebiam colheradas do tradicional fortificante sob a promessa de ganhar força, combater a fraqueza e, principalmente, melhorar o apetite.
O que muita gente talvez não soubesse naquela época é que a fórmula tradicional continha álcool. O produto chegou a ter 9,5% de etanol, uma concentração próxima à encontrada em algumas bebidas alcoólicas, como determinados vinhos espumantes.
A composição só seria modificada décadas mais tarde, quando mudanças nas regras sanitárias brasileiras determinaram a retirada do álcool de tônicos, fortificantes e produtos destinados a estimular o apetite.
Biotônico Fontoura nasceu no interior de São Paulo
A história começou em 1910, quando o farmacêutico Cândido Fontoura Silveira desenvolveu uma preparação para sua mulher, Elvira Siqueira de Castro, que reclamava constantemente de fraqueza.
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A fórmula reunia fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol. Naquele período, era comum que farmacêuticos preparassem medicamentos artesanalmente em suas próprias boticas, utilizando plantas, minerais e diferentes compostos.
Fontoura começou a oferecer o preparado em seu estabelecimento em Bragança Paulista. Aos poucos, médicos da região também passaram a indicá-lo aos pacientes.
Mas ainda faltava algo que ajudaria a transformar aquele preparado regional em uma das marcas mais conhecidas do país, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Monteiro Lobato ajudou a popularizar o produto
Em 1916, Cândido Fontoura se aproximou do escritor Monteiro Lobato. Segundo o relato histórico da marca, Lobato teria recebido o fortificante após reclamar de cansaço e se tornou posteriormente um grande divulgador do produto.
O escritor também teria participado da criação do nome. “Biotônico” fazia referência à ideia de um “tônico da vida”, enquanto Fontoura vinha do sobrenome do farmacêutico.
A parceria avançou ainda mais com o personagem Jeca Tatuzinho.
A história mostrava um homem inicialmente associado à preguiça que, depois de receber atendimento médico, descobria sofrer de ancilostomose, doença popularmente conhecida como “amarelão”. Tratado, o personagem recuperava a disposição.
Fontoura adquiriu os direitos de utilização do personagem, que passou a aparecer na divulgação do Biotônico e em materiais educativos ligados a higiene e saúde. Entre 1926 e 1973, foram publicadas 35 edições do folheto Jeca Tatuzinho, algumas com tiragens médias de cerca de 1 milhão de exemplares.
Biotônico virou parte da cultura popular
Outra estratégia ajudou a colocar o produto dentro dos lares brasileiros: o Almanaque Fontoura.
Distribuída gratuitamente em farmácias, a publicação misturava conteúdos sobre saúde com curiosidades, histórias, piadas, horóscopo, quadrinhos e calendários. No auge, em 1982, chegaram a ser impressos 100 milhões de exemplares do almanaque.
A marca também investiu fortemente em rádio e televisão. Um dos jingles mais lembrados começava com “bê a bá, bê é bé, bê i Bi…”, enquanto personalidades como Pelé, Xuxa e Sandy & Júnior participaram de campanhas publicitárias ao longo das décadas.
Com o tempo, embora tivesse surgido como fortificante destinado a diferentes faixas etárias, o Biotônico se aproximou principalmente do público infantil.
Em muitas famílias, a colherada do produto virou quase um ritual. Também surgiram receitas caseiras que misturavam o fortificante com ingredientes altamente calóricos na tentativa de fazer crianças consideradas muito magras ganharem peso.
Produto tinha álcool
É justamente nessa lembrança da infância que aparece uma das características mais curiosas da antiga fórmula.
Durante décadas, o Biotônico Fontoura continha álcool. O etanol tinha participação importante na preparação farmacêutica, ajudando, segundo especialistas citados no material, na dissolução de componentes pouco solúveis em água, na conservação e na estabilidade da fórmula.
Na época, o consumo de pequenas quantidades de álcool em determinados preparados medicinais não causava o mesmo estranhamento que provocaria atualmente.
Esse entendimento mudou conforme avançaram as pesquisas científicas e as normas sanitárias.
Há cerca de 25 anos, uma determinação federal proibiu a presença de álcool em tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite. Com isso, o Biotônico Fontoura precisou passar por uma reformulação.
Biotônico realmente abria o apetite?
Apesar da fama construída durante décadas, especialistas ouvidos no material original afirmam que não existem evidências científicas de que o Biotônico funcione como estimulante do apetite.
A substância com ação comprovada presente nas formulações históricas era o ferro, utilizado em situações relacionadas à deficiência desse mineral. Ainda assim, a suplementação de ferro deve seguir avaliação adequada, já que seu excesso também pode provocar problemas de saúde.
A popularidade do produto precisa ser entendida dentro do Brasil em que ele surgiu. No início do século passado, problemas como desnutrição, anemia, verminoses e falta de saneamento básico atingiam uma parcela significativa da população.
Nesse cenário, tônicos e fortificantes ganharam enorme espaço nas farmácias e na rotina doméstica.
Fórmula atual do Biotônico não tem álcool
Mais de um século depois de sua criação, o Biotônico Fontoura continua no mercado, mas passou por diversas alterações.
Além da retirada do álcool, a fonte de ferro da fórmula também foi modificada. Segundo a fabricante, desde 2021 o produto utiliza bisglicinato ferroso no lugar do sulfato ferroso. A marca também lançou versões nos sabores uva e morango, além da tradicional.
O produto atual, portanto, é bastante diferente daquele que marcou a infância de milhões de brasileiros ao longo do século passado.
Ainda assim, poucas marcas conseguiram construir uma relação tão longa com a memória popular. Entre colheradas dadas pelas mães, almanaques distribuídos nas farmácias, personagens de Monteiro Lobato e comerciais que atravessaram gerações, o Biotônico Fontoura acabou se tornando mais do que um simples fortificante: virou um retrato de uma época da história brasileira.