Grandes redes de supermercados e farmácias do Brasil começaram a abandonar a escala 6×1 e anunciaram a adoção de um novo modelo de trabalho, que garante duas folgas por semana aos funcionários. Em algumas empresas, a mudança já alcançou todos os trabalhadores das lojas, enquanto outras ampliam gradualmente o benefício para suas unidades.
A transformação envolve algumas das maiores companhias do varejo brasileiro, incluindo Raia, Drogasil, Drogaria São Paulo, Pacheco, Savegnago, Supernosso, Extrabom e Coop. Juntas, essas redes empregam dezenas de milhares de profissionais e estão modificando a maneira como organizam suas equipes.
Com a substituição da escala 6×1 pela 5×2, os funcionários deixam de trabalhar seis dias por semana para descansar apenas um. Agora, passam a ter cinco dias de expediente e dois de folga, que podem ser consecutivos ou distribuídos ao longo da semana.
A iniciativa ganha ainda mais importância em um momento de mudanças na legislação trabalhista. O Senado Federal marcou para quarta-feira, 14 de outubro, a votação em primeiro turno da proposta que prevê o fim da escala 6×1 em todo o Brasil.
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Apesar disso, as empresas não precisaram esperar pela aprovação da nova lei. Muitas decidiram antecipar a mudança para atrair profissionais, reduzir demissões voluntárias e melhorar as condições de trabalho.
Raia, Drogasil, Drogaria São Paulo e Pacheco acabam com escala 6×1
O setor farmacêutico concentra algumas das maiores mudanças já realizadas no país, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
A RD Saúde, responsável pelas redes Raia e Drogasil, implantou a escala 5×2 em suas mais de 3.500 farmácias espalhadas pelo território nacional.
A transformação começou no segundo semestre de 2025, quando a empresa passou a oferecer duas folgas semanais aos farmacêuticos e funcionários que ocupavam cargos de liderança.
Com o avanço da iniciativa, a companhia estendeu o modelo às demais funções das lojas. Dessa forma, todos os trabalhadores dessas unidades passaram a contar com a nova organização do expediente.
A mudança também chegou ao Grupo DPSP, dono das redes Drogaria São Paulo e Drogarias Pacheco.
A empresa substituiu a escala 6×1 pela 5×2 em aproximadamente 1.650 estabelecimentos, distribuídos por 12 estados brasileiros.
Cerca de 24 mil funcionários foram beneficiados, passando a ter dois dias de descanso por semana.
Segundo o grupo, a nova organização contribui para melhorar o ambiente de trabalho, aumentar a satisfação dos profissionais e tornar as oportunidades de emprego mais atrativas.
Tanto a RD Saúde quanto o Grupo DPSP mantiveram a jornada semanal de 44 horas. Portanto, a principal mudança foi a redistribuição do expediente entre cinco dias, e não uma redução da quantidade total de horas trabalhadas.
Gigante dos supermercados também anuncia fim da escala 6×1
Entre os supermercados, o Savegnago ganhou destaque ao decidir ampliar a escala 5×2 para todas as unidades de sua rede.
A experiência começou em uma loja de Indaiatuba, no interior paulista, no final de 2025. Após avaliar os resultados, a companhia levou o novo formato a outros estabelecimentos.
Em janeiro de 2026, a empresa anunciou a expansão para toda a rede Savegnago Supermercados, com implantação gradual a partir de fevereiro.
Parte das lojas do Paulistão Atacadista, pertencente ao mesmo grupo, também entrou no processo.
A companhia preservou a jornada de 44 horas semanais, mas passou a concentrar o trabalho em cinco dias.
Os resultados chamaram a atenção: a procura por vagas de emprego aumentou 120% após a adoção da escala 5×2, segundo informações divulgadas sobre a experiência da rede.
A empresa também identificou benefícios relacionados à permanência dos funcionários, à redução de faltas e aos gastos operacionais.
Supernosso amplia nova escala para milhares de funcionários
Outra grande rede que decidiu substituir a escala tradicional foi o Grupo Supernosso, responsável pelos supermercados Supernosso e Apoio Mineiro.
