Uma das maiores redes de supermercados do Brasil entrou em um período de forte reorganização. Em apenas três meses, a companhia mandou fechar 28 lojas e reduziu seu quadro em mais de 6 mil funcionários.
O movimento acontece justamente em uma empresa que movimenta mais de R$ 40 bilhões por ano. Além dos fechamentos, outros números passaram a chamar atenção do mercado, incluindo queda no lucro, vendas mais fracas e uma redução drástica nas projeções de expansão para os próximos anos.
Ao mesmo tempo, a companhia enfrenta duas autuações bilionárias da Receita Federal e ainda tenta deixar para trás uma polêmica contábil envolvendo uma diferença de R$ 1,1 bilhão nos estoques.
A rede por trás dessa sequência de acontecimentos é o Grupo Mateus, dono de supermercados e atacarejos espalhados principalmente pelas regiões Norte e Nordeste. A companhia aparece entre as maiores empresas do varejo alimentar brasileiro.
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Somente no primeiro trimestre de 2026, o grupo fechou 28 estabelecimentos. Durante o mesmo período, seu quadro caiu de aproximadamente 47,9 mil para 41,2 mil trabalhadores.
Na prática, a redução alcançou 6.673 funcionários e ocorreu em seis estados. O próprio presidente do conselho da companhia, Ilson Mateus Rodrigues, também afirmou durante a apresentação dos resultados que a empresa continuaria buscando redução de despesas, embora tenha indicado que os próximos cortes não seriam direcionados aos funcionários.
Rede de supermercados fecha 28 lojas em apenas três meses
A mudança no tamanho da operação chama atenção pela velocidade. As informações foram apuradas pelo Portal Tempo Novo.
O Grupo Mateus encerrou 28 lojas durante o primeiro trimestre de 2026. Em contrapartida, inaugurou apenas quatro novos estabelecimentos no mesmo período.
Portanto, o número de fechamentos ficou sete vezes acima do total de novas unidades abertas naquele trimestre.
A decisão faz parte de uma estratégia voltada para eficiência e rentabilidade. Dessa forma, a companhia passou a concentrar esforços em lojas consideradas mais produtivas e a reduzir estruturas que entregam resultados abaixo das expectativas.
Esse movimento representa uma mudança importante para uma empresa que passou anos acelerando a expansão pelo Norte e Nordeste.
Durante esse período, o Grupo Mateus entrou em novas cidades, ampliou atacarejos, abriu supermercados e fortaleceu sua estrutura de distribuição.
Agora, entretanto, o ritmo mudou.
A própria XP destacou que apenas quatro lojas foram abertas no primeiro trimestre, o menor ritmo recente de inaugurações, enquanto a empresa passou a colocar maior foco em eficiência em vez de expansão.
Grupo demite mais de 6 mil funcionários
A redução no número de trabalhadores também foi expressiva.
No fim de 2025, aproximadamente 47,9 mil pessoas faziam parte do quadro da companhia. Três meses depois, esse número havia caído para cerca de 41,2 mil.
A diferença chega a 6.673 funcionários, uma redução superior a 13% no período. Segundo informações divulgadas após o balanço do primeiro trimestre, as demissões atingiram operações em seis estados.
Além disso, a companhia contabilizou cerca de R$ 26 milhões em custos de rescisões relacionados ao programa de produtividade adotado pelo grupo.
A redução acontece enquanto o Grupo Mateus tenta adequar sua estrutura a um cenário no qual as vendas avançam em ritmo menor.
Lucro da gigante dos supermercados caiu 22%
Os cortes não ocorreram isoladamente.
O Grupo Mateus terminou o primeiro trimestre de 2026 com lucro líquido de aproximadamente R$ 213 milhões.
Apesar de continuar no azul, o resultado representou uma queda de cerca de 22% em relação ao mesmo período de 2025.
O Ebitda, indicador utilizado para acompanhar o desempenho operacional das empresas, também recuou.
