Um bilhete da Mega-Sena com defeito de impressão virou uma disputa milionária na Justiça. O caso envolve uma ex-funcionária de uma casa lotérica, o dono do estabelecimento e um prêmio de R$ 29 milhões.
A confusão aconteceu em Sinop, no Mato Grosso. A aposta saiu em uma lotérica da cidade e acertou as seis dezenas de um concurso realizado em agosto de 2023. No entanto, o comprovante tinha falha de impressão, o que abriu uma briga sobre quem teria direito ao dinheiro.
De um lado, está Clarice Simon, ex-operadora de caixa da lotérica. Ela afirma que pagou pelo bilhete danificado e, por isso, teria direito ao prêmio. Do outro, está Amélio Lenke, proprietário da lotérica, que cobra na Justiça a titularidade do valor.
Além disso, o caso também avançou na esfera criminal. Clarice e o marido, Cladecir Picoli, respondem como réus por furto qualificado. Mesmo assim, a Justiça ainda não decidiu quem ficará com os R$ 29 milhões.
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Como começou a disputa pelo prêmio da Mega-Sena
O caso começou em 12 de agosto de 2023, no fim do expediente da lotérica. Naquele dia, Clarice trabalhava no caixa quando atendeu uma cliente interessada em fazer uma aposta da Mega-Sena.
Durante a emissão do jogo, a máquina imprimiu um comprovante com defeito. Por causa da falha, Clarice registrou outra aposta com os mesmos números e entregou o bilhete regular à cliente.
Depois disso, a cliente levou o novo comprovante e, dias mais tarde, recebeu a parte dela no prêmio. Já o primeiro bilhete, com defeito de impressão, permaneceu dentro da lotérica.
As câmeras internas registraram Clarice guardando o bilhete danificado em um cofre desativado. Segundo a investigação, os funcionários usavam esse espaço como uma espécie de armário.
Na noite daquele mesmo sábado, a Mega-Sena sorteou um prêmio total de R$ 116 milhões. Quatro apostas acertaram as seis dezenas. Uma saiu para Fortaleza, no Ceará, outra para Uberlândia, em Minas Gerais, e duas para Sinop, no Mato Grosso.
As duas apostas de Sinop saíram da mesma lotérica.
Funcionária conferiu bilhete e foi até a Caixa
Na segunda-feira seguinte ao sorteio, Clarice voltou ao trabalho no início da tarde. Antes de começar o atendimento, ela retirou o bilhete danificado do local onde havia guardado o comprovante.
Em seguida, a ex-funcionária conferiu os números com ajuda de uma colega de trabalho. As imagens do circuito interno mostram o momento em que as duas percebem que o bilhete tinha acertado as seis dezenas da Mega-Sena.
Pouco depois, Clarice saiu da lotérica. Então, ela seguiu com o marido para uma agência da Caixa Econômica Federal. No banco, de acordo com a investigação, o casal informou que Cladecir Picoli havia feito a aposta.
A partir daí, a situação deixou de ser apenas uma conferência de prêmio e passou a envolver uma disputa judicial.
Justiça bloqueou o prêmio de R$ 29 milhões
A Caixa iniciou uma análise interna porque o comprovante apresentava falhas de impressão. O banco também estabeleceu prazo para verificar a situação antes de liberar o pagamento.
No entanto, antes da liberação do dinheiro, a Justiça determinou o bloqueio preventivo dos R$ 29 milhões. A decisão ocorreu depois que o dono da lotérica registrou uma queixa-crime e alegou furto do bilhete premiado.
Com isso, o prêmio não chegou às mãos do casal. O valor permaneceu retido enquanto a investigação avançava.
Em setembro de 2025, o Ministério Público denunciou Clarice e Cladecir por furto qualificado. Desde então, os dois respondem como réus no processo criminal.
Defesa diz que ex-funcionária pagou pelo bilhete
A defesa de Clarice nega que tenha ocorrido furto. A ex-funcionária afirma que pagou pelo bilhete com defeito de impressão e que esse procedimento fazia parte da rotina da lotérica.
Segundo ela, quando havia diferença no caixa, falha em aposta ou problema operacional, os funcionários precisavam arcar com o prejuízo.
Uma ex-colega que trabalhava com contabilidade e fechamento de caixa na lotérica também declarou que Clarice pagou pelo bilhete danificado.
Por isso, a defesa sustenta que o comprovante não poderia ser tratado como propriedade exclusiva da casa lotérica. Para os advogados, o pagamento do valor da aposta mudaria a situação do bilhete.
Dono da lotérica contesta versão da funcionária
Por outro lado, o proprietário da lotérica afirma que a ex-funcionária não poderia retirar nem tentar receber um bilhete com defeito de impressão.
A defesa de Amélio Lenke argumenta que as regras operacionais não permitem o reaproveitamento de comprovantes com vício de impressão. Portanto, segundo essa versão, Clarice não teria direito ao prêmio, mesmo que tenha pago o valor da aposta.
Na época, o jogo mínimo da Mega-Sena custava R$ 5. Pelas regras gerais das loterias, comprovantes com defeito abaixo de R$ 10 não geravam ressarcimento pela Caixa. Nesses casos, o custo operacional ficava com a unidade lotérica.
Ainda assim, a discussão principal agora envolve outro ponto: quem pode receber o prêmio milionário gerado por aquele bilhete.
Caixa não comenta processo em andamento
A Caixa Econômica Federal informou que não comenta processos judiciais em andamento. O banco declarou que segue a legislação e cumpre as decisões da Justiça relacionadas ao pagamento de prêmios.
Enquanto isso, o Ministério Público mantém a acusação criminal contra o casal. Porém, a promotoria também manifestou entendimento de que o prêmio não pertence automaticamente nem à ex-funcionária nem à lotérica.
Dessa forma, a Justiça ainda terá que definir o destino dos R$ 29 milhões.
As audiências de instrução e julgamento estão marcadas para fevereiro de 2027. Até lá, o prêmio segue bloqueado e a disputa entre a funcionária e o dono da lotérica continua sem desfecho.