A companhia iniciou os testes em março de 2026, envolvendo aproximadamente 500 trabalhadores de três unidades.
Os primeiros resultados levaram a empresa a estabelecer um calendário de expansão para seus estabelecimentos.
O planejamento anunciado previa que 45 lojas passassem a utilizar a escala 5×2 até agosto de 2026, alcançando aproximadamente 4.800 funcionários.
Nesse modelo, os empregados continuam cumprindo 44 horas semanais, mas recebem duas folgas em vez de apenas uma.
A rede também precisou ajustar o funcionamento de determinados estabelecimentos para acomodar a nova jornada.
Segundo a companhia, a experiência trouxe melhorias na retenção de profissionais, sem comprometer as vendas das unidades participantes.
Extrabom também anuncia o fim da escala 6×1 em unidades da rede
O Grupo Coutinho, responsável pelos supermercados Extrabom, Extraplus e Atacado Vem, também começou a transformar a jornada de seus funcionários.
A iniciativa teve início em 2026, inicialmente em três lojas do Extrabom.
A empresa escolheu estabelecimentos de Laranjeiras, na Serra, Praia das Gaivotas, em Vila Velha, e Vila Rubim, em Vitória, todos no Espírito Santo.
Nessas unidades, os trabalhadores passaram a cumprir cinco dias de expediente, com dois períodos de descanso semanal.
A experiência abriu caminho para uma ampliação do formato. Em outubro, anúncios de emprego do próprio Grupo Coutinho já apresentavam oportunidades com escala 5×2 em outras unidades do Extrabom e do Extraplus.
A companhia possui mais de 5 mil funcionários, mas a mudança não deve ser interpretada como uma substituição automática da escala em todas as operações do grupo.
Coop e Farmácias São João também adotam duas folgas semanais
A Coop, que atua no comércio de alimentos e medicamentos, também tomou a decisão de modificar as jornadas.
Desde 2 de fevereiro de 2026, todas as drogarias da cooperativa passaram a utilizar a escala 5×2.
A mudança alcançou unidades da região do ABC paulista e de cidades como São José dos Campos, Sorocaba, Piracicaba e Tatuí.
Nos supermercados da Coop, entretanto, a transformação começou por um projeto-piloto em Piracicaba, com avaliação dos resultados antes de uma expansão para outros estabelecimentos.
A Farmácias São João também iniciou a implementação da escala 5×2 em 2026.
O novo formato começou a chegar a unidades da rede, mas ainda exige adaptações relacionadas aos horários diários de expediente.
Em agosto, representantes dos trabalhadores discutiram com a empresa questões envolvendo a duração dos turnos e as dificuldades enfrentadas por funcionários que estudam ou precisam conciliar o emprego com o funcionamento de creches.
Supermercados ampliam escala com duas folgas
A rede de Supermercados Pague Menos, que atua principalmente no interior paulista, também decidiu investir na substituição da escala 6×1.
Os primeiros testes começaram em janeiro de 2026, na cidade de São Pedro.
Posteriormente, a companhia avançou com a implantação em outros estabelecimentos.
Em agosto, a rede confirmou a continuidade da expansão da escala 5×2, com o objetivo de proporcionar melhores condições aos funcionários.
Entre os resultados observados estão a redução de faltas, a melhoria do engajamento das equipes e a diminuição da rotatividade.
Para viabilizar a mudança, algumas lojas também ajustaram seus horários de funcionamento, principalmente aos domingos.
A rede de supermercados Pague Menos não deve ser confundida com a rede de farmácias que utiliza o mesmo nome.
Por que grandes supermercados e farmácias estão acabando com a escala 6×1?
A dificuldade para encontrar e manter funcionários tornou a jornada de trabalho uma questão estratégica para o varejo brasileiro.
Supermercados e farmácias precisam de equipes numerosas para atender clientes durante praticamente todos os dias da semana.
Entretanto, muitas empresas enfrentam problemas para preencher vagas, especialmente em funções que exigem trabalho aos sábados, domingos e feriados.
Nesse cenário, oferecer dois dias de descanso passou a representar uma vantagem competitiva na contratação.
As companhias também identificaram que a escala 5×2 pode ajudar a diminuir ausências, melhorar o ambiente profissional e reduzir a necessidade de substituir funcionários constantemente.
