Uma das fabricantes de veículos mais conhecidas pelos brasileiros entrou em uma fase decisiva de sua história. Pressionada pela queda nas vendas, pelos custos elevados e pelo avanço das marcas chinesas, a empresa prepara uma ampla reestruturação mundial.
No cenário mais duro analisado pela direção, até 100 mil postos de trabalho poderão desaparecer nos próximos anos. Além disso, quatro grandes fábricas enfrentam o risco de perder a produção e encerrar as atividades depois de 2030.
Entretanto, a montadora ainda não confirmou o fechamento das unidades nem a dispensa obrigatória de 100 mil funcionários. Parte dos cortes já integra acordos anteriores, enquanto uma nova redução ainda depende de avaliações internas e de negociações com representantes dos trabalhadores.
A empresa é a Volkswagen, dona de marcas como Audi, Porsche, Skoda, Seat, Cupra, Bentley e Lamborghini. No primeiro semestre de 2026, a fabricante ocupou o segundo lugar no mercado brasileiro de automóveis e comerciais leves, atrás apenas da Fiat. Foram 224.923 veículos emplacados e 16,55% de participação nacional.
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Montadora coloca 100 mil empregos no centro da reestruturação
A possibilidade de uma redução histórica no quadro de funcionários ganhou força depois que o presidente-executivo do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, enviou uma mensagem interna aos trabalhadores.
No documento, o executivo afirmou que a companhia poderá precisar eliminar cerca de 50 mil postos adicionais para reduzir a diferença de custos em relação aos concorrentes.
O grupo já havia acertado aproximadamente 50 mil cortes nas diferentes empresas que controla. Agora, portanto, uma nova rodada poderia elevar a redução total para até 100 mil empregos em todo o mundo.
Segundo Blume, a Volkswagen calcula que opera com uma desvantagem de aproximadamente 20% nos custos quando comparada a empresas semelhantes. Por isso, a direção avalia mudanças em todas as marcas, regiões e divisões do conglomerado.
Ainda assim, os outros 50 mil cortes representam uma estimativa teórica. A empresa continuará analisando quantas vagas realmente precisará eliminar e quais medidas poderá aplicar sem recorrer a desligamentos em massa.
As 100 mil demissões já estão confirmadas?
A Volkswagen não confirmou que demitirá imediatamente 100 mil funcionários, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Na prática, o número reúne duas etapas diferentes. A primeira envolve cerca de 50 mil reduções que já fazem parte de acordos e programas de reestruturação no grupo.
Essas saídas atingem empresas como Volkswagen, Audi e Porsche. Entretanto, parte delas ocorrerá por meio de aposentadorias, desligamentos voluntários, redução natural do quadro e cancelamento de vagas que ficarem abertas.
A segunda etapa corresponde a aproximadamente 50 mil empregos adicionais que a direção poderá cortar caso não consiga diminuir as despesas por outros caminhos.
Dessa forma, os 100 mil postos representam o cenário mais severo considerado pela companhia, e não uma lista definitiva de funcionários que já receberam aviso de demissão.
Além disso, a forte presença dos sindicatos na estrutura da Volkswagen obriga os executivos a negociar mudanças profundas. Representantes dos empregados já impediram a aprovação completa do primeiro plano apresentado pela direção.
Quatro fábricas podem fechar
Enquanto discute os empregos, a Volkswagen também tenta definir o futuro de quatro grandes complexos industriais na Alemanha.
As unidades que entraram no centro da reestruturação ficam em Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm. As três primeiras pertencem diretamente à marca Volkswagen, enquanto Neckarsulm integra a operação da Audi.
O principal problema envolve a falta de projetos considerados competitivos para manter essas fábricas funcionando durante a década de 2030.
Segundo Oliver Blume, a companhia ainda não encontrou atividades capazes de garantir a utilização rentável das quatro unidades no futuro. Por esse motivo, a direção analisa desde a redução da capacidade até o fechamento completo.
Entretanto, nenhuma das quatro fábricas recebeu uma ordem definitiva de encerramento. As decisões devem passar por novas reuniões, avaliações financeiras e negociações com os representantes dos trabalhadores.
Além disso, a própria direção afirma que prefere encontrar soluções alternativas antes de fechar as plantas.
Montadora procura alternativas para evitar o fechamento
Entre as possibilidades estudadas aparece a entrada de outras empresas nas fábricas que hoje operam abaixo de sua capacidade.
A Volkswagen poderá dividir espaços industriais com parceiros, vender partes das unidades ou transferir novos projetos para os locais ameaçados.
