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Serra quer proibir caminhões pesados na antiga BR-101 nos horários de pico

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Foto: Acidente registrado na BR-101, no trecho que compreende o perímetro proposto para restrição ao tráfego pesado de caminhões. A imagem integra o material técnico apresentado pela Prefeitura da Serra e reforça o argumento de que a medida tem como foco principal a preservação de vidas. Crédito: Prefeitura da Serra.
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A Prefeitura da Serra abriu um debate estratégico sobre a mobilidade urbana do município ao apresentar a proposta de restringir a circulação de veículos pesados na Avenida Mestre Álvaro (antiga BR-101), no trecho mais urbano da cidade, que vai da entrada de Laranjeiras até o Viaduto de Carapina.

A administração municipal apresentou a medida oficialmente em dezembro do ano passado e previu sua entrada em vigor para 1º de março de 2026. No entanto, a restrição ainda não entrou em prática porque Prefeitura e setor produtivo não chegaram a um consenso.

De acordo com o documento técnico do município, a proposta regulamenta o trecho entre o km 266 (entrada de Laranjeiras) e o km 271 (Viaduto de Carapina), totalizando aproximadamente cinco quilômetros. A regra atinge caminhões e carretas com Peso Bruto Total (PBT) superior a 23 toneladas, estejam eles vazios ou carregados.

Além disso, a Prefeitura pretende aplicar a limitação de segunda a sexta-feira, nos horários de pico, das 6h às 9h e das 16h às 19h. O texto também prevê exceções para veículos de emergência, serviços essenciais e aqueles que possuírem autorização prévia. Paralelamente, o município estabelece um período de adaptação de 30 dias entre a publicação do decreto e o início efetivo da vigência.

Crédito: Proposta de decreto municipal para regulamentar o trânsito de caminhões e carretas no trecho urbano da Avenida Mestre Álvaro em Serra/ES. Prefeitura da Serra.

Justificativas técnicas da Prefeitura

A Prefeitura sustenta a proposta com dados de tráfego e segurança viária apresentados no material técnico. Segundo informações do cerco eletrônico do Detran-ES, em Carapina, cerca de 170 mil veículos circulam diariamente pela Avenida Mestre Álvaro. Desse total, 23.800 são veículos de carga, o que representa aproximadamente 14% do fluxo geral.

Além do volume de tráfego, os dados de segurança reforçam o argumento do Executivo. Entre janeiro e setembro de 2025, o trecho registrou 3.032 acidentes e 89 mortes. Ainda segundo os números apresentados, 30% das vítimas fatais envolveram ocorrências com carros e caminhões.

Apesar de 23.800 veículos de carga trafegarem diariamente pelo local, esse número não corresponde ao total que deixaria de circular com a nova regra. Isso porque a proposta atinge apenas caminhões e carretas com PBT superior a 23 toneladas. Dessa forma, veículos menores, como VUCs, caminhões 3/4 (baú) e parte dos trucks de menor porte, continuariam autorizados a circular normalmente, inclusive nos horários de pico. Na prática, a restrição alcançaria apenas os veículos de grande porte dentro desse universo de quase 24 mil caminhões que passam diariamente pelo trecho.

Segundo a Prefeitura, embora os caminhões representem uma parcela menor da frota total, eles impactam diretamente a fluidez do trânsito e a gravidade dos acidentes, especialmente nos horários de maior movimento. Com isso, o município busca melhorar a circulação viária, reduzir congestionamentos, aumentar a segurança e, consequentemente, elevar a qualidade de vida da população.

Experiências usadas como referência

Para fundamentar a proposta, o estudo municipal cita exemplos de outras cidades que já adotaram restrições semelhantes. Em Vitória, há limitação para veículos acima de 10 toneladas. Em São Paulo, vigora a Zona de Máxima Restrição, que proíbe caminhões das 5h às 21h no centro expandido. Curitiba restringe caminhões acima de 7 toneladas nos horários de pico, enquanto Belo Horizonte limita a circulação das 6h às 20h. No Rio de Janeiro, a proibição ocorre das 6h às 21h em áreas centrais. Além disso, a própria Serra já restringe veículos acima de 23 toneladas na Avenida Norte-Sul, conforme o Decreto nº 3312/2018.