Por outro lado, a implantação exige planejamento. Algumas empresas precisam reorganizar turnos, contratar trabalhadores ou modificar horários de atendimento para manter suas operações.
Trabalhadores terão duas folgas, mas jornada pode continuar em 44 horas
Embora o fim da escala 6×1 represente uma mudança importante, existe uma diferença entre trabalhar menos dias e trabalhar menos horas.
No modelo 5×2, o profissional cumpre expediente durante cinco dias da semana e recebe dois dias de descanso.
Entretanto, se a empresa mantiver a jornada de 44 horas semanais, o funcionário precisará distribuir esse período entre os cinco dias trabalhados.
Nesse caso, o expediente poderá chegar a 8 horas e 48 minutos por dia, sem contar os intervalos que não integram a jornada.
Isso significa que o trabalhador ganha uma folga adicional, mas pode precisar permanecer mais tempo na empresa durante cada dia de trabalho.
Foi justamente esse formato que diversas redes de supermercados e farmácias decidiram adotar antes de qualquer mudança na Constituição.
Senado deve votar fim da escala 6×1
Enquanto as grandes empresas avançam com suas próprias mudanças, o Congresso Nacional se prepara para uma decisão que poderá transformar as regras de trabalho em todo o país.
O Senado Federal deve votar nesta quarta-feira, 14 de outubro de 2026, em primeiro turno, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que estabelece o fim da escala 6×1.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, confirmou o calendário de votação, após a realização das sessões de discussão exigidas pelo regimento da Casa.
A proposta já recebeu aprovação da Câmara dos Deputados em dois turnos, no dia 27 de maio de 2026.
Posteriormente, em 2 de setembro, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou parecer favorável ao texto.
Agora, os senadores deverão analisar a proposta no plenário.
A PEC estabelece três mudanças principais: redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, garantia de dois dias de descanso remunerado por semana e manutenção dos salários dos trabalhadores.
Para avançar, a proposta precisa receber pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores em cada um dos dois turnos.
A possibilidade de acelerar a segunda votação também está em discussão, mas depende do cumprimento ou da dispensa dos intervalos regimentais.
Nova jornada de trabalho poderá começar com 42 horas semanais
Caso o Senado aprove a proposta sem alterar o conteúdo que veio da Câmara, o Congresso poderá promulgar a emenda constitucional.
Entretanto, a redução da jornada não acontecerá integralmente de uma só vez.
O texto estabelece um período de adaptação para trabalhadores e empresas.
Primeiro, o limite semanal cairá das atuais 44 horas para 42 horas, após 60 dias da publicação da emenda.
Depois, a jornada máxima chegará a 40 horas semanais, conforme o cronograma de transição previsto na proposta.
A legislação também passará a assegurar dois dias de repouso remunerado por semana, preferencialmente com um deles aos domingos.
Os trabalhadores não poderão sofrer redução salarial em decorrência da diminuição da carga horária.
Se o Senado aprovar modificações no conteúdo, a proposta precisará retornar à Câmara dos Deputados para nova análise.
Escala 6×1 ainda está valendo no Brasil
Apesar das mudanças anunciadas pelas empresas e do avanço da proposta no Congresso, a escala 6×1 ainda continua permitida pela legislação brasileira.
Até o momento, não existe uma determinação nacional que obrigue todos os supermercados, farmácias e demais empregadores a oferecer duas folgas semanais.
A mudança realizada pelas redes citadas nesta matéria ocorreu por iniciativa das próprias companhias, em diferentes etapas de implantação.
Raia, Drogasil, Drogaria São Paulo e Pacheco já adotaram a escala 5×2 em toda a operação de suas lojas. O Savegnago anunciou a expansão para todos os seus supermercados, enquanto outras redes avançaram por meio de projetos-piloto ou cronogramas de ampliação.
A votação marcada para 14 de outubro poderá representar um novo passo para transformar essas iniciativas empresariais em um direito garantido pela Constituição.
Até que a proposta conclua a tramitação e entre em vigor, porém, a obrigatoriedade geral do fim da escala 6×1 ainda não existe.