O resultado ficou em aproximadamente R$ 400 milhões, uma queda de 18,2% na comparação anual.
Além disso, as vendas nas mesmas lojas recuaram 7,3%. Esse indicador considera apenas os estabelecimentos que já funcionavam nos dois períodos analisados e ajuda a mostrar se as unidades existentes estão vendendo mais ou menos.
A XP classificou os números do primeiro trimestre como fracos e informou que a receita líquida ficou 8% abaixo das estimativas da instituição.
Entre os fatores que pressionaram os resultados estão a deflação de alguns alimentos, o crédito mais restrito ao consumidor, o endividamento das famílias e mudanças realizadas pela própria companhia em seus canais de venda.
Banco reduz drasticamente projeção de novas lojas
Outro sinal de alerta apareceu nas projeções para os próximos anos.
Em junho, o Banco Safra revisou suas estimativas para o Grupo Mateus e passou a trabalhar com um cenário de crescimento bem mais lento.
Anteriormente, o banco esperava a abertura de 31 lojas em 2026. Depois da revisão, essa projeção caiu para apenas cinco unidades.
Para 2027, a estimativa despencou de 23 para quatro novas lojas.
Já para 2028, o Safra passou a projetar nenhuma inauguração.
As expectativas de faturamento também sofreram cortes.
O banco reduziu suas estimativas de receita do Grupo Mateus em:
- 13% para 2026;
- 17% para 2027;
- 22% para 2028.
Além disso, o Safra prevê pressão sobre as margens operacionais e reduziu de R$ 6 para R$ 4,50 o preço-alvo das ações da companhia para um período de 12 meses. Apesar disso, manteve recomendação neutra para os papéis.
Portanto, o mercado não acompanha apenas os fechamentos ocorridos neste ano. Analistas também reduziram de maneira significativa suas expectativas sobre o ritmo de crescimento futuro da rede.
Problema de R$ 1,1 bilhão nos estoques chamou atenção
Os sinais de pressão começaram a ganhar maior repercussão ainda em 2025.
Na divulgação do balanço referente ao terceiro trimestre daquele ano, o Grupo Mateus apresentou uma revisão de aproximadamente R$ 1,1 bilhão no valor dos estoques registrados anteriormente.
As mercadorias estocadas referentes a 2024 estavam contabilizadas em cerca de R$ 6 bilhões. Após a correção, esse valor caiu para aproximadamente R$ 4,9 bilhões.
A diferença provocou grande repercussão no mercado financeiro.
Na ocasião, as ações da empresa chegaram a cair aproximadamente 25%. A revisão também reduziu o patrimônio líquido em quase R$ 695 milhões.
A companhia atribuiu o problema a mudanças e correções no sistema utilizado para calcular o custo médio das mercadorias.
O Grupo Mateus afirmou ainda que a revisão não provocou saída de caixa nem comprometeu os limites financeiros estabelecidos em contratos de dívida.
Mesmo assim, o episódio aumentou a atenção dos investidores sobre os controles internos da companhia.
Receita Federal cobra mais de R$ 2,3 bilhões da rede de supermercados
Além das questões operacionais e contábeis, o Grupo Mateus enfrenta uma disputa bilionária com a Receita Federal.
Em setembro de 2024, a controlada Armazém Mateus recebeu um auto de infração de aproximadamente R$ 1,059 bilhão.
A Receita questionou a exclusão de créditos presumidos de ICMS das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL referentes ao período entre 2014 e 2021.
Depois, em junho de 2026, chegou uma nova cobrança.
Dessa vez, o valor alcançou R$ 1,28 bilhão, referente aos exercícios fiscais de 2022 e 2023.
Do total da segunda autuação, aproximadamente R$ 493 milhões correspondem ao valor principal. Outros R$ 789 milhões envolvem juros e multas.
Somadas, as duas autuações chegam a aproximadamente R$ 2,34 bilhões.
A companhia contesta as cobranças.
