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Os impactos do “Contorno” em Nova Almeida e Praia Grande e os interesses por trás da política de mobilidade para a região

Nova Almeida, na Serra, e Praia Grande, em Fundão, são aquilo que eu chamo de “balneários irmãos”
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Embora pertencentes a municípios diversos, ambos os distritos compartilham ao longo do tempo muitos atrativos que ainda hoje encantam milhares de visitantes do estado e do Brasil, entre eles a tranquilidade de suas praias. Crédito: Divulgação
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Por Vilson Vieira Junior, jornalista e Mestre em Ciências Sociais pela UFES

Historicamente unidos e conhecidos pela natureza abundante, tradições culturais e pelo bucolismo, Nova Almeida, na Serra, e Praia Grande, em Fundão, são aquilo que eu chamo de “balneários irmãos”. Embora pertencentes a municípios diversos, ambos os distritos compartilham ao longo do tempo muitos atrativos que ainda hoje encantam milhares de visitantes do estado e do Brasil, entre eles a tranquilidade de suas praias, o ar puro, a rotina de cidade de interior e o tempo que corre sem muita pressa, na velocidade das águas do rio Reis Magos. 

Tudo isso mesmo estando situados em plena região metropolitana. No entanto, esse cenário vem se alterando drasticamente nos últimos anos, e uma realidade bem diferente começa a mudar a cara desses dois balneários, nos fazendo lembrar, de um jeito nada agradável, que somos parte da Grande Vitória. Essa mudança vem, em grande medida, impulsionada pela forte expansão logística e industrial do vizinho do norte, o município de Aracruz, e por decisões políticas ligadas a esse contexto, com impactos que atingem em cheio os balneários serrano e fundãoense. 

As transformações na rotina dessas comunidades são inúmeras, e entre as mais importantes está o trânsito. Quem circula a pé pelas ruas antes calmas e com poucos veículos, já não consegue atravessar as vias de um lado ao outro facilmente como outrora (nem mesmo na faixa), pois o tráfego está cada dia mais intenso e pesado. Tem até congestionamento em hora de pico, um problema que antes o morador de ambos os lados do rio só enfrentava ao circular por outros bairros da Grande Vitória. Aliás, “hora de pico” não era uma expressão comum ao cotidiano de quem vive por aqui.

É que a ES-010, rodovia estadual que atravessa o perímetro urbano de Nova Almeida e Praia Grande, e que já trazia a esses locais um movimento intenso de caminhões que circulam entre Serra e Aracruz, ganhou uma companheira de peso na tarefa de saturar o trânsito e torná-lo mais problemático. Refiro-me à ES-115, ou Contorno de Jacaraípe, inaugurada em 2025 com a promessa de, pasmem, “redução de congestionamentos e qualificação da circulação urbana”, além de devolver “a área litorânea aos moradores e turistas, ao retirar o trânsito pesado do local”, segundo o próprio Governo do Estado, autor da obra.

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Ora, se há alguma conexão com a realidade nesse discurso, ela só existe quando o governo afirma que a nova rodovia foi concebida para conectar Laranjeiras a Nova Almeida, porque é público e notório que a vinda do Contorno deixou as avenidas centrais de Nova Almeida e Praia Grande, quando não congestionadas, mais inseguras e caóticas, já que boa parte do seu fluxo, que segue para o litoral norte, deságua nas vias centrais daqueles balneários. Pior para pedestres, ciclistas e usuários do transporte coletivo, que não costumam ser prioridade nas políticas públicas de mobilidade urbana, pensadas e feitas sob medida para agradar a interesses do grande empresariado capixaba.

A esse respeito, importante enfatizar que o real objetivo da ES-115 vai muito além de “desafogar” o fluxo de veículos na região litorânea. O que pesou decisivamente para que o Estado investisse R$ 228 milhões na rodovia foi o crescimento industrial acelerado por que passa Aracruz. Em breve, a cidade sediará a nova fábrica da montadora de veículos chinesa GWM, entre outros grandes empreendimentos de capital internacional, todos concentrados num parque logístico e industrial situado entre Barra do Riacho e Barra do Sahy. Nesse sentido, entenderam que era necessário encurtar o deslocamento entre a região industrial e portuária da Serra – Civit e complexo de Tubarão, respectivamente – e a emergente Aracruz. 

Além disso, a intenção com o novo eixo viário é criar  “uma nova frente de desenvolvimento para a região”, propósito este, inclusive, já escancarado pela imprensa hegemônica capixaba ao noticiar que áreas controladas pela Suzano às margens da rodovia estão sendo negociadas com grandes empresários. Foi mirando nessa alvo, nesses interesses que passam ao largo dos anseios da população, que surgiram o Contorno de Jacaraípe e os impactos negativos na esteira desse investimento. Caso contrário, a população de Nova Almeida e Praia Grande não enfrentaria tantos transtornos e riscos em meio a um trânsito de cidade grande.

Não se trata, aqui, da velha dualidade de ser “contra ou a favor” a um empreendimento privado ou uma obra pública. A questão é mais complexa, envolve a importância da participação popular efetiva (ou a falta dela) nas decisões públicas que afetam as populações locais. Afinal, é de praxe que, no Espírito Santo e em diversas cidades capixabas, decisões social e ambientalmente impactantes sejam tomadas entre lobistas do poder econômico e políticos, bem distantes do escrutínio público e ao largo de Planos Diretores Municipais (PDMs) e de orçamentos públicos supostamente participativos.

À sociedade civil, resta o papel de referendar, geralmente a contragosto, decisões das quais não participou de maneira orgânica ou para as quais sequer foi convidada a opinar em condições de igualdade. Pode parecer paradoxal, mas a causa (ou uma das principais causas) do crescimento desordenado de muitas cidades é o planejamento urbano como o conhecemos, que teima em tratar como assuntos de segunda categoria questões ambientais, culturais, históricas e de identidade inerentes às comunidades. Se continuar assim, tanto Nova Almeida como Praia Grande se tornarão meros corredores de passagem de um desenvolvimento econômico que menospreza as particularidades dos territórios e não inclui a todos.

Para concluir, uso as linhas que me restam para falar da Ponte Flodoaldo Borges Miguel, a popular “Ponte Nova”, principal ligação entre os balneários de Serra e Fundão, mas que de “nova” só lhe sobrou o nome. Ela também nos serve de exemplo para a reflexão que trago aqui, dadas as condições altamente degradantes da sua estrutura, que não vê os cuidados do Estado há décadas, revelando, mais uma vez, os reais objetivos que movem as políticas de mobilidade urbana na Grande Vitória. Afinal, o eixo viário pelo qual irão circular os lucros do grande empresariado já não é mais a ES-010 – pelo menos não naquela região. A cada dia com menos concreto, a “Ponte Nova” envelheceu mal, e a população enxerga nela não mais uma via de ligação entre os dois bairros, mas um risco potencial em razão do fluxo de veículos sufocante que sobre ela trafega diariamente.

Se ao longo de tantos anos esses “balneários irmãos” estiveram unidos, e sempre foram conhecidos, por sua rotina tranquila, cultura e belezas naturais em comum, hoje tais virtudes sucumbem aos problemas de uma metrópole e ao crescimento desordenado estrategicamente planejado para benefício de poucos.

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