A contraproposta da ASES

Ases recebe lideranças para debater proposta de restrição ao tráfego de caminhões pesados na Avenida Mestre Álvaro. Crédito: divulgação.

Por outro lado, a Associação dos Empresários da Serra (ASES), que lidera as negociações sob a perspectiva do setor produtivo, apresentou contrapontos técnicos. A entidade não rejeita o debate, mas defende que o município só implemente a restrição após realizar intervenções estruturais.

Entre os principais argumentos, a ASES destaca a limitação das rotas alternativas indicadas pela Prefeitura. Segundo a entidade, a Rodovia ES-010, embora duplicada, já opera com fluxo intenso de veículos leves e, portanto, não teria capacidade para absorver o redirecionamento de caminhões sem comprometer a fluidez.

Além disso, a associação sugere criar uma rota integrada conectando a BR-101 ao Contorno do Mestre Álvaro, com o objetivo de distribuir melhor o tráfego e evitar sobrecarga nas vias urbanas. A entidade também defende que o município execute obras estruturais antes de aplicar qualquer restrição, como a implantação de mergulhões nas saídas da Arcelor e da Vale, a construção de solução em desnível na saída da Eldes Scherrer, a conclusão da Avenida Industrial, a reorganização da saída do Viaduto de Carapina e a sincronização do sistema semafórico nas principais vias da cidade.

Paralelamente, a ASES propõe a criação de postos de apoio estruturados para caminhoneiros, com áreas adequadas de descanso e serviços básicos. Segundo a entidade, essa medida reduziria paradas irregulares e contribuiria para a segurança viária.

Impactos econômicos em debate

A presidente da ASES, Leonelle Lamas, afirmou que o setor empresarial realizou estudos técnicos e apresentou alternativas ao município.

“Fizemos nosso dever de casa, em conjunto, entregamos as soluções encontradas para amenizar impactos. Devolvemos respostas mostrando que não é viável nem fazer teste sem adequações e implementações. Todos sofrem grandes impactos com a proposta apresentada pela Prefeitura.”

A entidade reforça que a Serra concentra o maior polo industrial do Espírito Santo e figura entre os principais polos logísticos do Estado. Segundo o material apresentado, decisões tomadas sem planejamento prévio podem elevar custos operacionais, comprometer a competitividade, impactar a geração de empregos e até estimular a migração de empresas para outros municípios.

O impasse

Embora a Prefeitura tenha provocado o debate e estruturado a proposta com base em dados técnicos, a implementação depende de consenso com o setor produtivo. A medida deveria ter começado em março, porém segue em discussão.

Atualmente, o diálogo envolve reuniões técnicas com representantes da Prefeitura da Serra, ASES, Findes, Fecomércio-ES, Sindilojas, Sindivarejista, Polícia Rodoviária Federal e lideranças empresariais. Enquanto isso, a restrição permanece suspensa até que as partes avancem em um entendimento comum.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é jornalista, publisher e sócio-diretor do Jornal Tempo Novo, veículo fundado em 1983 na Serra (ES) e referência na cobertura da Serra e da Grande Vitória. Conduziu a transformação digital do jornal, que em 2025 foi eleito o melhor site estadual de notícias no Brasil Publisher Awards. No portal, assina a coluna Mestre Álvaro, com análises sobre política, economia, segurança pública, infraestrutura e meio ambiente, sempre com leitura crítica dos fatos e apoio em dados. Formado em Administração pela Ufes, é autor do livro Serra: a história de uma cidade (2024). Recebeu a Ordem do Mérito Domingos Martins e a Comenda Augusto Ruschi, da Assembleia Legislativa do ES, e a Comenda Nelson Mandela, da Câmara Municipal da Serra. Com leitura crítica dos fatos e uso de dados públicos, acompanha de perto a gestão municipal, as eleições e os temas que mexem com o dia a dia de quem vive na Serra. É autor do livro Serra: a história de uma cidade (2024), uma reconstituição jornalística da trajetória do município.

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