Segundo o Grupo Mateus, avaliações jurídicas indicam fundamentos para defender que os procedimentos tributários adotados respeitaram a legislação.
Por isso, a empresa classificou as contingências como de “perda possível”. Dessa forma, não precisou provisionar imediatamente os valores cobrados.
A XP avaliou a nova autuação como um fator negativo por adicionar risco jurídico e tributário à empresa. Entretanto, a instituição também destacou que não espera impacto imediato no caixa, já que a discussão pode se prolongar nas esferas administrativa e judicial.
Rede de supermercados está em crise?
Apesar da sequência de notícias negativas, ainda não existem elementos suficientes para afirmar que o Grupo Mateus enfrenta uma crise financeira.
A companhia continua lucrativa, possui baixo nível de endividamento e segue gerando caixa.
No primeiro trimestre, por exemplo, a relação entre dívida líquida e Ebitda caiu para apenas 0,3 vez. Além disso, a empresa registrou fluxo de caixa livre positivo.
Outro contraponto importante veio da Fitch Ratings.
Em 24 de julho de 2026, a agência reafirmou para o Mateus o rating nacional de longo prazo AAA(bra), acompanhado de perspectiva estável. Essa classificação representa o nível mais alto da escala nacional da Fitch.
Portanto, o cenário atual combina dois movimentos.
De um lado, existem fechamento de lojas, milhares de demissões, lucro menor, desaceleração das vendas, projeções de expansão reduzidas, uma revisão bilionária de estoques e disputas tributárias que somam mais de R$ 2,3 bilhões.
Do outro, a companhia permanece lucrativa, mantém geração de caixa e apresenta uma estrutura financeira considerada sólida pelas agências de risco.
Mesmo após fechar lojas, rede continua inaugurando unidades
O Grupo Mateus também não abandonou completamente sua estratégia de expansão.
Na sexta-feira, 7 de agosto, a companhia inaugurou uma nova unidade do Mix Mateus em Cametá, no Pará.
Com a abertura, a empresa chegou a 314 lojas em operação no país.
Isso mostra que a estratégia atual não consiste simplesmente em fechar estabelecimentos.
Na prática, o grupo tenta substituir a expansão acelerada por uma seleção mais rigorosa dos mercados onde pretende investir.
A prioridade agora está na rentabilidade das operações existentes e em novas lojas consideradas estratégicas.
Rede movimentou mais de R$ 40 bilhões em 2025
O tamanho da companhia torna a reestruturação ainda mais relevante.
Segundo o Ranking Abras 2026, o Grupo Mateus alcançou aproximadamente R$ 43,5 bilhões em faturamento em 2025, resultado que colocou a companhia como a terceira maior empresa do varejo alimentar brasileiro.
Já a receita líquida consolidada atingiu R$ 38,4 bilhões no ano, enquanto o lucro líquido chegou a aproximadamente R$ 1,56 bilhão.
O grupo controla diferentes operações no varejo. Entre as principais bandeiras estão Mix Mateus, Mateus Supermercados, Camiño, Eletro Mateus e Armazém Mateus.
Fundada pelo empresário Ilson Mateus Rodrigues, a companhia construiu nas últimas décadas uma das maiores estruturas supermercadistas do país.
Agora, porém, os números mostram uma nova fase.
Depois de anos acelerando inaugurações, o Grupo Mateus fechou 28 lojas em apenas um trimestre, demitiu mais de 6 mil funcionários e passou a concentrar esforços em rentabilidade e eficiência.
Ao mesmo tempo, a queda do lucro, a revisão das projeções, as autuações da Receita e o episódio envolvendo os estoques colocam a rede em alerta e aumentam a pressão por melhores resultados nos próximos trimestres.
O próximo retrato financeiro da empresa chegará em breve. O Grupo Mateus marcou a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026 para 13 de agosto, após o fechamento do mercado. Os números poderão mostrar se as medidas de redução de custos começaram a surtir efeito ou se a pressão sobre as operações continuará durante o restante do ano.