Além disso, o grupo já citou a possibilidade de produzir na Europa veículos originalmente desenvolvidos para o mercado chinês. Outra opção envolve parcerias com empresas do setor de defesa.
Com essas medidas, a companhia tentaria ocupar áreas ociosas e preservar ao menos uma parte dos empregos. Porém, os projetos ainda precisam demonstrar viabilidade econômica.
Ao mesmo tempo, a montadora pretende reduzir sua capacidade industrial e diminuir gradualmente a quantidade de modelos oferecidos. A estratégia poderá levar a empresa a concentrar veículos semelhantes em um número menor de fábricas.
Fábrica da Audi já perdeu capacidade e turno de trabalho
A situação da unidade de Neckarsulm demonstra como o processo de redução já começou dentro do grupo.
A fábrica da Audi opera atualmente com capacidade anual de 225 mil veículos, cerca de 75 mil unidades abaixo dos níveis registrados anteriormente.
Além disso, a montadora retirou o turno noturno da planta, que produz exclusivamente automóveis com motores a combustão. A direção da Audi afirma que adapta a capacidade conforme as condições do mercado.
Mesmo assim, a unidade permanece entre as quatro fábricas que poderão enfrentar um fechamento depois de 2030.
A Audi também registrou queda de 12,5% na receita durante o segundo trimestre de 2026. O lucro operacional ficou em 533 milhões de euros, com margem de 3,6%, abaixo da meta anual de 5% a 7%.
Cortes já avançam em outras marcas do grupo
A Porsche, outra empresa controlada pela Volkswagen, também ampliou seu programa de redução de pessoal.
A fabricante de veículos esportivos acertou o corte de aproximadamente 9 mil postos até 2035. O número representa cerca de um quinto do quadro de funcionários registrado no fim de 2024.
Desse total, 5 mil cortes entraram em um novo acordo firmado com representantes dos trabalhadores. As saídas ocorrerão principalmente por programas voluntários e redução natural da equipe, sem demissões obrigatórias previstas nessa etapa.
Em contrapartida, a Porsche comprometeu-se a manter seus principais centros abertos até o fim de 2035 e anunciou investimentos de 2,1 bilhões de euros nas unidades de Stuttgart-Zuffenhausen e Weissach.
Portanto, embora os 100 mil cortes ainda não estejam totalmente definidos, a reorganização já produz efeitos concretos dentro das diferentes marcas do conglomerado.
Problema histórico na China agrava a crise da montadora
A perda de espaço na China aparece entre os principais motivos para a Volkswagen acelerar os cortes.
Durante muitos anos, o mercado chinês sustentou uma parte importante dos resultados do grupo. No entanto, marcas locais passaram a lançar carros elétricos e híbridos com preços competitivos, tecnologia avançada e ciclos de desenvolvimento mais rápidos.
Como consequência, as entregas da Volkswagen na China despencaram 36,6% no segundo trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período anterior. Foi a maior queda trimestral da empresa no país desde o fim de 2021.
Além disso, as entregas mundiais do grupo recuaram 8,6% no trimestre, para 2,077 milhões de veículos. O desempenho negativo na China anulou o crescimento registrado na América do Norte e em partes da Europa.
A Volkswagen pretende reagir com mais de 20 modelos eletrificados desenvolvidos para consumidores chineses. Porém, a empresa ainda enfrenta dificuldades para competir com fabricantes como BYD e Geely.
Concorrentes chineses avançam também na Europa
A pressão deixou de atingir somente as operações da Volkswagen na China.
Fabricantes chinesas começaram a ampliar as vendas e a instalar fábricas dentro da Europa. Dessa maneira, conseguem reduzir custos logísticos e disputar diretamente os consumidores que antes compravam principalmente veículos de marcas europeias.
Ao mesmo tempo, essas empresas oferecem carros elétricos e híbridos plug-in com preços menores e recursos tecnológicos competitivos.
Para Oliver Blume, a Volkswagen precisa agir antes que a concorrência ganhe ainda mais espaço em seu principal mercado doméstico. O executivo afirmou que mais de 150 fabricantes disputam consumidores na China e que várias dessas marcas avançam sobre a Europa.
Além disso, tarifas comerciais e despesas elevadas nas fábricas alemãs pressionam os resultados do grupo.
Volkswagen reduz previsão para 2026
O lucro operacional da Volkswagen caiu 9,5% no segundo trimestre de 2026, chegando a 3,5 bilhões de euros.
No mesmo período, a receita alcançou 82,4 bilhões de euros e a margem operacional ficou em 4,2%.
Apesar de manter a projeção de margem anual entre 4% e 5,5%, a companhia abandonou a expectativa de crescimento da receita. Agora, a Volkswagen admite que o faturamento poderá cair até 3% em 2026.
A revisão reforçou a pressão para que a direção reduza custos rapidamente. No entanto, analistas também identificaram sinais de estabilização no fluxo de caixa e nos resultados do segundo trimestre.
Ainda assim, a empresa permanece distante da margem de 8% a 10% que pretende alcançar até o fim da década.
Montadora poderá cortar metade dos modelos
Outra mudança em discussão envolve o tamanho do catálogo de veículos do Grupo Volkswagen.
A companhia reúne dezenas de modelos distribuídos entre marcas populares, esportivas e de luxo. Embora várias empresas compartilhem plataformas e componentes, a variedade aumenta os custos de desenvolvimento, produção e publicidade.
Por isso, a Volkswagen pretende diminuir gradualmente sua linha mundial de veículos. O plano poderá reduzir o catálogo pela metade.
A empresa deverá concentrar os recursos nos projetos com maior possibilidade de lucro. Enquanto isso, veículos com vendas baixas, margens reduzidas ou funções semelhantes poderão deixar de receber novas gerações.
Além disso, a montadora poderá transferir modelos entre fábricas e concentrar a produção em unidades consideradas mais competitivas.
Fábricas brasileiras não aparecem na lista de fechamento
Apesar da força da Volkswagen no mercado nacional, as quatro fábricas ameaçadas pela reestruturação não ficam no Brasil.
A Volkswagen do Brasil mantém unidades produtivas em São Bernardo do Campo, Taubaté e São Carlos, no estado de São Paulo, além de São José dos Pinhais, no Paraná.
Até agora, a direção não incluiu essas fábricas na relação de plantas que poderão fechar. Da mesma forma, a companhia não anunciou que trabalhadores brasileiros entrarão na nova possibilidade de 50 mil cortes.
Além disso, a operação nacional atravessa um momento diferente do enfrentado pelo grupo em alguns mercados internacionais.
No acumulado dos seis primeiros meses de 2026, a Volkswagen vendeu 224.923 automóveis e comerciais leves no Brasil. Com isso, ficou na segunda posição do ranking nacional, atrás da Fiat, que registrou 270.941 unidades.
A marca também liderou o mercado brasileiro quando considerados somente os automóveis, com 199.826 emplacamentos no primeiro semestre.
Portanto, o plano global não significa que as fábricas brasileiras fecharão. Qualquer afirmação nesse sentido, neste momento, não encontra confirmação nos comunicados ou nas informações divulgadas pela empresa.
Crise internacional pode influenciar futuros investimentos
Mesmo sem cortes anunciados no Brasil, uma reestruturação desse tamanho poderá influenciar as decisões futuras da montadora.
A Volkswagen poderá rever onde fabricará cada veículo, quais países receberão novos investimentos e quais unidades produzirão modelos destinados à exportação.
Além disso, fornecedores brasileiros acompanham as negociações porque alterações internacionais podem mudar encomendas de peças, projetos de engenharia e estratégias de lançamento.
Entretanto, a operação brasileira também recebeu um plano de investimentos de R$ 16 bilhões para o período de 2024 a 2028. Os recursos contemplam as unidades de São Bernardo do Campo, Taubaté, São Carlos e São José dos Pinhais.
Assim, não existe até agora uma indicação pública de que a Volkswagen pretende interromper a produção no país.
Volkswagen entra em período decisivo
A direção da Volkswagen espera definir os principais pontos da reestruturação até o fim de 2026.
Antes disso, executivos, sindicatos e representantes dos funcionários precisarão discutir o número real de cortes, o futuro das quatro fábricas e as alternativas para reduzir a capacidade ociosa.
Caso a companhia encontre novos projetos para Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm, poderá evitar o fechamento completo das unidades.
Por outro lado, se os custos continuarem altos e as soluções alternativas não avançarem, a Volkswagen poderá aplicar a parte mais dura do plano.
Nesse cenário, a redução mundial chegaria a até 100 mil postos de trabalho e quatro grandes fábricas poderiam encerrar a produção depois de 2030.
Portanto, a montadora ainda não bateu o martelo sobre todas as medidas. Porém, a queda na China, o recuo dos lucros e o avanço dos concorrentes deixaram claro que o grupo prepara uma das maiores transformações de sua história.